Óbidos, 315 anos: sua história e sua gente

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por Célio Simões (*)

A “HISTÓRIA DOS MUNICÍPIOS DO PARÁ”, do jornalista e acadêmico Carlos Roque, fixa o remoto ano de 1697 como a mais recuada memória que existe sobre Óbidos, cidade encravada na passagem mais estreita do Rio Amazonas no Oeste do Pará (menos de 2.000 metros de largura), ano em que o então Governador Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho a construiu a partir de uma fortificação militar visando controlar o movimento de embarcações e assim consolidar o domínio português naquela importante rota de navegação fluvial, através da qual é possível atingir Iquitos, no Peru e daí, os contrafortes da Cordilheira dos Andes.

O local já fora assinalado com destaque em 1637, quando Pedro Teixeira, em sua pioneira expedição subindo o Amazonas até atingir a confluência com o Napo, fez registrar a observação de que, naquele ponto, o famoso curso d’água diminuía de largura, passando apertado por uma garganta de terra.

Bento da Costa, o arguto piloto da expedição de Teixeira, incumbido de consignar os principais acidentes geográficos da viagem, objetivando ultimar a documentação cartográfica dessa lendária expedição, fez a seguinte observação, recolhida pelo Padre Jesuíta Alonso de Rojas e citada por Arthur Cezar Ferreira Reis, em seu livro “História de Óbidos”:

“O PILOTO-MOR, PRINCIPAL DESCOBRIDOR DESTE RIO, DIZ QUE CONVÉM MUITO QUE SUA MAJESTADE MANDE EDIFICAR NO LUGAR ESTREITO, JÁ ASSINALADO, E PONHA NELE GUARNIÇÃO PARA IMPEDIR A PASSAGEM DO INIMIGO HOLANDÊS, PARA QUE NÃO SUBA O RIO E SE APODERE DAS SUAS PROVÍNCIAS. PORQUE COMO A NAVEGAÇÃO É SEM PERIGO, MANSO O RIO, ABUNDANTES OS MANTIMENTOS E OS ÍNDIOS POUCO BELICOSOS, SERÁ FÁCIL AO INIMIGO NAVEGAR ESTE RIO E APROVEITAR-SE DAS RIQUEZAS E FRUTOS DA TERRA”.

A propósito desse acidente fisiográfico, escreveu o jesuíta Cristóvão de Acunha, no ano de 1637:

“O MAIOR ESTREITO ONDE ESTE RIO RECOLHE AS SUAS ÁGUAS É DE POUCO MAIS DE UM QUARTO DE LÉGUA NA ALTURA DE DOIS GRAUS E DOIS TERÇOS, LUGAR SEM DÚVIDA PREVISTO PELA DIVINA PROVIDÊNCIA, ESTREITANDO ESTE DILATADO MAR DOCE, PARA QUE EM SUA ANGUSTURA SE PUDESSE CONSTRUIR UMA FORTALEZA QUE IMPEÇA O PASSO A QUALQUER ARMADA INIMIGA, POR MUITAS FORÇAS QUE TRAGA, SE POR ACASO ENTRAR PELA BOCA PRINCIPAL DESTE GRANDE RIO”.

Coube ao Superintendente das fortificações, Sr. Manoel da Mota Siqueira, construir em taipa de pilão o referido Forte, sobre a alta ribanceira à margem esquerda do Amazonas, artilhado com quatro pequenas peças, a guisa de garantir a soberania de Portugal naqueles ermos da floresta, ficando o mesmo, depois de pronto, conhecido pela denominação atual de FORTE DOS PAUXIS, em homenagem aos índios Pauxis que habitavam as vizinhanças.

A partir da consolidação daquele núcleo militar, toda embarcação que subia ou descia o rio empenhada no comércio legal ou não das riquezas da flora e da fauna, era intimada a parar para a cobrança do dízimo devido à Coroa Real.

