por Samuel Lima (*)
Os dois maiores bancos públicos do país, Banco do Brasil (BB) e Caixa Econômica Federal (CEF), seguindo orientação de Estado, anunciaram a redução das taxas de juros para crédito aos clientes, como é o caso do cheque especial e cartões de crédito.
No BB caem de 13,62% para 3% os juros no crédito rotativo do cartão; na CEF, os encargos no cheque especial caíram de 8,01% para 1,35% ao mês. Nas páginas de O Globo e da Folha de S. Paulo, no entanto, essa notícia de caráter histórico é tratada sem nenhum contexto, nem memória.
Para começar, nas reportagens analisadas não há nenhuma menção aos lucros recordes do sistema financeiro, historicamente ancorados na espoliação de clientes (através de taxas de juros extorsivas), bem como no desvio da função primordial de um banco – que seria executar a intermediação financeira, estimulando a atividade produtiva na sociedade.
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Os banqueiros “se acostumaram” a especular e extorquir dinheiro dos clientes, seja através de juros abusivos ou pela cobrança indiscriminada das tarifas, que somadas as receitas de prestação de serviços cobrem em mais de 100% as despesas de pessoal. Nenhum infográfico, tabela ou informação que ajudasse o leitor a compreender o alcance da medida, caso a regulação dos bancos públicos seja eficaz e puxe o mercado à prática desejada pela sociedade.
Febraban dispara antes…
No caso da Folha de S. Paulo, a primeira providência foi chamar o consultor Roberto Luis Troster, ex-economista chefe da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), que disparou em artigo (“Crédito a 2% ao mês? Não vai dar certo”):
Isso é inviável. Lamentavelmente, da maneira que está sendo lutada, é uma batalha perdida. Não é por falta de boa vontade ou de capacidade dos envolvidos. Sem subsídios ou prejuízos, não é possível. Os grandes bancos no Brasil não conseguem emprestar ao consumidor nesse patamar de taxas. Basta analisar seus balanços e verificar que as margens almejadas seriam deficitárias (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/35496-credito-a-2-ao-mes-nao-vai-dar-certo.shtml, acessada em 06/04/12, às 11h36).
Para Troster, que agrega ao seu local de “fala” o fato de ser também ex-professor da PUC-SP, Mackenzie e USP, “existem, sim, alguns abusos, mas são localizados. Os dois bancos citados e a maioria das outras instituições não praticam esses abusos”.
Como assim? E os lucros exorbitantes do sistema financeiro, incluindo os bancos públicos, foram gerados em cima de quê? Qual o impacto dos juros escorchantes e das apostas em títulos da dívida pública nos ganhos dos banqueiros? Quando os bancos voltarão a cumprir o papel de banco, ou seja, praticar a intermediação financeira sem espoliar clientes e a sociedade?
As fontes mobilizadas pela reportagem de O Globo também não esboçam qualquer discussão sobre o modelo do sistema bancário no país, tampouco falam de seus lucros estratosféricos. Considerando os cinco maiores bancos, o lucro líquido somado chegou aos R$ 50,7 bilhões, em 2011. Os dados são do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócioeconômicos (DIEESE – Linha Bancários: https://www.dieese.org.br/esp/desempenhoBancos2011.pdf).
Também pudera, entre essas instituições (Banco do Brasil, CEF, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander), o índice de cobertura das despesas de pessoal com receitas de prestação de serviços e tarifas atinge 108,6%, na Caixa Federal, e chega ao máximo de 163,0% no Santander.
Banqueiros querem “compensação”
Voltando à reportagem d’O Globo, o texto abre espaço para os banqueiros que naturalmente não apostam na medida: “Os bancos privados avaliam que o spread (diferença entre o custo da captação e o valor cobrado do tomador final) somente cairá com a adoção de medidas de longo prazo, que melhorem as condições legais e tributárias e não apenas corte de juros “na canetada” (https://oglobo.globo.com/economia/apos-bb-caixa-baixarem-juros-bancos-privados-contra-atacam-4509664).
Mesmo sem contextualizar o assunto adequadamente, a matéria de Geralda Doca tem o mérito de trazer informações de bastidores que deixam claro a estratégia da Febraban: pressionar o governo Dilma a adotar medidas compensatórias (no tocante às garantias e à redução de impostos cobrados dos bancos).
Ainda que seja promissora a aposta do governo federal, ao orientar os bancos públicos a praticarem taxas de juros mais baixas, é mister lembrar que uma taxa de juros de 1,35% (ao mês) no cheque especial (oferta da CEF) resulta num encargo anual de 17,45% enquanto a taxa básica de juros da economia (SELIC) é de 9,75% – com tendência de fechar 2012 abaixo dos 9%, segundo indicações do Comitê de Política Monetária.
No texto de O Globo, fontes off fazem uma outra afirmação categórica: BB e CEF terão seus lucros reduzidos em R$ 2,5 bilhões por ano. A pergunta é: quem estaria ganhando? Os tomadores de crédito? A economia do país?
A necessidade da contextualização dos fatos é algo cada vez mais essencial ao jornalismo, no alvorecer desse novo ecossistema midiático digital, marcado pela notícia em tempo real. Sem isso, os fatos parecem flutuar sem nexo na espiral de informações infinda que não para de circular, a cada instante nos portais online.
Deixar banqueiros (e seus modelos de negócios) “à sombra”, num debate dessa natureza, transforma a matéria-prima do jornalismo, em sua perspectiva de servir à sociedade, como brotos, à flora da terra…
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* Santareno, é docente da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (FAC/UnB). Professor-visitante do curso de jornalismo da UFSC e pesquisador do objETHOS. Escreve regularmente neste blog.
