O pancadão do Cara de Cavalo

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por Nelson Vinencci (*)

Todos os dias, de segunda a sexta, lá pelas 18h30 surge na rua onde moro um carro pancadão. Logo no início, de dentro de casa, me recusava a olhar aquele absurdo de som que subia os degraus da escadaria e invadia meus ouvidos.

Moro na rua Siqueira Campos, a da Matriz. Parece combinado com alguém, ou talvez por pura abestalidade do motora do pancadão: ele passa religiosamente às tardezinhas desfilando com seu possante carro, com toneladas de som, sem que ninguém lhe importune ou mande ele para PQP.

Nos primeiros dias que a barulheira passava na minha venta, já dava para perceber que o sujeito que guiava a tralha gostava de música sertaneja, daquelas que a mulherada mete chifre na dupla e condena os coitados a berrarem suas dores corneais em suas modinhas chorosas e quase sempre melodramáticas. Um tipo de música que chamo de “sertanojo barato” – de amor barato, perfume barato, essas coisas bregas.

Certo dia, havia acabado de chegar em casa, quando o som explodiu nos meus tímpanos. Então coloquei a cara na sacada para matar minha curiosidade, e saber por que diabos esse infeliz passava ali, olhar a fuça dele para saber quem era o praga, se eu o conhecia ou coisa assim…

Olhei e vi um motorista com “cara de cavalo”. Um tipo de venta igual a que o Pixilinga usava para a do Roni: “Cara de carrinho de pipoca antigo”. Caboclo da cara cumprida.

É estranho, mas realmente não o conheçia. E olhe que conheço muita gente com cara de cavalo em Santarém, mas esse nunca vi ninguém nem parecido.

Juro que ao olhar a figura dentro do pancadão, o som no toco, e ele com a cara de quem estava sentado num geléia, os dentes saiam boca a fora, o olhar de satisfeito, fixo para frente, como se estivesse numa competição e ele vencendo, indo buscar um valioso troféu, guiando seu pancadão num autódromo lotado de aplausos.

Rolava um batidão. Tuchs-tuchs-tuchs-tuchs… o estrondo tremia o prédio e o prédio me tremia de raiva. Só me restou rogar uma praga para ele passar com aquela porcaria embaixo da rede da avó dele, para ver a reação da velha, que certamente ia cacetar o ratuíno com o pinico dela.

Interessante que quando apareceu som alto em carros, os playboys curtiam Barry White – You’re The First, The Last, My Everything, um som de alto nível. Quando passava um playboy com aquele som maravilhoso, causava inveja na gente. Hoje, o pancadão causa ódio, as músicas são tão fuleiras que faz a gente praguejar e odiar o satanás.

Passei a observar mais, pois sou músico e já percebo um excesso de apologia produzidas por bandinhas que vivem no desespero do sucesso, então começam a produzir na linha do oportunismo, sons que chamo de “vômitos de paredão”.

‘Liguei meu paredão na beira do calçadão / só veio mulherão…’ e por aí vai… baboseiras produzidas especificamente para caras de cavalo, donos de camionetes que na realidade são mais ostentadores, que querem aparecer, possuidores de algum dinheiro, ou poder, através dessa barulheira burra, sem contudo e infernal.

Não sou contra nenhuma música, desde que ela esteja equalizada, que não agrida ninguém e se o conteúdo for bom, ótimo. Se não for, também tudo bem, não aturo excesso de som exageradamente agressivo, ruído ensurdecedor.

Se o cara de cavalo quer ouvir o som dele alto que coloque um fone de ouvido e ligue seu paredão só para ele, longe de mim. Agora querer obrigar que eu ouça a música dele, por que ele acha que é da moda, ou interessante no seu pancadão, aí não aceito.

Não me convenço que um ser humano que raciocine, e sinta algo dentro da normalidade humana, consiga apreciar um ruído agressivo, nada mais que um barulho, na intenção que a gente olhe para um brinquedinho que custou caro, o pancadão de um cara de cavalo.

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* É natural de Oriximiná e reside em Santarém. Escreve regularmente neste blog.


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17 Responses to O pancadão do Cara de Cavalo

  • Nelson, você foi bem criativo, pontuou muito bem que ouve e respeita todos os tipos de música e do que não gosta mesmo é dos exageros. Nem ninguém gosta, só sendo cara de cavalo!
    Acho que vai pegar essa, qualquer estilo musical tocado em alto mal som é coisa de cara-de-cavalo!
    Só num entendi mesmo qual é a desses cara-de-burros defendendo os cara-de-cavalos!
    Passo a bola pra ti, como é mesmo a cara de um cara-de-burro?

  • E estamos nós, ou no Blog escrevendo a respeito ou na orla vendo esses babacas.
    quando é que alguem vai pra rua com uma manifestação popular contra uma pouca vergonha deste tipo?

  • Também sou vitima desses arruaceiros, moro no centro, na Francisco Corrêa, quando esses tipos descem rumo a orla, o prédio onde moro treme.

    Chico Corrêa

  • Nelson,
    Sobre o som em volume máximo, vc tem razão. Porém, cuidado Nelson, há previsão legal para as diferenças regionais (art. 3º, III e IV, da CF/88), vc poderá responder um processo de indenização pelos escritos precipitados. Pense nas consequências antes de escrever.