Nessa condição de posto fiscal permaneceu por longos anos o Forte Pauxis quando em 17162 recebeu a visita do Bispo do Pará Dom Frei João de São José, que constatou com visível surpresa que a guarnição limitava-se a dois soldados e dos quatro canhões iniciais apenas dois ainda funcionavam, o que evidentemente tornava inócua sua finalidade defensiva.

Tanto que em 1788, o novo Bispo do Pará, Dom Frei Caetano Brandão, ratificou que o forte guardava privilegiada posição estratégica, porém completamente destituído de todos os meios e recursos para a sua própria defesa.

Nada obstante, desde o ano de 1693 os índios Pauxis contavam com a assistência religiosa dos Capuchos da Piedade, vindos da cidade do Porto, em Portugal, onde já se haviam organizado como irmandade desde 1500 (ano do descobrimento do Brasil), entregando-se à prática de contínuas penitências, como forma de purificação espiritual.

A eles coube a missão evangelizadora daqueles silvícolas, convertendo-os às práticas religiosas, dando-lhes as mais elementares noções de trabalho organizado, de defesa contra a exploração desenfreada pelo homem branco e em prol de sua própria sobrevivência.

Mercê desse meritório trabalho de conscientização, o aldeamento dos Pauxis paulatinamente ganhou importância pela sua condição de vizinha do Forte e assim, pela laboriosa atividade dos jesuítas, tornou-se um local de vida produtiva e movimentada, sob a proteção de sua padroeira Nossa Senhora Sant’Ana, cuja matriz (hoje Catedral), foi solenemente inaugurada em 08 de Fevereiro de 1827.

Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marques de Pombal e nomeado Governador plenipotenciário de toda a Amazônia, estendeu aos Capuchos das Piedade as retaliações atém então restritas aos Jesuítas no trabalho de catequese dos gentios, destituindo-os da direção de todas as aldeias sob sua jurisdição.

Em 25 de Março de 1758, um sábado, numa viagem com destino ao Rio Negro, Mendonça Furtado pessoalmente elevou o lugar à categoria de Vila, com o nome de ÓBIDOS, em homenagem à sua topônima portuguesa, promovendo a unificação do aglomerado humano existente no Forte, com os habitantes de duas aldeias existentes às proximidades, que os padres da Piedade haviam administrado antes de serem defenestrados por Pombal.

Ainda como vila enfrentou os percalços da Cabanagem, verdadeira guerra civil que convulsionou a Amazônia de 1831 a 1840, deixando um rastro de destruição, milhares de mortos e incalculáveis prejuízos materiais. Após terem tomado Santarém, Monte Alegre e Alenquer, os cabanos investiram sobre Óbidos, saqueando-a impiedosamente.

Quando, entretanto, ameaçaram incendiá-la por completo, foram firmemente repelidas pelos obidenses em armas, sob a liderança incontestável dos irmãos Padres Raimundo Sanches de Brito e Antônio Manuel Sanches de Brito, que substituíram o ofício religiosos pela arte da guerra, revelando-se excelentes estrategistas.

A partir da reação, os cabanos mudaram de tática. Propuseram desembarcar como “amigos” e assim foram recebidos. Porém à noite, com toda a população dormindo, violaram o acordo e tomaram o Forte, apossando-se das armas disponíveis e promovendo, além dos costumeiros saques, o assassinato de vários cidadãos, especialmente os de origem portuguesa, afora a violação das suas indefesas mulheres. Eram formados por hordas de caboclos, muitos desertores do exército, índios muras de temperamento brutal e irrascível, índios mundurucus e considerável contingente de escravos ávidos por liberdade.

Os que tiveram a ventura de escapar vivos daquela noite de terror uniram-se em torno dos Padres Raimundo e Antônio Manuel Sanches de Brito e partiram para o confronto, conseguindo retomar a vila após renhido combate, colocando os rebeldes em fuga, impondo-lhes pesadas baixas.

