O voo final na profundidade do verde escuro amazônico. Por Ormano Sousa
Nádio Queiroz: mistério no acidente e falhas na apuração. Foto: Álbum da filha Indira Queiroz Vasconcelos

Noite de sábado 6 de março de 2021. Uma noite de notícia feliz, em meio a tantas outras tristes da pandemia coronavirusiana.

O final feliz do piloto Toninho Sena, após 36 dias nas matas fechadas nas imediações do rio Paru, próximo da divisa do Pará com o Amapá, onde sofreu acidente com seu avião, me fez mergulhar numa lembrança remota de quase 30 anos e fazer um incurso na fronteira do Brasil com a Venezuela e com a Guiana.

Viajei, me embrenhei nas matas densas da floresta, no verde escuro amazônico, em regiões garimpeiras, com olhos atentos e uma certa tensão cheia de reminiscências ainda frescas na memória. Viajei no tempo. Viajei pelo Google Map.

 

Ah, tecnologia. Era inimaginável ter essas imagens de satélite de tão fácil acesso há 28 anos. Tão reais, tão próximas. Esse mergulho reminiscente a partir do fato atual, me levou à história de meu primo Nádio, Nádio Lairson Furtado Queiroz, um piloto que desapareceu nas matas amazônicas com o avião que pilotava e um auxiliar.

Ninguém viu, ninguém achou… nenhum vestígio, nem do piloto, nem do auxiliar, cujo nome se desconhece até hoje, e nem da aeronave, um Cessna, modelo Skylane, prefixo PT-CBW. Tornou-se um mistério remetendo aos episódios do Triângulo das Bermudas. Mistério escondido pelas matas e, possivelmente, pelos homens.

Nádio desapareceu quando faria 30 anos. Um caso que, apesar de juridicamente ele ter sido declarado de morte presumida, envolve muitas falhas, falhas de comunicação, falta de investigação, falta de apuração aeronáutica. Fato que levou à derrocada dos pais Laurimar e Nerck, falecidos, tendo levado consigo a esperança de ver o filho ainda com vida.

Pelo menos não tiveram a infelicidade de ver em sua certidão de óbito a declaração de “pais ignorados” e data de nascimento “incerta”, expedida pela comarca do pequeno município de São Luís, Roraima. Para o meu tio Laurimar, a data de 13 de abril de 1993, data constante em certidão de sua “morte presumida”, passou a ser o dia do dissabor.

Nesse dia, o telefone de sua casa tocou e uma voz já familiar comunicou-lhe taciturnamente que Nádio havia sofrido um acidente com a aeronave e que estavam fazendo buscas.

A voz era de Auricélio Gomes, o Gato, piloto experiente, que levara Nádio para trabalhar com ele fazendo percursos para a região garimpeira de Roraima. O acidente ocorreu no dia 11 de abril, mas Gato guardou a fatalidade por dois dias à espera de mais notícias para informar à família. A comunicação foi feita com certa frieza.

Esperança do pai: matéria do jornal Gazeta com a assinatura de Laurimar. Foto reprodução: Arquivo familiar

O avião havia saído do garimpo Entre Rios e faria lançamento de mantimentos para garimpeiros em área da região, em companhia de um lançador, um auxiliar que faria o lançamento dos alimentos. Essa foi a informação transmitida à época.

Não há registro de comunicação por rádio, não há informação de nenhum garimpeiro, nada foi informado pelo dono da aeronave, o piloto Gato, acerca do plano de voo. Apenas aguardou o retorno da aeronave. Aguardou dois dias para informar à família.

Não se tem conhecimento de que tenha sido aberto algum inquérito policial, uma apuração por parte das autoridades aeronáuticas. O Salvaero e o Corpo de Bombeiros de Roraima foram informados e fizeram buscas, suspensas 15 dias depois, frustrados. Coube à família – à esposa e uma irmã do piloto – empenhar-se por mais cinco dias infrutíferos.

