Falta um plano de carreira federal

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por Karlisson Eder da Cunha Lima (*), especial para o Blog do Jeso

karlisson Edar Cunha - Blog do JesoNo inicio dos anos 70, o Governo Federal proporcionou, através da antiga Fundação Sesp, uma interiorização do trabalho médico na região oeste do Pará. Foi louvável a decisão da época, pois que trouxe médicos extremamente capacitados, que lideraram uma legião de servidores públicos para atender os nossos ribeirinhos amazônicos.

Nesse exercito, tínhamos o saudoso Doutor Pena e outros mestres, que abandonaram o conforto das capitais para irem pro oeste do Pará.

Leia também dele:
Médico da Família: solução para Saúde pública.

Hoje, temos uma realidade diferente, caracterizada por um movimento inverso. Os médicos da nossa região estão procurando oportunidades trabalhistas nas capitais. A realidade é clara quando analisamos as estatísticas, que concluem que, dos aproximadamente 6.300 médicos atuantes do Pará, pouco mais de 200 estão em Santarém, cidade essa que representa polo regional de saúde na região.

Pergunto: por que esta disparidade tão grande?

A resposta: nos anos 70, o governo federal oferecia um Plano de Carreira Nacional, que garantia exclusividade dos médicos para o atendimento na rede pública. Eles cumpriam dedicação exclusiva, com progressão salarial e garantia de que iriam ter uma função de estado.

Essas vantagens proporcionaram seguranças trabalhistas aos colegas da época, que abandonaram os grandes centros para assumirem a responsabilidade de fazer medicina no interior.

Ubaldo Corrêa, Benedito Guimarães, Paulo Corrêa e Waldemar PenaWaldemar Pena (último à direita) com os amigos Ubaldo Corrêa, Benedito Guimarães e Paulo Corrêa. Foto: arquivo/Ércio Bemerguy

Já no atual século, a situação é inversa. Através da “municipalização da saúde”, a responsabilidade dos gastos deste setor ficou nas costas de prefeitos e governadores. Esses, por sinal, já fazem o sacrifício de contribuir com a maioria do orçamento da saúde, enquanto que a União é a grande concentradora dos impostos.

Os municípios maiores, que podiam gerar mais tributos, ergueram as melhores condições de estrutura e trabalho. Por outro lado, as pequenas cidades ficavam à mercê dos repasses de verbas de programas do Governo Federal.

Isso levou a uma concentração dos médicos nas cidades maiores, deixando os interiores carentes de assistência médica, já que é impossível os municípios pequenos arcarem sozinhos com o complexo eixo “ESTRUTURA ADEQUADA X CARREIRA DE ESTADO PROFISSIONAL”

O resultado: faltam médicos no interior. Mas não falta apenas isso. Falta uma política por parte do Governo Federal que valorize o médico, o enfermeiro e as demais profissões. Uma política que garanta a progressão salarial digna e uma função de Estado.

Somente o governo federal pode implantar isso, já que é a União a maior detentora dos recursos econômicos da nação, e que poderiam muito bem serem aplicados na construção da estabilidade profissional do trabalhador.

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* É médico e reside em Santarém.


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4 Responses to Falta um plano de carreira federal

  • Parece que algum leitor do Blog em algum dia de sua vida foi inadequadamente atendido por algum colega médico e , infelizmente, pensa que todos nós somos “raça de cachorro” para serem iguais.
    Humanização existe na medicina SIM. E na maioria dos profissionais. Convido-o para conhecer a SBMFC (www.sbmfc.org.br ) Se quiser mostro os exemplos de profissionais que temos nestes pais, que com certeza é uma referência mundial na atenção básica.
    O importante é não fazer uma generalização BURRA e preconceituosa, pois isso demonstra uma caracterização rancorosa e racista do debate.
    Na época do saudoso Dr. Penna, o governo FEDERAL não obrigava ninguém a vir ao interior. O Governo incentivava. Caso seja implantada a carreira de estado, o profissional de saúde vai aceitar ganhar um salário justo, e terá a garantia de não ser demitido no final dos 04 anos. Não precisar pagar 30 ou 40 mil reais. Apenas pedimos ao Ministério da Saúde que nos ofereça a segurança trabalhista de um juiz, ou de um Promotor, já que o governo federal detém a maior parte dos recursos públicos deste país .
    Não vou culpar somente o governo federal (este e os anterior(es) pela deficiência da saúde. Acho que eles tem sim a maior parte da culpa , já que os estados e municípios estão endividados devido a maior responsabilidade do financiamento da saúde publica, enquanto a união detém o “grosso” dos impostos do contribuinte.

  • Conheci o Dr. Pena, sem dúvida um grande profissional e uma grande criatura, mas quando cheguei aqui nos idos da década de 1970, esse brioso profissional era proprietário da Casa de Saúde São Sebastião, não me consta que que ainda atuava na rede pública.
    “Já no atual século, a situação é inversa”. Como assim? Conheço município que oferece R$ 30.000,00 para médicos e não encontra no “mercado” ninguém quer ir para o pequeno município.
    A situação é inversa porque não encontramos mais Drs. Pena por ai.
    Conheci uma pá de médicos do Sesp que vieram pra cá à época que cheguei aqui ou uma pouco depois, e algum tempo todos deixaram o serviço público para atuarem no “mercado”, alguns montaram suas próprias clínicas.
    Culpar só o governo federal por deficiência da saúde nos pequenos municípios é no mínimo falta de alto crítica.

    Vamos contar a história pelo menos próxima do que ela foi doutor.

    Chico Corrêa

  • Não há plano de carreira que mude a mentalidade dos médicos coxinhas da atualidade.

    Para derrubar a tese de plano de carreira, basta comparar o patrimônio formado pelos médicos antigos em 40 anos de trabalho, com o patrimônio dos médicos atuais em 10 anos de trabalho.

    A diferença fundamental entre o comportamento dos médicos de quatro décadas atrás chama-se HUMANISMO. Isso se aprendia na formação médica.

    Por isso, por incrível que pareça, os médicos daquela época eram mais capacitados, pois cuidavam e se preocupavam com o DOENTE. Os médicos de hoje, quando muito, só cuidam da DOENÇA, além de terem como maior preocupação profissional o DINHEIRO.

  • Quê saudades das quatro ilustres personalidades santarena. Prefeito Dr. Ubaldo Correa, era o representante político de nossa família, família Fernandes, serviu o Tiro de Guerra com meu saudoso irmão mais velho Raimundo Fernandes. Tive a acolhida em sua casa, e tomava café com o prefeito e sua gentil esposa, quando ia estudar no Dom Amando. Tinha muita consideração e apreço por nós, e a recíproca era verdadeira. Dr. Pena, um dos melhores médicos de Santarém, muito chegado ao meu irmão Dr. Fernandes. Que os quatro, estejam falando e confabulando com Deus ! Que aqui estamos lutando para as melhorias de nosso povo tão humilde e carente. Amém ou aleluia !!! Quando ao médico da família, meu irmão Dr. Nonato Fernandes, é um deles no bairro do Diamantino; sem sombra de dúvida, é um grande feito do governo. Precisa ser mais ampliado e com urgência. Amém !!!

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