Temendo-lhes o retorno, o povo predominantemente católico fez solene promessa de erguer um templo caso fosse poupado de novo assédio dos cabanos. Surgir assim em 1885 a Capela do Bom Jesus, construída mediante coleta pública, no ponto mais alto da colina e hoje ainda lá existente – uma das seis capelas de estilo jesuíta do Brasil – e hoje ainda lá se encontra como testemunha dessa convulsionada fase da vida política do Império.

Tão grande é a fé e a religiosidade dos obidenses no milagre operado, que toda uma história solidificou-se quanto ao episódio dos cabanos e a origem e as características arquitetônicas do templo, conforme o texto abaixo, constante dos arquivos do Museu Integrado de Óbidos, divulgado pelo site “Chupa Osso”:

“Em reparação a um sacrilégio cometido na Igreja Matriz, provavelmente no ano de 1800, foi construída pela população Obidense, a Capela do Bom Jesus, ou do “Desagravo”, no topo de uma colina que avançava para o interior do Rio Amazonas, atrás da Cadeia Publica.

Há duas versões populares quanto ao sacrilégio, que motivou a construção de tal Capela. Uma delas afirma que três homens ao chegarem a porta principal da Matriz, com os cálices que haviam roubado, se viram seguidos por uma legião de anjos, o que os fez abandonar os cálices na colina, que mais tarde deu lugar a Capela.

A outra versão conta, que mal feitores entraram na Matriz de Sant’Ana, roubaram os cálices e, do alto da colina derramaram as hóstias neles contidas. No dia seguinte a esse fato, encontraram as hóstias naquele mesmo lugar, cercadas de ovelhas ajoelhadas.

Vários episódios da historia de Óbidos, marcaram a existência da capela do “desagravo”, como a aclamação da independência do Brasil, em Óbidos, no dia 12 de novembro de 1823, quando nela foi celebrado o TEDEUM, um cântico em ação de graças. Solenidade como esta, aconteceram na capela do Bom Jesus ou Desagravo, por está na época, a Matriz de Sant’Ana, em péssimo estado de conservação.

Em 1827, ano de inauguração da Igreja Matriz, o estado de ruínas em que se encontrava a Capela do Desagravo, fez com que o povo de Óbidos, passasse a freqüentar apenas a Igreja de Sant’Ana.

Em virtude da divisão da sociedade paraense em dois grandes grupos sociais – de um lado, comerciantes ricos, grandes funcionários civis e militares, alem de religiosos, e, de outro negros escravos, tapuios, pretos livres, brancos pobres, etc, que habitavam casas de palha, as margens dos rios e que produziam riquezas de que não usufruíam – surgiu o “Movimento Cabano”.

A ocupação de Óbidos pelos revolucionários cabanos, que tomavam os bens das pessoas abastadas da cidade, fez com que o padre Raimundo Sanches de Brito, pároco local, pensasse que o fato se tratava de um castigo imputado por Deus à população, por ter esta, abandonado a Capela do Desagravo.

Apavorados com a situação, as famílias ricas prometeram construir uma nova capela do Bom Jesus, tão logo voltasse a paz à Óbidos e a Província do Grão Pará. Tal promessa foi adiada por 20 anos, em virtude dos prejuízos que sofreu a economia local em conseqüência da Cabanagem.

A construção da nova capela contou com financiamento das famílias abastadas e com o trabalho das pessoas humildes, como a escrava Eulália, o Sr. Laurindo Ferreira da Silva e muitos outros escravos, cedidos por seus senhores, para trabalhar na edificação da nova capela, inaugurada no dia 04 de outubro de 1855.

A capela do Bom Jesus, fruto da promessa dos obidenses, no que se refere a arquitetura, possui elementos característicos das construções jesuítas dos séculos XVI, XVII, XVIII; este fato é substanciado com o alpendre ou copiar, situado anteriormente à porta de entrada, que dá acesso ao interior da capela, propriamente dita (NAVE).