Essa redução de juros não existe. Sou cliente do BB forçosamente e não vi redução de taxas de juros nenhuma. No Reclame Aqui já há reclamações de correntistas pessoas físicas e jurídicas sobre a indisponibilidade das taxas. Sem contar que, para ter acesso as tais taxas reduzidas, o indivíduo tem que aderir a um “pacote”. Isso é venda casada! Uma afronta ao CDC. Se o BB, não posso falar da CEF, e o governo quisessem mesmo causar impacto, os tais juros reduzidos seriam oferecidos a todos os clientes isso sim.
O BB oferece 10 dias por mês sem juros, desde que você se ligue a um pacote e fale com o gerente. O cheque especial do antigo Real já oferecia isso sem precisar de pacote nenhum na época. Bastava aderir ao cheque especial e pronto. Isso mostra bem como funciona nosso sistema financeira. O que o governo fez foi criar uma factóide, uma propaganda enganosa, até porque o brasileiro tem memória curta, para que este se lance as compras, ao crédito e ao endividamento…
Se é bom para todos, não diga Não…SIM. Nós cidadãos, temos que fazer mídia para iniciativas positivas como esta, que vai favorecer quem necessita desse aporte financeiro para as suprir necessidades e como no Brasil as micros e pequenas empresas são as que mais geram empregos, essa iniciativa vai potencializar esse setor…vamos fazer uma corrente e divulgar, isso é importante…se os juros não estão ainda no patamar publicado é nossa obrigação fazer valer a decisão..
Após a leitura do artigo fui ao BB onde sou correntista a mais de 20 anos e por curiosidade tirei um extrato para ver as taxas praticadas pelo banco,a do cheque especial é de 8,12% ao mes, o que estão fazendo é propaganda enganosa, com essas taxas de juros vamos comemorar o que ?
Qualquer dúvida basta acessar o site do BB ir no crédito e verificar a taxas de juros para comprovar.
Tadinho dos banqueiros, não é Neto?
Saiba que bancos são as empresa que mais lucram nesse país.
E essa queda é tárdia. Mas antes tarde do que nunca.
Vc não entendeu nada, o governo está tapando o sol com a peneira. As taxas de juros não baixam por decreto, bem, talvez na Venezuela e Cuba sim. Mas a onde existe democracia dificilmente. O governo é o maior vilão. Se houvesse austeridade e sobriedade no manejo de recursos públicos a situação estaria muito diferente. Me explique porque USA rolam uma dívida 10x maior que a nossa com a taxa de juros de um décimo da nossa e os juros repassado ao consumidor é semelhante as taxas de retorno dos títulos deles?? Já vai a resposta, porque sobra dinheiro de investidores lá!!! Esse papo de que a Banânia é a nova Meca dos investidores é papo furado. O governo absorve quase todo o crédito disponível dos bancos e como temos a tal “classe média” que ganha 3 salários mínimos, doida para compra e se endividar estimulada por esse governo, é um prato cheio para os bancos ganharem juros astronômicos.
Agora é só esperar no Jornal da Globo os comentários daquele que queria ser americano, mas nasceu no Brasil, Arnaldo Jabor, com o seu “intelecto” atrás do humor cínico.
Ontem assisti a participação em um debate na TV Cultura do, do meu desafeto “Tapajônico”, o jornalista Lúcio Flávio Pinto, falou também sobre as prioridadess da grande imprensa atual e da carreira linear seguida por alguns jornalistas da atualidade.
Valeu Samuel. Muito bom!. Quando assisto a propaganda do BB e da Caixa falando das novas taxas de créditos, penso logo, em quantos sonhos serão realizados e ao alcance de quem precisa e não tinha a oportunidade.
Caro professor Samuel,
Como sempre seu texto lúcido nos tira do bate boca raso os quais somos forçados a entrar em face a indignação que nos toma.
Lula fez isso em 2008, lembra-se? Quando diante da crise criadas pelos americanos, demitiu o presidente do BB, mandou baixar os juros, foi para tv pedir para o povo consumir (sem consumo não há produção, sem produção não há emprego) e quando a “marolinha” chegou aqui saímos melhor que encomenda.
Agora é a União Europeia, entupida até a medula de quebradeira, com países como a Grécia, Portugal, Espanha, Itália desmoralizados e o povo vendo suas conquistas escorregar pelo ralo da insensatez de uma Ângela Merkel e de um derrotado Sarkozy. Na Grécia coitada, as pessoas estão fazendo do suicídio do aposentado de 77 anos uma motivação para frear a perda de seus direitos mais elementares.
Com a responsabilidade de quem dirigi a sexta economia do planeta, a presidenta Dilma, faz o obvio, ai vem o PIG com os de sempre encher a paciência. Roberto Luis Troster, é figurinha carimbada, é uma Mirian Leitão de calças, nunca da certo.
Parabéns por ter trazido essa discursão para o Blog.
Vc esqueceu de mencionar que os banqueiros cobram tão caro porque o maior devorador de crédito no mercado é o governo federal, o governo que faz a escassez de crédito pois tem que rolar a enorme dívida gerada pela farra desenfreada de gastos público para a reeleição do lula e eleição da dilma. Os juros cobrados dos títulos brasileiros são baixos mais o volume é grande, então grande parte do capital circulante fica para o governo e o restante que sobre os brasileiros disputam no tapa. Compare o valor emprestado pelos bancos aos consumidores, correntistas e o volume que o gorverno gira da dívida.