O time do São Francisco que venceu o Madureira
por Cristovam Sena (*)
Charles Miller, filho de um inglês com uma brasileira paulista, foi quem trouxe a primeira bola de futebol para o Brasil. Tinha ido estudar na Inglaterra, onde conheceu e se encantou com o “football games”.
Ao retornar em 1894 trouxe na mala uma “número 5” oficial e um conjunto de regras, por isso é considerado o pai do futebol brasileiro. A praça em frente ao Estádio do Pacaembu, em São Paulo, chama-se Praça Charles Miller, em sua homenagem.
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O início do futebol em Santarém tem certa semelhança com o que aconteceu em São Paulo.
O historiador Paulo Rodrigues dos Santos registra no seu livro Tupaiulândia que o futebol em Santarém teve início pelos idos de 1912.
A primeira bola foi trazida por jovens santarenos que estudavam em Belém: Felisbelo e Raimundo Sussuarana, Alberico e Almiro Nóvoa, Heriberto e Armênio Guimarães, Trajano Mota. Porém, fora da literatura, nenhum deles teve seu nome ligado ao futebol santareno, com direito a uma homenagenzinha sequer.
As peladas com as bolas trazidas de Belém aconteciam no terreno da Praça São Sebastião, que os jovens denominavam de “Ground provisório de São Sebastião”.
No dia 13 de abril de 1913, aconteceu a primeira partida de futebol no “Ground provisório de São Sebastião”. Campo aberto, sem cerca nem arquibancada. O time local “Grupo Sportivo” enfrentou uma equipe formada por tripulantes do navio inglês “Viking” da Amazon Telegraph que estava fundeado no rio Tapajós, em frente a cidade.
Como era novidade, o jogo atraiu grande público e a turma de casa enfiou 4×1 nos gringos.
Em 1917, surgiu novo clube, o “Paysandu Sport Club”. Em dezembro do mesmo ano o Paysandu inaugurou na Mendonça Furtado, onde hoje está localizado o Colégio Batista, seu próprio estádio, que em 1919 foi cercado e erguida pequena arquibancada.
Em junho de 1916, os franciscanos começaram na Av. São Sebastião a construção do prédio onde iria funcionar o Colégio São Francisco e residência aos padres da Prelatura.
Como o terreno era grande, frei Ambrósio reservou uma área para servir de recreio aos alunos. Alguns anos depois, os alunos do “São Francisco” fundaram o “União Esportiva da Congregação Mariana” e a área do recreio foi melhor adaptada para jogos de futebol.
O campo foi cercado, aberto um portão independente da residência dos padres e construíram pequena arquibancada. Com a nova estrutura, a área de recreio do colégio foi batizada de “Parque São Francisco” e inaugurada com festa na tarde de 12 de dezembro de 1926.
Na administração do prefeito Ildefonso Almeida (1931/33), novos melhoramentos foram feitos no “Parque São Francisco”. Em 1932 aumentaram a arquibancada e cercaram o campo com arame, separando torcida dos jogadores. Passou a ser denominado Estádio Municipal.
Em 1948, ano do centenário de elevação de Santarém à categoria de cidade, o então prefeito Aderbal Tapajós Caetano Corrêa (1948/51) murou o estádio e fez outras pequenas melhorias. No dia 24 de outubro foi realizado jogo amistoso entre a Seleção Santarena e o Paysandu de Belém, como parte das comemorações da histórica data.
Foi a primeira partida de futebol irradiada ao vivo diretamente do Estádio Municipal.
A recém inaugurada ZYR-9, Rádio Clube de Santarém – pioneira na radiodifusão em Santarém e no interior da Amazônia – transmitiu a partida em que a Seleção Santarena derrotou a equipe do Paysandu de Belém, pelo escore de 2×1.
O secretário do prefeito Aderbal Corrêa, Elias Pinto, pai do jornalista Lúcio Flávio Pinto, narrou o jogo e, assim como a ZYR-9, entrou para a história como o primeiro locutor esportivo de Santarém e do interior da Amazônia.
Devido ter patrocinado essa melhoria, posteriormente o estádio passou a ser denominado de “Estádio Municipal Aderbal Corrêa”.
Fiz esse intróito para poder chegar ao ano de 1968. É que no dia 4 de junho passado, um sábado, lá no Campo Novo, clube de pelada onde nossa turma de amigos se encontra para os rachas de final de semana, recebemos a visita do Wilson Navarro, famoso Navarrinho, jogador do São Francisco e Seleção Santarena. Aos 69 anos, Navarrinho continua dinâmico, com memória de elefante e gosto para prosear.
No decorrer do papo gelado, Navarrinho lembrou da reinauguração do “Estádio Municipal Aderbal Corrêa”, em maio de 1968, e um filme passou pela minha cabeça.
Em 1967, tinham iniciado mais uma reforma no estádio, agora para corrigir um acentuado desnível no terreno, gramar o campo de jogo e ampliar as arquibancadas. A reinauguração do estádio aconteceu somente no ano seguinte.
A Liga Esportiva programou dois jogos amistosos para festejar o acontecimento. São Raimundo e São Francisco enfrentariam o time do Madureira do Rio de Janeiro, que vinha fazendo invicta excursão pelo Norte.
Nessa época Santarém vivia em estado de ebulição política. O prefeito eleito no ano anterior, Elias Pinto, tinha sido deposto e a prefeitura vinha sendo ocupada por prefeitos de plantão.