O uso do alpendre nas fachadas é um exemplo da influência Ibérica. Presume-se que, como na Europa, também tivesse a finalidade de impedir que determinadas classes, como por exemplo, pretos escravos, índios e tapuios, tivessem acesso às naves da capela.

Posterior a tudo isso, foi construída – próximo ao local da antiga Capela do Desagravo – a Segunda Capela do Desagravo. Desta vez, uma capela minúscula, com vitrais, onde cabiam apenas duas pessoas.

Dessa minúscula Capela, o padre celebrava missas campais, todos os anos a pedido das famílias ricas da cidade, que perderam seus entes queridos, mortos pelos cabanos, em lugar próximo a ela, conhecido popularmente como “Bota D’água”.

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Capela de Bom Jesus

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Antiga Capela de Bom Jesus

Assim, por deliberação da Assembléia Provincial, a Lei n.º 252, de 02 de Outubro de 1854, elevou Óbidos à categoria de cidade; e através da Lei n.º 520, de 23 de setembro de 1867, editada pelo Poder Legislativo Provincial, passou a ser sede de Comarca, abrangendo os atuais municípios de Faro e Juruti. Finalmente, em sessão solene realizada em 26 de Novembro de 1889, a Câmara Municipal formalizou sua adesão à República recentemente proclamada por Deodoro da Fonseca, em 15 de novembro daquele ano.

Nessa época já se evidenciava a preocupação de seus habitantes com a esmerada educação de seus filhos, mandando-os estudar em Belém ou outros centros mais evoluídos, sem entretanto descurar do preparo intelectual daqueles que, sem recursos materiais, tinham que ficar na “Cidade Presépio” (como é carinhosamente denominada), preparando-os intelectualmente em vários colégios existentes. Para melhor atender esse objetivo, em 1854 foi criada uma biblioteca com 1.300 livros, o Gabinete de Leitura Obidense, um teatro onde se exibiam os artistas locais e o seminário São Luiz de Gonzaga, este funcionando desde 1848 abrigando em regime de internado os que buscavam a carreira religiosa.

É inquestionável a origem militar de Óbidos e por muitos anos, no império ou na República, seu cotidiano esteve ligado às atividades castrenses. Desde os primórdios encontrava-se aquartelado na área urbana o efetivo do 151.º BATALHÃO DE INFANTARIA DA GUARDA NACIONAL, onde serviu meu avô paterno, o Capitão João Anastácio de Souza.

A Guarda Nacional foi uma força paramilitar organizada por lei no Brasil, conforme dados capturados na internet. Acusada de elitista, seus membros eram recrutados entre os cidadãos com renda anual superior a 200 mil réis nas grandes cidades e 100 mil réis no meio rural.

O escopo de sua criação foi a defesa da Constituição, a liberdade e a integridade do Império, através da garantia da ordem pública. Em resumo, o que hoje faz (ou deveria fazer) a Polícia Militar. De base municipalista, não por acaso eram instaladas nas Comarcas, privilegiando as elites políticas e econômicas de cada uma, que eram os dirigentes dos batalhões, fossem da infantaria, da artilharia ou da cavalaria.

A Guarda teve relevante atuação durante a Revolta da Armada (1894), a exemplo da Guerra do Paraguai, pois nesta, do efetivo de 123.000 brasileiros empenhados na liça, quase 60.000 eram da Guarda.

A partir de 1873 houve o gradativo declínio dessa fantástica força paramilitar, que ainda existe em vários países da Europa, na América do Sul e nos Estados Unidos, sendo suas funções no Brasil transferidas para o Exército, em especial com a Proclamação da República, onde a Força Terrestre colocou um oficial de seus quadros como nosso primeiro Presidente. A última aparição pública da Guarda Nacional deu-se no desfile militar de 7 de Setembro de 1922, ano no qual a mesma foi desmobilizada em todo o território nacional.

