A Saraiva é uma festa

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por Ademar Amaral

Ademar AmaralNão sei se foi o pacu assado de um sábado ou se a sobremesa de uma bela tigela de açaí regada a farinha tapioca, o que me motivou a sair sozinho para dar uma passada na Livraria Saraiva, do Shopping Boulevard.

Leia também do autor – O caso do Mascarado Fobó.

Não, agora lembro, não foi o pacu nem o admirável açaí, foi meu subconsciente que me mandou lá em busca de Ensaios, o livro póstumo de Truman Capote com as melhores crônicas que o autor de A Sangue Frio publicou nas mais importantes revistas americanas.

Trata-se de um tijolão de umas 600 páginas que, segundo a crítica especializada, mesmo um leitor de capacidade apenas mediana é capaz de encarar quase como o prazer de uma relação carnal. E eu, leitor de razoável pra bom (ainda não criei coragem de abrir Ulisses, de Joyce), sou fã incondicional desse incrível gênio de Nova Orleans.

Há um grande filme (Capote), que mostra os detalhes de como ele escreveu A Sangue Frio, obra clássica da minha e de todas as gerações até o final dos tempos. Recomendo tanto o livro quanto o filme.

Mas vamos à loja da Saraiva. É um lugar aprazível, sem contar que a gente ganha a máxima atenção de umas mocinhas de boa aparência que lá perambulam com o objetivo de nos orientar.

Some-se a isso o acervo daquele mundo de livros, tão grande e variado que não nos deixa outra alternativa que não seja a vontade infinita de permanecer, gastando tempo em examinar autores, títulos e preços, estes em várias leitoras de código de barra estrategicamente distribuídas pelo salão.

Mal ultrapasso a porta e levanto a vista para avaliar o ambiente, logo sou abordado por uma das simpáticas atendentes.
-Posso ajudar ?
-Pode sim, você tem Ensaios, do Truman Capote?
-Não sei, vamos ver lá na tela.

Consultou o computador na minha frente.
-É lançamento recente?
-É – eu disse – saiu semana passada na Veja.

Ela fez uma carinha de lamento.
-Bom, olhe, o livro já está na lista, mas ainda não recebemos, talvez na próxima semana.

Como ambientes de livrarias são tão excitantes pra mim como foram os bons prostíbulos de antigamente, resolvi ficar mais um pouco e aproveitar minha tarde de sábado atrás de alguma preciosidade.
-E do Gabriel Garcia Márquez, o que você tem? – perguntei.

Ela abriu um sorriso.
-Ah, desse temos muitos, veja aqui.

E foi me apontando um por um dos que estavam na prateleira.
-Temos Memória de Minhas Putas Tristes – pronunciou o Putas com um rizinho maroto.
-Já li.

-Que tal Cem Anos de Solidão?
-Espetacular, também já li.

-E O Amor nos Tempos do Cólera.
-Esse é ótimo, mas… eu tenho.

-E este?
Ela tirou da prateleira Crônica de Uma Morte Anunciada, meu livro de cabeceira e, pelo menos pra mim, a obra máxima do escritor colombiano.

-Bom, lamento dizer, mas esse aí eu já li umas duzentas vezes e sem ele não teria acontecido Catalinas e Casarões na minha vida.
– De quem é Catalinas e Casarões? Esse eu não conheço.

– É meu e parece que você não vai mesmo conhecer. Os 500 exemplares já estão esgotados. Foram consumidos pela generosidade de uns poucos amigos, de alguns conhecidos e pela minha imensa família, quase um convescote literário.

Ela me olhou sem entender nada.
-Puxa, o senhor já leu tudo do Garcia Márquez…
-Bom, ainda não li Ninguém Escreve ao Coronel, você tem?
-Não, mas temos O General e Seu Labirinto.

-Já li, é sobre os últimos 17 dias do combalido general Simón José Antônio de La Santíssima Trinidad Bolívar y Palácios. Um grande homem que sonhava unificar a América Latina num único e grande país, do México à Terra do Fogo.
-Simón o quê?

-Simón Bolivar, o libertador, tão honesto que mandava fuzilar quem roubasse uma mísera moeda de um peso.

