Rios da Amazônia e a desinformação

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Avenida Tapajós na cheia. Foto: Manuel Dutra
Na avenida Tapajós, canoa; no rio, barco. Foto: Manuel Dutra
por Manuel Dutra

Os rios da Amazônia seguem o seu ritmo, mais ou menos como acontece ao longo dos séculos.

Nas últimas décadas a “grande” mídia, com muitos jornalistas desinformados, vem mostrando cidades e vilarejos ribeirinhos tomados pelas águas como se isso fosse recente. Até as famílias de trabalhadores das regiões de várzea são apresentados como flagelados, como se estivessem vivendo um fenômeno até então desconhecido.

Não sabem, esses jornalistas, que as várzeas são assim mesmo, seis meses com as suas terras férteis fora d’água, seis meses no fundo. E desconhecem que as pessoas que ali vivem estão adaptadas a esse vaivém, aproveitando de ambos os ciclos para plantar culturas de ciclo curto e para pescar.

E esquecem de dizer nas suas reportagens que os varzeiros da bacia do Amazonas desconhecem a fome, ao menos nos níveis verificados nas favelas das grandes cidades brasileiras.

O que há de novo na Amazônia é a urbanização acelerada, levando incontáveis famílias migrantes a se acomodarem em barracos nas periferias inundáveis, muitas vezes desavisados de que ali é o lugar sazonal do rio, ou do igarapé ou do lago que seca durante o verão. A rigor, famílias que chegam às cidades ribeirinhas ocupam terrenos que têm as águas como proprietárias e, como tal, retornam ciclicamente a seus leitos.

Mas isso não é fenômeno exclusivo da Amazônia, é de todas as cidades brasileiras seja na costa, seja nos interiores banhados por rios e córregos. Belém, Manaus e Recife talvez sejam os melhores exemplos.

Nós jornalistas costumamos mostrar o problema sem descer às causas desse flagelo, originado na desigualdade social que empurra os mais fracos para terrenos impróprios para habitação.

Leia a íntegra em Cheia grande, cheia pequena. Sempre foi assim.

Leia também:
Avenida ganha mais pontes e bombas d’água.


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9 Responses to Rios da Amazônia e a desinformação

  • Põ João Renato, por quê num vai tu viver lá nos lugares aonde vivem esses ribeirinhos e passa uma semana pra você saber quais as realidades de cada um, daí você decide se pede o “bolsa enchente” ou o seu “bolsa ignorância”, ou você tem argumentos, ou pára de falar besteira camarada!

  • Muito bem escrito, só que tem alguns politicos que usam exatamente dessa desinformação do “BRASIL” para coopitar recursos para encher seus bolsos agora entao em época de campanha nem se fala, como mostra a foto anterior em que a “PREFEITA” aproveitando exatamente disso, levou o Ministro para dar uma volta na orla e tentar sensibilizar a “Autoridade” na busca de recursos que como é do conhecimento de todos, será para aplicação com toda certeza na campanha para prefeito do PT, senão vejamos, na enchente de 2009, se nao me engano veio a mesma quantidade de recursos que ela esta pedindo agora, acredito que veio e se nao veio tudo veio uma parte, pergunta:
    ONDE FOI APLICADO ESSE DINHEIRO?
    O cais alem de nao ter sido restaurado, apareceram mas rachaduras e mais buracos em sua base que parecem cavernas.
    Recapeamento que seria o ideal para a Avenida Alagada, nao foi feito NADA.
    A praça Tiradentes, NAO VOU NEM COMENTAR.
    entre outras coisas que nao quero ser repetitivo.
    ou seja, se a prefeita quisesse fazer alguma coisa realmente, faria antes do inverno chegar, pois como disse MANOEL DUTRA, ja é de conhecimento público as cheias e vazantes em nossa região, nao é nao?BANDO DE URUBUS.

  • Belas fotos do Professor, tive a oportunidade de falar com ele ontem a noite do Bar do Dadá, e lhe falar da admiração do grande trabalho que o mesmo desenvolve em sua carreira. Ele mostrou-me as fotos tiradas ontem, ainda estavam em sua máquina.
    É a força da natureza nos mostrando que não somos grande e onipotentes como pensamos. O professor Manuel ainda falou da possibilidade real da Av. Tapajós está afundando, principalmente na frente da Capitania dos Portos, há sinais visíveis deste fato.
    Outrossim, um grande problema, que todos sabem, é a falta de manutenção, reforma e adequação do caís de arrimo às diversas realidades local do município de Santarém. Se as ruas não prestam, taí outra realidade…

  • Mestre Manuel,

    O seu artigo trata de questões relevantes, como o desconhecimento da Amazonia pela grande mídia e o processo recente de urbanização acelerada e sem planejamento – o que agrava ainda mais os impactos sazonais de nossa região no dia-a-dia da população.

