A comunicação telegráfica. Por Alessandra Helena Corrêa

Publicado em por em Artigos, Educação e Cultura, Opinião

A comunicação telegráfica. Por Alessandra Helena Corrêa
A comunicação telegráfica foi uma grande inovação. Foto: Reprodução

Eu sei que para muitos essa palavra é completamente desconhecida. Telégrafo é um equipamento, já obsoleto desde a chegada do telefone, que permitia o envio de informações à distância a partir da utilização de códigos.

Esses códigos, de forma resumida, correspondiam a letras do alfabeto, e a junção deles formava as mensagens que se desejavam transmitir – como podem imaginar foi uma grande inovação e recurso na sua era.

Mas é claro que tendo sido uma das primeiras tecnologias inventadas para o uso da comunicação à distância, essa detinha de inúmeras falhas e limitações.

Quando pensamos então em comunicação telegráfica nos vemos diante de uma comunicação que se caracteriza, dessa forma, por ser mais curta, lacônica; que elimina certas partículas fundamentais para o entendimento completo da mensagem que se deseja passar. Exemplos desses elementos são as nossas preposições, conjunções, pronomes, que apesar de não serem os núcleos das nossas frases, exercem um papel crucial na coesão discursiva – entendimento daquilo se diz.

Prova disso, são as falhas habituais que cometemos diariamente nas nossas falas orais e escritas, a partir da troca ou uso incorreto desses elementos mencionados acima. Cito um exemplo.

Quem aí já não viu um status nas redes sociais, ou ouviu alguém dizer: Vamos assistir O jogo. Pra quem não sabe, o verbo ASSISTIR na nossa Língua portuguesa pode ter 3 significados, em que esses são ditados justamente conforme a preposição que vem a seguir a ele.

Podemos ASSISTIR algo no sentido de VER (assisto A algo); no sentido de DAR ASSISTÊNCIA (ASSISTO ALGO/ALGUÉM); ou ainda, VIVER, morar (ASSISTO EM) – esse bem mais raro no contexto real de fala.

Na geração dos conectados, os discursos são desconexos; e as frases de efeito

Ao dizermos “assisto O jogo”, apesar da quase óbvia compreensão do que se quer dizer, pode haver uma má compreensão do sentido, quando por exemplo cometemos a mesma falha num outro contexto. Veja o exemplo:

O médico ASSISTE ao paciente.

O que temos aqui? Um possível caso de negligência? Um acompanhamento médico baseado em ver apenas o paciente sem lhe prestar cuidados efetivos? (a resposta fica a cargo da interpretação).

Mas a por que todo esse debate em torno da telegrafia? Bem, basicamente sinto que a comunicação tem se tornado cada vez mais truncada entre nós. Há uma economia de conectivos e exagero nas redundâncias.

Na geração dos conectados, os discursos são desconexos; e as frases de efeito. Não se adjetivam mais os nomes, não se modificam os verbos.

O limite dos caracteres limitou também as ideias, o copia e cola tornou-se divã do pensamento. Pra que falar? Por que construir frases coesas, com começo meio e fim se bastam as palavras chaves do engajamento certeiro?

Comunicação telegráfica…

Parece que na era da globalização, codificar a mensagem é a “chave” do (des)entendimento.

<strong>Alessandra Helena Corrêa</strong>
Alessandra Helena Corrêa

Santarena, é graduada em licenciatura plena em Letras (Ufopa). Faz mestrado atualmente em Estudos Literários, Culturais e Interartes na Universidade do Porto, Portugal, onde reside. No Instagram: @alehhelena

— LEIA também de Alessandra Corrêa: Um passado futuro: narrativa sobre o tempo.

  • JC também está no Telegram. Siga-nos e leia notícias, veja vídeos e muito mais.


Publicado por:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.