por Célio Simões (*)
– Axí porcaria! Eles num cunvidaro a gente, mas a gente vai!
Quem fez o desabafo foi o Neolino, caboclo roxo e desaforado, peito largo, cabelo “espeta caju”, lá das bandas do Matá. Para os íntimos, era conhecido pelo apelido de “Dá na Mãe” pela fama de centroavante rompedor do time de futebol campeão daquelas várzeas, o Botafogo.
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A alcunha também pespegou pela extrema sutileza com que o sujeito tratava sua santa mãezinha, alquebrada pela idade e enferma no fundo de uma rede, nas raras vezes que a visitava:
-…Meu filho, me dá uma ajuda. Tem dó da tua pobre mãe que vive penando nesta barraca, coberta só com quatro palhinhas…
– Ta achando muito tire duas…
Tapuio grosso, na verdade suas atenções estavam voltadas apenas para seus prazeres. Festa e futebol. A mãe era um estorvo. O time do Botafogo do Matá reunia seus amigos prediletos, todos curiosamente conhecidos por apelidos, do goleiro ao ponta esquerda: Manicuera, Paricatuba, Pé de Valsa, Bebe Caldo e Dorme em Pé; Nozinho e Chico da Preta; Panca, Dá na Mãe, Mingau Quente e Tracajá. Este último, com a vantagem de nunca botar a mão na bola, porque mão de tracajá fica embaixo do casco…
Pois bem, era uma festa de época de eleição. A notícia correu aqueles barrancos de cima a baixo e a turma se preparou para o forró, comprando sapato novo (extravagância só permitida para acompanhar o Círio de Sant’Ana) e renovando o estoque de óleo de mutamba usado a título de gumex.
– Diz que seu Vivico vai sortiá uma nuvilha pros comparecentes. Pulo amor de Deus, su manu, esta nós num perde, dizia o Anézio – o Dorme em Pé do time de futebol – que na verdade das festas só aproveitava o início, ficando depois escornado a sono solto pelos cantos da casa (daí o apelido…).
A tônica era exatamente essa. Todo mundo a fim. Festa em Óbidos, seja na cidade seja nas comunidades mais distantes, só tem hora para começar. Dança todo mundo. E o que é melhor, garota de lá dança até discurso, sem essa de academia; a coisa vem do berço e lá o Carlinho de Jesus morreria de fome.
A tal festa no Matá seria realizada para promover a campanha eleitoral do futuro Prefeito. E por conta do candidato seriam os comes e bebes e a música, que para isso o mestre Roosevelt, o Graci e o Rirí, afamado cantor de voz esganiçada, já estavam contratados.
O time de futebol, formado só de amigos, vizinhos e conhecidos, fora dos prélios esportivos, andava de magote, parecia carneiro na malhada. Aonde ia um, ia o resto.
Combinaram ir juntos para aquela suprema diversão, pois o local era meio distante e havia necessidade de muitos braços para remar. Jogavam juntos, dançavam juntos, trabalhavam na roça juntos e, quando a coisa era “de vera” brigavam juntos também, porque ali só dava cabra macho.
Detestavam almofadinhas, esses tipinhos esnobes com jeito de dândi que exibem falsa cultura, estudadamente falando de forma difícil uma linguagem que eles não entendiam.
Festa de interior, marcadas para sábado, provoca frenesi durante a semana toda. É assim até hoje, mercê do agito dos preparativos. Afinal, o melhor da festa é esperar por ela.
Que o diga a juventude que em revoada retorna a cada Julho para suas cidades de origem, no esperado lapso das férias. Cada qual vivencia essa doce expectativa. A turma chega lá e começa a inventar coisas. Gincanas culturais, banhos de igarapé, excursão de trilha e canoagem, pescarias, passeio nas comunidades antes tão distantes e hoje, na era do automóvel, relativamente perto.
Entre uma que outra programação, jantar na Barraca da Santa no arraial, torneio de casados contra solteiros, festas e mais festas em qualquer lugar, ninguém cansa, ninguém se queixa, dorme-se pouco, come-se muito, meu Deus… vida que é vivida intensamente.
Viver o interior é uma coisa. Viver fora dele, para muitos que lá nasceram, é quase a mesma. Ninguém desliga. Ninguém se esquece. A gente ouve falar das pessoas, dos lugares conhecidos, dos costumes, das tradições, das muitas histórias que por ali se contam e sente uma espécie de banzo. Tucunaré e aviú de Santarém, jaraqui de Óbidos, mapará de Cametá, gurijuba da Vigia, pescada amarela de Salinas… Existe uma exacerbada identidade afetiva do ser humano com seu pequeno burgo, que não desaparece com a distância ou com o tempo.
Marcada para o fim de semana, como tantas outras que também o são, a festança do Matá mobilizou gente da cidade, do Paraná de Baixo, do Paraná de Cima, da Costa Fronteira, da Ilha Grande, do São Lázaro e sabe Deus quantos lugarejos mais. Nossos amigos do Botafogo, devidamente combinados, reuniram-se no sábado, à tardinha, confronte a um paricazeiro grande e lá ficaram tomando “traçado” (cachaça com cinzano), tirando gosto com piracuí, esperando a hora de viajar.
Bem pertinho, se mexendo suavemente ao sabor da leve correnteza do remanso, sobrenadava a igarité, já lavada e com doze remos, esperando a hora da partida.
Saíram oito horas. Tinham mais ou menos uma hora de remo pela frente. Conversa pra cá, conversa prá lá, o bate papo diluindo o esforço de vencer a correnteza, que já se mostrava esperta. Ninguém tirava da cabeça a glória suprema de dançar e cair nas graças da Genilda, um torresmo de morena que não perdia um forró.
E se não desse? Bem, lá estariam Marias, Joanas, Antonias, Raimundas (que importava o nome?), todas devolutas e acolhedoras à rapaziada visitante. Namoro de uma noite é igual chuva de verão, que cai e logo mais ninguém se lembra, mesmo porque adiante vem outra mais bonita, para tonificar a alma e lavar o corpo.
A menos de 500 metros vislumbraram o alvoroço. O clarão dos Petromax, cortejados por um enxame de mariposas, o vai e vem das pessoas, o burburinho de vozes trazidas pela viração, tudo isso continha veladas promessas de uma noitada inesquecível.
Apenas um detalhe causou acentuada estranheza. Não se ouvia a música. Os pares, no amplo salão da casa da fazenda, dançavam agarradinhos e, de repente, paravam. Paravam simplesmente, porém não acontecia o lógico e o trivial: a moça ir para um lado e o rapaz para o outro, cediço costume da época. Simplesmente todo mundo parava de dançar, mas continuavam agarrados – e de repente recomeçavam a dançar.
O que seria aquilo, raciocinaram os moços do Botafogo? Seria uma nova invenção dos “brancos da cidade” ou modismo dos almofadinhas afetados que tanto detestavam?
Só deu para descobrir quando chegaram. Para azar do candidato a Prefeito, dos cabos eleitorais e dos festeiros do Matá, o barco que levava a “orquestra” pregou no meio do Rio Amazonas, retendo sem apelação e sem socorro os músicos do pau-e-corda. E os que por eles esperavam, como bons pés de valsa, improvisaram um rádio de pilha, sintonizaram a rádio “Rio Mar” de Manaus e passaram a dançar ao som das músicas transmitidas pela emissora amazonense.
E no intervalo dos “comerciais”, os marmanjos não largavam as damas porque, para desdita do time botafoguense, naquela inusitada festa havia muito mais homens do que mulheres.
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* É membro da Academia Paraense de Jornalismo. Escreve regularmente neste blog.
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