(Aconteceu em Óbidos, acredite se quiser)

por Ademar Amaral

O caso do Mascarado Fobó, de Ademar AmaralÓbidos, Fevereiro de 1943. Pairava uma brisa com prenúncio de chuva forte naquela festiva noite de terça-feira gorda.

Na provinciana Óbidos daqueles dias da segunda guerra, o carnaval ainda não se chamava canapauxis, mas já explodia de animação nos blocos dos mascarados fobós com suas barulhentas bexigas de boi, embalados pelo sucesso de Mamãe eu Quero, marchinha que a muito ouvida Rádio Nacional divulgava na voz e no batuque incomparáveis da exuberante Carmen Miranda.

Com prenúncio de chuva, a perigosa garganta do Amazonas apresentava aqui e ali pontos brancos de rebentação contra a luz do luar. Um farfalhar característico, produzido pela constante maresia, acariciava os barcos na beirada e entrava pela janela do segundo andar da pensão, onde o bancário recém chegado tentava chamar o sono. Muito esquisito que numa terça-feira de carnaval ele tentasse dormir, enquanto a cidade inteira pegava fogo feito um fardo de juta.

Àquela hora, a maior parte da população se divertia nos três clubes mais concorridos da cidade. Os obidenses mais abastados iam para o Quartel do 4º Grupo, lugar das festas chiques, que no período de Momo era cedido pelos militares para servir como salão de baile. Os demais se dividiam entre o Amazônia Clube e o Antonico Pé de Arpão, este último, o preferido da rapaziada mais afoita, sempre na intenção de arrastar alguma molecota no fim da noitada.

Designado da capital para uma fiscalização em Óbidos e sem conhecer ninguém, o sonolento bancário tinha desembarcado pela manhã, no novo trapiche que a prefeitura mandara construir para dar vazão aos embarques de juta da poderosa Cia. Paulista de Aniagem. Tipo caladão, doído de saudade da mulher e dos filhos, ele buscava no sono o único remédio que dispunha para aliviar a dor da solidão, sem contar sua natural falta de apetite para carnaval. Havia também o cansaço da longa viagem no navio gaiola, que desde Belém vinha parando de porto em porto de lenha para abastecer suas caldeiras.

Embalado pelo murmurinho distante do ritmo carnavalesco, o homem estava quase pegando no sono quando, pela primeira vez, ouviu nitidamente a estranha voz vinda do lado de fora, em forma de sussurro.

– Ei, pateta, vamos pra festa!!

Levanta bruscamente e dirige-se à janela. Lá do alto, de ponta a ponta, percorre com a vista toda a rua da frente. Nada, nem uma viva alma que fosse. Apenas um cão vadio e leproso surge das bandas do suntuoso Mercado Municipal, passa silenciosamente e logo desaparece na escuridão do novo trapiche.

Tentando disfarçar o medo que lhe tomara conta, mira no rumo do lugar onde ficava a Fazenda Paturi e divisa a nuvem negra do temporal que vinha se arrastando lentamente por detrás da Serra da Escama. Ele não sabia que por ser uma cidade estratégica de origem, Óbidos tinha, lá no cume da serra, dois velhos canhões permanentemente apontados pro lado de baixo do rio, à espreita de inimigos há muito inexistentes.

Não, não estava arrependido de ter aceitado aquela missão. Ia fiscalizar a mais importante e próspera agência do banco no Baixo Amazonas. Enquanto outras localidades ribeirinhas, como Santarém, até bem pouco anos ainda bebiam água de lata carregada nas costas pelas ribanceiras, Óbidos já tinha água de bica, luz elétrica, uma unidade permanente do Exército e um próspero comércio, sem falar na tradicional riqueza arquitetônica dos seus prédios coloniais. Uma liderança que foi perdida no decorrer do tempo, como se o lugar fosse atacado por um vírus letal e irreversível que foi lhe corroendo as entranhas.

O bancário deixou-se ficar na janela a bom apreciar a beleza selvagem da garganta do rio, assim chamada por ser a parte mais estreita do Amazonas, de maior fundura e maior correnteza. Angustura que chamou atenção do espanhol Francisco Orellana e que fez o navegador Pedro Teixeira aconselhar o rei de Portugal a mandar construir um forte no local para deter uma possível invasão holandesa às novas terras de sua majestade.