A menina ficou pensativa e fez um comentário único:
-Imagino o que ele não faria se passasse por Brasília…

Eu ainda ria do comentário pertinente da mocinha, quando ela me mostrou Os Funerais da Mamãe Grande.
-Taí, esse do Garcia Márquez eu ainda não li, vou levar.

Agradeci a gentileza, coloquei o volume debaixo do braço e fui em busca da seção de filmes para procurar algum bang-bang clássico, quando minha atenção foi voltada para Paris é Uma Festa, de Ernest Hemingway, livro que eu já ansiava por uma vida e nunca havia encontrado.

Trata-se de uma longa crônica escrita nos anos 1960, espécie de memória sobre a Paris dos anos 1920, quando Hemingway viveu lá ainda como um embrião do genial escritor que viria a ser anos depois.

Mantinha-se em Paris, escrevendo contos para revistas e como articulista de jornais. Conviveu com gente do naipe de James Joyce, Gertrude Stein, Ezra Pound e F. Scott Fitzgerald, além de freqüentar famosos restaurantes, bares e as muitas atrações da cidade luz.

O título do livro foi tirado de uma frase que o próprio Hemingway disse a um amigo: “Se você quando jovem teve a sorte de viver em Paris, então a lembrança o acompanhará pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante”.

Comprei os livros e escolhi mais dois bang-bangs pra minha coleção: Os Brutos Também Amam (Shane) e Hombre, verdadeiros clássicos do gênero. E assim fui embora feliz depois de quase duas horas dentro da Saraiva, mas não podia terminar sem entregar um pedaçinho tirado do primeiro capítulo de Paris é Uma Festa, que eu comecei a devorar tão logo cheguei em casa.

Lendo esta prosa, que também é poesia da melhor qualidade, vocês bem podem imaginar o que Hemingway me reservou até o final do livro: “Uma moça entrou no café e sentou-se perto da janela. Era muito bonita, com um rosto fresco como moeda acabada de cunhar, se é que se possam cunhar moedas em carne tão macia, coberta de pele umedecida pela chuva.”

Paris é Uma Festa também serviu de inspiração para Wood Allen realizar Meia Noite em Paris, outro filme imperdível.


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3 Responses to A Saraiva é uma festa

  • Sr. Ademar sempre que deparo com algum escrito seu, leio. Lembro que algum tempo passado, comentando algum assunto no blog uruatapera informei que tenho o prazer de ter um exemplar de A encomenda e o deputado. Sem lembrar do contexto o senhor prometeu enviar-me autografado, catalinas e casarões mas não recebi. Sou admirador de suas crônicas . Moro em Marabá . Nilson.

  • Caríssimo Ademar, dia 25 próximo faço 67, nadando 1km duas vezes por semana e frequentando academia 3 vezes idem. De brincadeira digo 60 e 17, sem brincadeira, turbinados de felicidade. O meu mano Eriberto dizia que tanta energia devia ser por causa das ventrechas de pirarucu do Lago do Piedade, lá na Costa Fronteira. Sou desses caras que não têm tudo mas também não precisam de nada. Quando no mínimo todo mundo quer um 5G, sou um animal raro. Todo ano minha sogra não esquece do meu aniversário e sempre me dá um presente e, para ela, considerando meu tipo, é cada vez mais difícil encontrar algo. Este ano vou fazer chegar às suas mãos, via minha mulher, alguns livros da tua relação Saraiva e ela vai ficar muito contente. Gosto muito da Saraiva também. Vou muito à do Shopping Tijuca. Gosto muito também de pacu assado e é um dos pedidos que faço à minha irmã, como prato de recepção quando vou à Terrinha. Gostei da intimidade como tratas o petisco e vou te contar como me refiro ao mesmo e, se na tua próxima crônica assim o tratares, vou ficar todo besta. Ligo à minha irmã e peço que faça hipoglós. É meu código para dizer, estou chegando. Sabes por que chamo pacu assado de hipoglós? Por causa de uma das suas principais aplicações……Isso mesmo! Acertou! TAPAJOARAMENTE AZUL,

  • Um pinto no lixo. É assim que me vejo quando entro numa dessas Saraiva da vida. É uma festa tb. Pra mim e pro dono da livraria…rsrs

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