Dizem ainda os informes pesquisados que mesmo assim o Presidente Arthur Bernardes continuou a expedir Cartas Patentes a oficiais da Guarda Nacional que prestaram o juramento em Agosto de 1924, após sua completa extinção, quando as mesmas nenhum valor possuíam. Apenas acrescenta que tais diplomas eram de “elevado visual artístico, feitos mesmo para impressionar a quem a eles tivesse acesso, justificando a intenção de consolidar o poder do patenteado junto a sua comunidade.

Após a desativação doa Guarda Nacional, foi inaugurado em 1909 o belíssimo prédio do Quartel do Exército, para abrigar o 4.º Grupo de Artilharia de Costa, transformado após a revolução de 1924 em 8.ª Bateria Independente de Artilharia de Costa (BIAC) que, finda a 2.ª Guerra Mundial, ficou reduzida a uma Companhia de Infantaria e finalmente transformada no Tiro de Guerra 7-272 que funcionou até o ano de 1967, quando foi extinto, restando apenas uma guarnição de soldados para a manutenção das instalações militares, que incluía além o prédio do Quartel (atual Palácio da Cultura José Veríssimo) a lendária e famosa “Bateria Gurjão” no ponto mais elevado da Serra da Escama, composta de quatro canhões Armstrong, que disparavam suas mortíferas cargas contra navios inimigos, guiados por eficientes telêmetros.

Esse quartel – hoje tombado por Decreto do Governo do Pará – foi palco de uma sublevação, quando seu corpo de sargentos aderiu à Revolução Constitucionalista de 1932 de São Paulo, liderados por um certo Coronel Pompa, que se dizia enviado do General Isidoro Dias Lopes, com a missão de tomar o Quartel do 27.ª Batalhão de Caçadores sediado em Manaus.

Ildefonso Guimarães narra de maneira insuperável esse episódio verídico em seu livro “OS DIAS RECURVOS” e em determinada passagem enfatiza a relevância daquela instituição militar para o cotidiano dos moradores de Óbidos, que lá tinham invariavelmente alguém da família servindo à Pátria e de alguma forma tentando seguir na carreira das armas, a míngua de outros empregos disponíveis.

Sobre esse estabelecimento militar, escreveu o professor João Canto em seu site “Chupa Osso”, que divulga a história e a cultura do município:

Este Quartel foi projetado pela Comissão da Vila Militar da capital federal, sendo construído em terreno próprio, um pouco abaixo da Fortaleza de Óbidos, por conta do Governo Federal, na Praça do Bom Jesus. Ignora-se, porém, a existência da planta respectiva, e a importância despendida para sua construção.

Destinava-se primeiramente, ao aquartelamento do antigo Quarto Batalhão de Artilharia de Posição, depois ocupado pelo Quarto Grupo de Artilharia de Costa. Sua inauguração ocorreu em 1909. Segundo projeto, o Quartel deveria constar de três corpos, separados uns dos outros, vindo a ser construído apenas o corpo da frente, contendo três pavimentos, com as seguintes dependências:
a) Pavimento térreo (ou rés ao chão), com piso ladrilhado onde foi instalada a Intendência do Batalhão.
b) No primeiro pavimento, foram instalados provisoriamente o xadrez, os alojamentos de Praça, o Estado Maior, a farmácia, a escola regimental, o Corpo de Guarda, etc.
c) No segundo pavimento, foram instalados o Gabinete do Comandante, Secretaria, Casa das Ordens, etc.
d) Um pavilhão, destinado ao refeitório dos praças;
e) Um pavilhão pequeno para as dependências higiênicas.
Atualmente no Quartel de Óbidos funciona a Secretaria de Cultura do Município.

