A capela e o cemitério N.S. dos Mártires

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Foto: Jeso Carneiro
Capela do cemitério de N. S. dos Mártires, em Santarém. Foto: Jeso Carneiro. 02.11.2011
A capela de N.S. dos Mártires hoje (2) de manhã

por Sidney Canto (*)

Em idos de 1855, uma epidemia de “colera morbus” infectou a população da recém criada cidade de Santarém e outros municípios vizinhos. Até aquela época, era costume que os cemitérios ficassem próximos às igrejas ou mesmo, como chegou a ocorrer na Matriz de Santarém, alguns dos mortos fossem sepultados dentro das próprias igrejas de vilas e cidades do interior.

Ocorreu, então, o medo de contaminação, principalmente da parte das pessoas mais letradas, que questionavam o fato de ficar perto dos túmulos daqueles recém falecidos da “peste”, principalmente durante os atos religiosos.

Isso desencadeou uma campanha pela construção de “Campos Santos” mais afastados das residências “dos vivos”. Foi assim que em Santarém e nas vilas e cidades vizinhas surgiram muitos dos cemitérios que ainda hoje existem.

O cemitério Nossa Senhora dos Mártires surgiu, portanto, para receber os falecidos da “peste”, muitos deles recolhidos numa carroça pelo padre João Antonio Fernandes, que levava os defuntos para os enterrar em um local “fora dos limites da cidade”. Por isso mesmo, o padre João (hoje nome de uma travessa no bairro da Aldeia) é considerado por alguns como o fundador do cemitério de Nossa Senhora dos Mártires.

Em Vila Franca, o pároco padre Antonio do Espírito Santo Fonseca socorria seus paroquianos organizando um modesto ambulatório e mandou abrir, a suas expensas um novo cemitério que ainda hoje é utilizado, pois o antigo, que ficava mais próximo da igreja se encheu rapidamente e não suportava mais mortos).

A capela dos Mártires foi construída posteriormente, com recursos oriundos possivelmente do poder público, que destinava verba para tais construções em idos da década de 1870.

Alguns atribuem ao monsenhor José Gregório Coelho a iniciativa da construção, inclusive uma história circulante na cidade dá conta que o altar de mármore da Matriz de Nossa Senhora da Conceição era, na verdade, destinado para a capela do cemitério de Nossa Senhora dos Mártires, mas, como este era grande para as proporções modestas da capela, monsenhor José Gregório optou por montá-lo na Matriz, substituindo o antigo altar-mor da padroeira que era feito em madeira.

A linha arquitetônica da capela é bem simples para os padrões da época, haja vista que a existência das capelas mortuárias não era para a realização de velórios (costume que, ainda hoje mantido, era feito nas residências, de onde posteriormente o corpo era levado para a Matriz, onde se realizavam as cerimônias fúnebres antes do enterro). Assim, a capela era usada mais para a “passagem do falecido”, ou para a realização de algumas orações antes do enterro. Uso pomposo da capela do cemitério era feito por ocasião do Dia de Finados, quando se realizavam as celebrações em intenções dos mortos.

Hoje desprovida de sua beleza original, a capela tem em anexo uma construção recente com salas para depósito e adminstração do cemitério. Mas, durante muitos anos, o interior da capela abrigou uma obra de arte de grande valor histórico. Tratava-se de uma imagem de Cristo Crucificado, entalhado em madeira no ano de 1745, que possivelmente fazia parte do acervo da Igreja Matriz e fora levado para lá por ocasião da inauguração da capela. Hoje esta peça se encontra no Museu de História e Arte Sacra.

Ao redor da capela se encontram os túmulos mais antigos do cemitério. Alguns deles de mármore importado da Europa, outros fabricados em Belém, outros, mais simples, retratam o contraste existente na sociedade local da época – quanto maior as posses mais suntuoso deveria ser o jazigo.

O mais antigo que se pode ver é o do padre Raimundo Antonio Fernandes (irmão do Padre João Fernandes) que faleceu em Santarém no dia 6 de agosto de 1864. Seu irmão, Padre João, fundador do cemitério, também está sepultado naquele Campo Santo, mas em sepultura e lugar desconhecidos.

Quando eu ainda era seminarista tentei localizar tal sepultura. Há uma, sem lápide e muito simples, que as pessoas antigas diziam ser a de um padre. Não constava nome e não está muito longe da do padre Raimundo. Quem sabe pode até ser esta, visto que padre João era homem simples e não tinha amigos ricos (morava com os índios do bairro da Aldeia) que lhe construissem um mausoléu.

Um fato interessante ligado à existência do cemitério e da capela é a realização da “Procissão dos Ossos”. Realizada por confraria religiosa masculina existente na Santarém do século XIX, essa procissão noturna acontecia na véspera do Dia de Finados. Alguns homens encapuzados se reuniam em frente da Matriz e seguiam para a capela do cemitério de Nossa Senhora dos Mártires. No caminho, paravam em algumas casas e faziam orações pelas almas dos falecidos.

Diz a lenda, contada pelos antigos, que as velas que levavam tinham que ficar queimando no altar da capela do cemitério, se alguma delas fosse levada para casa, se transformaria em osso de defunto.

Em 1919, o cemitério já era demasiado pequeno para a realização de sepultamentos. Algumas pessoas defendiam o fechamento do cemitério para sepultamentos e a construção de um novo. Optou-se pela ampliação do terreno mais para os fundos. Em fins da década de 1940, o prefeito Aderbal Tapajós Caetano Correa decidiu fazer a avenida Mendonça Furtado e cortar o terreno do então único cemitério de Santarém, dividindo-o em dois. Apesar dos protestos de algumas famílias que tiveram que remanejar a sepultura dos seus mortos (outros continuam sepultados embaixo da rua), o poder publico inaugurou em 19 de dezembro de 1949 o cemitério de São João Batista.

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* É padre diocesano, historiador e articulista deste blog.


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5 Responses to A capela e o cemitério N.S. dos Mártires

  • Boa noite padre, sua bênção. A História de Santarém é mesmo uma caixinha de surpresa. Muito me causa estranheza o fato de alguns túmulos estarem embaixo do asfalto que passo todos os dias. Parece conto de terror, mas o que me deixou constrangida mesmo é o fato do pároco João Antônio não ter um túmulo adequado por ser desprovido de posses enquanto o irmão também pároco Raimudo Fernandes tem um túmulo um belíssimo. Seria bom se os ossos ou uma homenagem fosse feita para ele na Catedral Nossa Senhora da Conceição. Seria muito honroso. Grata padre. Suas informações são engrandecedoras.

    1. Gostei da crônica, apesar de estar no “finado blog” a cinco anos, ainda parece própria para o dia de hoje.
      Pergunta que não quer calar: QUANDO SANTARÉM TERÁ UM CEMITÉRIO DECENTE PARA ENTERRAR OS SEUS MORTOS?

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