A primeira partida do Madureira foi contra o São Raimundo, no dia 30 de maio e terminou 0x0. Surdão; Pedro Nazaré, Ganso, Inacinho e Soldadinho; Jurandir e Bosco; Cabinha, Corisco, Tovica e Nazareno, não conseguiram quebrar a invencibilidade do time do Rio.
O último jogo da excursão foi contra o São Francisco, dia 2 de junho, há 48 anos.
Para reforçar o Leão Azul, diretores do clube foram conversar com o Ivan Toscano, “dono” do América, e solicitaram o empréstimo do Ataualpa e eu, para atuarmos por eles nesse jogo amistoso.
Domingo a tarde, a torcida do Leão acreditando na quebra da invencibilidade do Madureira, lotou o estádio. Marcando dois gols, um em cada tempo, Navarrinho desequilibrou a nosso favor. Final 2×1. Foi quebrada a invencibilidade do Madureira no último jogo da excursão em Santarém.
Ainda hoje ecoam os gritos do Expedito Toscano no terreno baldio que se transformou o “Estádio Municipal Aderbal Corrêa”:
Leeeãããooo!!!
Marcial; Guajará, Helvécio, Dias Queixura e Acari; Pão Doce e Cristovam Sena; Carlito, Antônio José, Ataualpa e Navarrinho. O time que desbancou o Madureira.
Após a partida torcedores azulinos saíram do estádio em passeata cantando o sucesso carnavalesco de 1958: “Madureira chorou, Madureira chorou de dor, quando a voz do destino, obedecendo o divino, a sua estrela apagou”. Como o Bar Mascote era o último e único destino de qualquer brincadeira dos jovens inocentes daquela época, de noite fui pra lá festejar com os torcedores azulinos. Eu, com vinte anos, dava meus primeiros goles na cerveja.
No outro dia, segunda-feira, fui receber os presentes pela vitória. Do empresário André Teixeira, calça e camisa; do também empresário Francisco Coimbra, um par de sapatos, a escolher no comércio. Os dois queriam que eu fosse jogar no Leão Azul. Preferi permanecer no Diabo Rubro com meus amigos de Dom Amando.
Era tempo do amadorismo marrom, um híbrido de amadorismo com profissionalismo. Alguns jogadores conseguiam emprego nas lojas dos empresários, outros na prefeitura. São Raimundo e São Francisco já incentivavam as vitórias com pequenas gratificações aos jogadores.
Uma minoria preferia estudar, seguir a vida profissional fora do futebol, conseguir formação acadêmica. Esses precisavam sair de Santarém, a cidade ainda não oferecia faculdades para essa minoria.
Todos jogadores da região. A maior parte jovens bons de bola.
Conversar com o Navarrinho foi excelente exercício para recuperar lembranças já quase apagadas da minha memória.
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Meu pai era o capitão dos portos em Santarém nessa época e ele.deu o pontapé inicial nessa partida, eu tenho a foto. 😂😂😂
Belo resgate desse pedaço de história da nossa terra. O Cristovam me fez lembrar de uma turma que, do Guajará (lateral direito) ao Navarrinho (ponta esquerda), jogava o fino da bola. Tive a felicidade de ser naquela tarde, nos 2 x 1 em cima do imbatível Madureira, o Marcial, apelido que foi logo esquecido, como o meu futebol, já que fui dos que optaram por seguir na direção de outras paragens em busca de uma nova profissão, digamos, mais acadêmica. Não ter continuado no futebol não me frustra. Só aquela tarde de domingo me bastou pra entender essa paixão por esse esporte que encanta, arrebata multidões. E não sai da memória. Anselmo Gama
P.S.: Marcial, na época, era o goleiro do Flamengo e estava em grande forma. O apelido surgiu de uma brincadeira dos amigos dos times juvenis. Mas eu passava longe do Marcial de verdade.
Retifico: Cristovam Sena, é o pré-nome correto do craque e historiador.
Parabéns Cristóvão, pelo magnífico bosquejo do exuberante futebol santareno, que nos legou os craques de escol citados em seu primoroso texto, que pessoalmente vi atuarem. Gostaria que você informasse o nome do massagista que está na foto, que em Óbidos via de regra acompanhava os times de Santarém que lá se apresentavam. E se não for demais, quando puder, escreva sobre dois jogos que assisti no Estádio Elinaldo Barbosa (em 1970 ou 1971) dignos de registro, pelo elevado nível técnico tanto da “prata da casa” como dos visitantes: O Fluminense de Feira de Santana (BA) o o Olaria (RJ), este último com Miguel (zagueiro central), Alfinete (lateral esquerdo), Afonsinho e Roberto Pinto (ambos meio campistas) e Marco Antônio (ponta esquerda), alguns deles com passagens pela Seleção Brasileira. Forte abraço.
Excelente matéria. Parabéns ao Sena e ao titular desse famoso blog.
Ao Navarrinho um grande abraço, com certeza é meu parente.
Renato Navarro (Belém-PA)
Parabéns Cristóvão Sena pela preciosa e maravilhosa crônica. Tive o imenso prazer de brincar bola com o Navarrinho, pessoa ímpar. E, após as partidas, conosco sempre dividia histórias e estórias do nosso futebol. Ele é merecedor da homenagem.