O dono da aeronave pouco esforço esboçou. E desde aquela época, raras vezes retornou a Santarém. Ficou apenas as informações constantes na certidão de óbito que o acidente ocorreu “Em área de floresta amazônica fechada e isolada em Entre Rios, no município de Caroebe (RR)”.

Hoje, pelo recurso tecnológico, vê-se com proximidade que o local de partida fica em região relativamente próxima à Guiana. Mas, as informações vagas e contraditórias daquela época apontavam para a possibilidade de a aeronave ter caído em área de fronteira ou que poderia ter sido apreendida em pouso forçado em região garimpeira da Venezuela.

Na incursão no mapa de satélite vê-se que a Venezuela está bem distante para um voo de um avião de baixa autonomia de combustível, considerando a distância entre o garimpo de partida e a fronteira venezuelana. Surgiram muitas informações variadas que se seguiram ao fato.

Aventou-se a possibilidade de que tivesse sido dominado por narcotraficantes, que estivesse preso por indígenas ou mesmo pela polícia guianesa ou venezuelana. Cada informação chegava à família como alento.

Em matéria publicada pelo jornal Gazeta, três anos depois, o pai, Laurimar Queiroz, um exímio baterista que perdeu gradativamente sua habilidade para o Parkinson, acentuado pela perda do filho, na edição de 5 a 14 de maio de 1996, declarou que, dias antes de viajar para nova e derradeira jornada, Nádio o informou que havia passado aflição em um desses voos.

Nádio com a filha Indira, de 1 ano: forte ligação familiar. Foto: Reprodução/Arquivo Familiar

Em virtude do mau tempo, teve de fazer um pouso emergencial em uma pista de um garimpo clandestino e que foi recebido por homens ostentando armamento pesado e falando um idioma ou dialeto que não conseguiu entender. Conseguiu deixar o local após conversação com um interlocutor brasileiro.

Entre tantas informações, apontava-se que ele estivesse vivo. Uma possiblidade muito remota, afinal, mantinha liame familiar intenso, já havia constituído família e tinha uma filha que completaria naquele ano de 1993 dois anos de vida, dentro de três meses, a quem reservava intenso carinho.

Volto ao episódio feliz do piloto. Comparo: dois finais. Em um deles as interrogações permanecem. As datas marcam muito. O desaparecimento coincide com o mesmo mês de seu aniversário.

Trago isso vivo na memória, pois crescemos juntos, estudamos juntos, alimentando sonhos, cada um ao seu jeito e nas suas condições. Nascemos no mesmo ano, ele em abril, eu em outubro, moramos na mesma rua – a Barão do Rio Branco. Eu fui mais da terra, e ele dos ares. E nos ares traçou seu plano de voo final.


— * Ormando Souza, santareno, é professor da rede estadual de ensino.

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5 Comentários em: O voo final na profundidade do verde escuro amazônico. Por Ormano Sousa

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  • Rogério Corrêa Borges OAB PA disse:

    Naquele abril de 1993 eu estava na escola aos 10 anos de idade quando fui informado que seu Laurimar não iria nós levar para casa pois seu filho havia desaparecido. Ele fazia transporte escolar. O destino fez com que anos depois eu providenciasse a ação para declarar a morte presumida.

  • Orlando Jerry disse:

    Parabéns pela matéria, eu era amigo do Nádio.

  • Waldêmia Frazão Freitas disse:

    Triate história querido professor.
    Lembro-me desse caso.

  • Welse disse:

    Muito bem lembrado, conheçi o piloto e sua família…muito triste esse desaparecimento sem deixar vestígios; o resgate do piloto Toninho Sena realmente fez lembrar do Nadio

  • Joca Mallero disse:

    Acredito piamente no fato de que não houve vôo nenhum, O Nadio foi morto em terra e deram sumiço no corpo dele, e nem o seu acompanhante existia, tudo armação.