Um conhecido da monótona viagem impressionara o bancário, contando histórias desse trecho perigoso do rio, da sua brutal correnteza, dos barcos naufragados sem qualquer vestígio e das piraíbas gigantescas que moravam no seu grande perau. Esse mesmo recente amigo, após muita insistência, conseguiu lhe vender um revolver, alegando que estava duro para desembarcar em Manaus. Argumentou em forma de conselho:

– Você não conhece o lugar, é sempre bom andar prevenido.

Triturado pelo cansaço e agora essa besteira sem pé nem cabeça de ouvir vozes estranhas na calada da noite. “Deve ser esgotamento da viagem” – pensou. Deitou-se novamente na rede e já cochilava, quando foi novamente despertado pelo mesmo convite, mas dessa vez em tom imperioso e assustador:

– Levanta, cabra frouxo, vamos pra festa! – som e hálito bem no ouvido dele.

Um frio lhe percorreu a espinha, fazendo o coração bater em disparada e as pernas tremerem. Pensou em gritar por alguém, mas a velha inválida da pensão era sua única e inútil alternativa do momento. Confere o relógio: faltavam vinte para meia-noite. A essa hora não encontraria resposta de ninguém, todos deviam estar esquecidos da vida no suadouro do carnaval.

Corre até a maleta, apanha a arma e, com o pouco de coragem que lhe restava, deu outra espiada da janela. A paisagem ainda era a mesma da vez anterior, talvez um pouco mais escura. A nuvem negra já cobria o céu quase por completo, fazendo desaparecer os reflexos no rio. Senta nervoso na cadeira do quarto, acende a luz e começa a se vestir apressadamente.

Não sabia direito o que fazer nem que rumo tomar. Tinha, no entanto, uma certeza absoluta: precisava sair dali, deixar aquele lugar o mais depressa possível. Veste-se rápido, joga o terno branco de linho HJ por cima do ombro e vai direto ao pequeno espelho da parede. Com o cabelo lambuzado de brilhantina, passa o pente com cuidado, mas, de repente, algo segura firmemente seu punho, ao mesmo tempo que um bafo fedorento de cachaça lhe segreda: – “Tenho um negócio pra ti lá na minha festa !” Tenta olhar para trás, mas a força descomunal o impede de qualquer movimento. Finalmente, dá um puxão, desce correndo a escada íngreme e logo ganha a rua em louca disparada.

Sobe a Bacuri e dobra na esquina do tradicional colégio das freiras, alcança a esquina da usina de luz, que ainda estava ligada por causa dos bailes. Continua em frente, sendo instintivamente guiado pelo ritmo do Antonico Pé de Arpão, onde estaciona ofegante como atleta de maratona olímpica. Senta-se no primeiro mocho vago que servia de cômodo na banca de um vendedor de churrasquinho e pede um espeto. Mastiga sem prazer e com o olhar perdido dos desesperados. Permanece assim vários minutos, ruminando um pedaço de nervo que depois é cuspido no sereno da festa.

– Me dá um espeto!

Vira-se e encara o mascarado fobó sentado ao seu lado, trajando um dominó de cetim vermelho e máscara do tinhoso.

– Me dá um pedaço! – insiste o folião, metendo a mão no espeto e sacando uma porção de carne. Em seguida, com uma sonora gargalhada faz menção de bater com a bexiga de boi, mas dá meia volta e some no interior da festa.

O assustado bancário não deu muita importância ao incidente e resolve também entrar para beber alguma coisa. Encosta-se no bar do salão e pede uma cerveja, mas em dado momento alguém lhe segura o braço. Era outra vez o mascarado fobó. Para evitar encrenca, manda também servir um copo de cerveja pra ele. O estranho bebe tudo de uma só tacada através do rasgo da máscara, fazendo escorrer espuma em abundância pela brilhosa fantasia de cetim.

– Agora vamos dançar! – e puxa o bancário violentamente para o meio do salão, fazendo-o rolar no assoalho.

A orquestra interrompe a música para aguardar o desfecho da confusão que se formara. Desnorteado, o bancário se ergue com muita dificuldade e berra como louco:
– Pederasta! Pederasta!

De pronto recebe um violento soco que o faz girar no ar e cair por sobre o tablado da orquestra. Nesse instante seu ouvido zonzo é atingido novamente pela gargalhada apavorante do mascarado que, não contente, avança decidido contra a vítima para terminar o serviço.

O homem levanta cambaleando e leva outro soco, porém, ao cair, a mão lerda encontra automaticamente o revolver e começa a mandar chumbo em todas as direções. Gritos, gente pulando janelas, portas estreitas para caber os brincantes em correria louca e o debaixo das mesas insuficiente para abrigar tantos medrosos. Mas o mascarado fobó não desiste, segue firme até que uma bala certeira atinge o alvo e impede a conclusão do massacre.