    No entanto, por mais que os ciclos das cheias e vazantes sejam fenômenos naturais que fazem parte do cotidiano amazônico, se já não bastasse a ocupação caótica nas beiras dos rios, há de se levar em conta que infelizmente há outro “algo novo”: a freqüência jamais vista em nossa região de eventos climáticos extremos nos últimos anos.

    Grandes cheias ou secas que costumavam ocorrer a cada 50 anos começam a se repetir em intervalos de tempo menores, como os recordes históricos das estiagens em 2005 e 2010, ou das cheias em 2009 e 2012. Tratamos aí dos níveis dos rios propriamente ditos, cujos impactos sobre as cidades podem ser maiores ou menores, dependendo da estrutura urbana para tal.

    Não é pretensão minha ser catastrófico, tampouco ser leviano associando categoricamente estes fenômenos às mudanças climáticas. Céticos ou não, a questão é que o aumento da frequência destes eventos extremos é fato.

    E a pergunta que não quer calar: daqui para frente será sempre assim?

    1. Caro Caetano, aprecio as coisas que você escreve e aprecio mais a forma de suas concordâncias e discordâncias, embora você não tenha o perfil nem de membro dos clubes de mútuo elogio nem dos partidários do “soy contra” qualquer coisa. Se você tivesse optado pela carreira diplomática, o Itamaraty e o Brasil estariam bem servidos.

      Ainda hoje eu estava pensando que algum estudo sério deveria resgatar as medidas históricas de cheias e vazantes, pois aqui no porto de Santarém elas foram modificadas abusivamente nas últimas décadas. Quando leio que o Tapajós está a tantos ou a quantos metros ou centímetros acima ou abaixo do ano tal ou qual, pergunto-me quais os parâmetros dessas afirmações, pois durante muitos anos, quando eu morava em Santarém, nós reportávamos esses parâmetros com base numa régua instalada e mantida pela Secretaria de Agricultura do Pará no Trapiche velho, onde hoje está aquele centro turístico. Por exemplo, naqueles tempos, quando no porto de Manaus a régua de lá marcasse 8 metros, isso poderia significar que o Rio Negro estava baixo. Se, ainda como mero exemplo, no porto de Santarém marcasse a mesma medida, poderia ser o contrário, o Tapajós estaria muito alto.

      Então, precisamos encontrar uma forma científica e prática de fazer essas verificações, a fim de buscarmos uma coerência entre as medidas realizadas hoje com aquelas do passado. Digo isso porque você alude a cheias e vazantes de há 50 anos, como foi a 1953, tremendamente devastadora no Baixo Amazonas.

      Indo bem mais longe, séculos passados, precisamos tirar a prova dos nove sobre a hipótese de que o povo tupaiú ou os tapajós, que aqui viviam, efetivamente utilizavam técnicas de conservação de alimentos, especialmente proteínas e derivados de mandioca. A mim parece que a hipótese é verdadeira e, se de fato for, estaria provado que a Amazônia não é nem nunca foi um permanente paraíso de fartura de que tanto se falou em certas épocas.

      Se a conservação de alimentos foi uma prática comum no passado é porque havia períodos de escassez, muito provavelmente associados a períodos de grandes enchentes ou de grandes vazantes. Logo, raciocinar sobre apenas meio século será muito pouco, embora válido.

      Para resumir, já que se trata de tema tão rico, refiro-me a um certo fetiche do catastrofismo, sobre o qual tenho um estudo interessante, com base em notícias de jornais dos USA. A Amazônia parece que, nas últimas décadas, passou a ter as costas largas e a carregar o peso dos pecados do mundo. Jamais eu disse nem contradisse que as mudanças climáticas passem ao longe desta região, no entanto, analisar os fenômenos naturais, com seus reconhecidos ciclos, como tão somente derivados de coisas como o efeito estufa, por exemplo, parece-me um reducionismo contraproducente.

      Um abraço, Manuel Dutra

      1. Agradeço os elogios, Manuel. Se a gente fala muito alto, dói os ouvidos, muito baixo dá sono. 

        Como diz, se a ciência não sabe como foram os anos passados, imagine então como sabermos o que acontecerá nos próximos… Não dá nem pra reduzir tudo ao efeito estufa, nem às bombas que tiram as águas das ruas para jogar de volta no rio. Hora de repensar muitas coisas.

        Abraços

  • Bem dissertado o texto! Têm “ribeirinhos” tocando tambor que nem os índios americanos só para que chova mais e que enviem socorro: camas. redes, colchões, panelas, comida e quem sabe uma nova “Bolsa Enchente”.

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