  • Prezados Jeso & Cia, isso é muuuuita sacanagem. Mas pimenta no dos outros , p/ qm eh grande fdp, eh engraçado. Tem gente em Stm q/ se amanhecer morto , a policia nao vai saber nem por onde começar as investigações pois o bicho cativa tantos inimigos figadais q/ a policia não vai saber nem por onde começar. Vive enchendo o de muitos, a torto e a direita e no final, na maior cara de pau, se faz de vítima. Rir…

    1. Toba arrupiado, tô desconfiado que tu és o Cara de Cavalo… ka ka ka ka ka ka ka ka ka ka ka

  • Eu já disse há alguns anos em um artigo no meu saudoso blog (https://goo.gl/IFRqK) , que esses caras que andam com som alto provavelmente têm algo pequeno que escondem no meio das pernas e precisam se sentir “os caras” perante às “tchutchucas” que cotejam, numa transferência de valores freudianos…

    Concordo com o Nelson que é inadmissível conviver com os idiotas que andam com o som a milhares de decibéis do que é permitido por lei, e, pior ainda, com um péssimo gosto musical. Mas mesmo que ouvissem Chico Buarque (meu preferido), eu teria a mesma opinião, pois o direito de um cessa onde começa o do outro. Isso é lei basilar. Não posso querer impor meu estilo aos berros a qualquer um. E o mesmo devo esperar dos outros.

    Aproveitando o tema, relato que estive sábado (17/09) em Alter-do-Chão participando do TwitterBar e depois dei uma volta na praça do Sairé, onde presenciei um show bizarro na rua que corta a praça, depois das barracas e antes do estacionamento: dezenas de carros desses “brega-boys” estacionados e com os sons no mais alto volume, num verdadeiro corredor polonês do mau gosto.

    Cada um queria mostrar que seu som era mais “ereto” que o do outro (rsrsrs). Alguns chegavam a dançar rituais esquisitos (que nada lembravam as danças do Sairé) em cima das capotas dos carros. Bebidas e gatinhas ao redor. Um show de descerebrados…

    Saudades do juiz Leonel Figueiredo (que atuou em Santarém há cinco anos, hoje na região do Marajó), que comprou uma briga com esses infratores tendo se utilizado do artigo 54 da legislação ambiental, apreendendo diversos veículos e dando perdimento às aparelhagens, além de aplicar multas rigorosas.

    Só quando doer no bolso, é que se conseguirá acabar com essa praga. Mas infelizmente, acho que ainda teremos que continuar convivendo com os descerebrados do som, com caras de cavalo ou não. Ou será que o secretário do meio ambiente vai conseguir impor sua lei do silêncio, pelo menos em locais públicos, como já foi anunciado aqui no blog?

  • Excelente texto…. Uma pena que poderia ser um conto, mas é a pura realidade que sofre os ouvidos das pessoas que moram principalmente no centro da cidade de Santarém. Cara de cavalo e cerébro de minhoca.

  • Boa!!! Não gosto de concordar com o Nelson, mas dessa vez sou obrigado a dar-lhe meus parabens!!! Santarém está cheio de “caras de cavalo”, sua maioria desconhecidos imigrantes que faliram em seus estados natais do centro/sul e tiram onda de bacana em nossa cidade. E nossas “cunhãs” juram que estão fazendo bom negócio dando (confiança) para eles, mas quando casam, descobrem que deram o golpe do baú ao contrário. Boa Nelson!!!

  • Achei de péssimo gosto isso … não gosto de música sertaneja assim como acho música regional um saco, com essa parada de canoa, curumim e lua cheia. Mas esse post beira o racismo! rídiculo!!!
    Quando não se pode contribuir com nada é melhor ficar calado! Essa é a ‘minha’ opinião …

    1. Piquena quem te chamou pra cá? Se tu não gosta de canoa, curumim e lua cheia, mana estás no lugar errado… Deus me livre do Goias, por isso estou aqui ora! Se gostasse de piqui, chifre e música sertaneja estava por lá cantando os nhem, nhem, nhem dos cornos.

      1. Não da pra reclamar quando vemos nossos conterraneos paraenses sendo discriminados em manaus, já que alguns pseudo-intelectuais como você, que historicamente se acham “donos da cidade” agem com tanta xenofobia (em nivel estadual) com irmãos brasileiros que por motivos que so a eles interessam resolveram aqui se instalar. Sera que você reclamaria com tanta veemencia se o carro do tal “cara de cavalo” tocasse as musicas de nossa terra? Que diga-se de passagem, ninguem gosta e so toca em locais públicos quando subsidiadas pelo poder público, para agradar a burguesia mocoronga que mora da borges leal pra baixo. Música é uma junção de melodia e letra, algumas tem letras belas (musica local), outras tem ritmo dancante (sertaneja) e cativa as multidoes. Portanto mais respeito com o gosto musical dos demais!!! Concordo que som em volume extremo não agrada ninguem, por melhor que seja a musica.

      2. Sr Nelson ainda bem que o senhor não gosta de Goias, pois não terão o desprazer de lhe conhecer, agora não entendi o que tem a ver Goias, com cara de cavalo, com musica alta etc……

        sds
        Luis Brandão dos Santos
        Óbidos-Pa.

      3. PEqueno, ninguém me chamou pra cá! eu nasci aqui … e amo minha terra .. acho que gosto musical é uma coisa muito particular … mas comentários como o seu me envergonham. Quando se expressa uma opinião (ainda mais de natureza xenofóbica) também devemos estar preparados para as críticas … vc deve aprender a ouvi-las e aceitá-las ou então CALE-SE e não fale besteiras.

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