De repente, a algazarra formada transforma-se, como por encanto, em silêncio de túmulo. Estupefactos, de olhos esbugalhados e palidez na face, pessoas formavam círculo em volta do acontecido. Paira no ambiente um estado letárgico até que um policial militar aparece, prende o assassino e o desarma sem reação. Nesse momento, surge do aglomerado de pessoas um senhor mais curioso e retira a máscara do cadáver.

Pelo orifício da bala ainda escorria um leve filete de sangue, impedido do jorro abundante pela massa encefálica que por lá também sofria pressão de sair. O negro dos cabelos compridos, contrastava com a pele avermelhada do rosto, como se uma bomba ainda funcionasse dentro daquele corpo e forçasse sangue por todos os poros. O branco dos olhos há muito havia desaparecido, dando lugar a uma carne crescida escarlate que, juntada à visão grotesca da podridão dos dentes e dos tufos de pelos nunca aparados que brotavam do nariz e da borda das orelhas, compunham um quadro de horror jamais visto naqueles lados.

Entre bocas e ouvidos, a notícia foi rapidamente espalhada e quase toda Óbidos correu para a sede do Antonico, aparecendo gente do Flexal e até da longínqua comunidade do Mondongo. Tentaram por todos os meios, mas sem nenhum sucesso, decifrar ou adivinhar a identidade do falecido e não demorou que o espaço do pequeno clube ficasse pequeno para a multidão, o que obrigou o delegado a transferir o morto para o antigo prédio da polícia, na Praça de Santana, onde permaneceu exposto à bisbilhotice pública.

Dois dias depois, mais pela fedentina insuportável do que pela falta de curiosidade, o mascarado fobó foi finalmente sepultado como indigente e sem qualquer identificação. Afinal, se perguntavam, quem era ele? Eis mais um grande mistério obidense que nunca foi decifrado. O que se sabe, mesmo, é que o forte odor de enxofre exalado pelo defunto e sentido pelas pessoas que presenciaram o enterro, foi boataria por muito tempo na cidade presépio.

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6 Comentários em: O caso do Mascarado Fobó

  • Meu amigo conhece seu Antonio pe de arpão. Ate hoje não conhece ninguém com espirito que ele tinha, de carnaval com seu cavaquinho inseparável que DEUS ponha em um lugar especial.

  • Este conto é para um leitor atento às entrelinhas. No fundo, uma amostra do quase nada que restou da cultura e tradição Obidenses, abatidas, segundo o autor, por um possível vírus irreversível e letal. No fim, quem faz cair a máscara do Fobó é um simples e anônimo homem do povo, revelando o quadro de horror e podridão. Quantas máscaras ainda precisam cair?

  • Oi, Célio, ouvi pela primeira vez essa história contada pelo meu pai, deitado com ele numa rede de fim de tarde, lá no Paraná da Dona Rosa. Devia andar pelos 7 anos e passei a ter pavor dos mascarados fobós com suas barulhentas bexigas de boi. Aliás, faz tempo que a gente não conversa e eu ando sentindo falta da tua prosa. Minhas lembranças para a Fátima e para as crianças.

  • Ademar, ainda menino, ouvi esse relato contado pelos meus pais e por outras pessoas insuspeitas e mais antigas da cidade. E décadas depois tive pessoalmente a versão do protagonista. Não gostava ele de falar do assunto por ter ficado com uma espécie de complexo de culpa ao ser absolvido pelo juri popular em Belém com a tese da legítima defesa. Ele continuou sua longa carreira no mesmo estabelecimento bancário, tornou-se chefe, aposentou-se e já faleceu, sendo óbvio que não posso declinar-lhe o nome para proteger a privacidade de seus descendentes. Parabéns pelo texto, fidedigno e excelente como sempre.

  • Paulo, grande satisfação em receber sua mensagem. Retribuo os votos e que tenhamos um 2016 sem tantos atropelos. Muito sucesso no seu trabalho e muita saúde na famīlia.

  • Caro Ademar,

    Mais um texto que entrou no minha memória. Agora quando voltar à Óbidos e for Carnaval vou ficar ainda mais atento. Você é um mestre do conto! Feliz Ano Novo e que seja pleno de saúde, felicidades e tempo para nos dar a alegria de ler sua literatura.

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