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Quartel de Óbidos

Entrementes, essa vinculação com a vida na caserna não impediu que inúmeros obidenses se dedicassem nas ciências, nas artes, no serviço público e nas letras, inclusive jurídicas, bastando citar duas das maiores expressões de nossa literatura, ambos fundadores da Academia Brasileira de Letras, o jornalista, educador, escritor e crítico literário José Veríssimo de Matos e o romancista, jurista e professor de Direito Herculano Marcos Inglês de Souza.

Outros nomes de ontem e de hoje que merecem destaque, pela sua importância no cenário regional ou nacional: Manoel Francisco Machado, o Barão do Solimões, Doutor em Direito pela Universidade de Coimbra, foi Presidente da Província do Amazonas, sendo considerado uma das mais sólidas culturas do Império; os Desembargadores Romualdo de Souza Pais de Andrade e Raymundo Nogueira de Farias; os Padres Raimundo e Antônio Sanches de Brito, que salvaram a cidade da sanha dos cabanos; os Ministros do Tribunal Superior do Trabalho Raymundo de Souza Moura e Rider Nogueira de Brito; o militante político Pedro Pomar, os escritores Francisco Manoel Brandão, Benjamim de Araújo Lima, Luis Carlos Urquiza, Ildefonso Guimarães e Ademar Amaral; o administrador Augusto Correa Pinto; os juristas Emanuel Simões Rodrigues, Eduardo Grandi e Antônio Pereira; o artista plástico Klinger Carvalho; o talentoso arquiteto e escritor Carlos Antônio Silva; os cientistas Podalyro Amaral de Souza e Constantino Barros; o memorialista e pesquisador Hélcio Amaral de Souza, o poeta Saladino de Brito; o médico, jornalista e deputado Gil Mont’Alverne de Sequeira; os mestres José Tostes, Manuel Valente do Couto, Glória Correa Pinto, Maria Madalena Printes, Cezarina das Graças Aquino e Córa da Silva Simões, neta do primeiro Juiz Municipal da cidade, José da Silva Simões; o intelectual e magistrado Romualdo de Souza Paes de Andrade e José Edílsimo Eliziário Bentes, ex-Presidente do Tribunal do Trabalho da 8.ª Região, para ficar apenas nesses poucos nomes, que enriquecem a galeria Pauxiana.

Óbidos é uma cidade história, considerada a “cidade mais portuguesa dos trópicos”. É dotada de um Museu Contextual, que através de painéis fixados na fachada de seus principais prédios, narra a trajetória de cada uma deles e das ilustres personalidades que os habitaram. Seu patrimônio cultural é riquíssimo e dele se ocupa a ACOB – ASSOCIAÇÃO CULTURAL OBIDENSE, que administra também outro museu dentro de suas dependências, franqueado aos que desejam visitá-los. A peculiar arquitetura de seus casarões coloniais foi todo inventariado pela arquiteta Jussara Derenji, sob os auspícios da UFPa/CNPQ no Livro “Caderno de Arquitetura 1 – Óbidos”, da série “Arquitetura da Amazônia”. Compatibiliza-se com esse caldo de cultura a existência da Escola de Música Manuel Rodrigues, o Coral Santa Cecília, o Grupo de Teatro Getsêmani e a Academia Artística e Literária de Óbidos – AALO, fundada por mim em 2009, com 40 Cadeiras simbólicas, em pleno funcionamento.

Sua economia ainda se baseia na agricultura, na pecuária e na pesca, a exemplo de quase todas as cidades do Baixo Amazonas, porém fica cada vez mais nítida sua vocação para o turismo cultural e ecológico, graças à exuberância da natureza que a cerca, suas serras, rios extremamente piscosos e lagos de rara beleza, com especial destaque para os lagos Pauxís, Curumú (e sua cachoeira), Mamaurú e Sucurijú, o Igarapé do Curuçambá, de águas verde escuras e geladas, alguns deles palcos de concorridos festivais como o do acari e do tucunaré. Há que se falar também no pitoresco festival do jaraqui, realizado na orla do Rio Amazonas em Junho, reunindo milhares de pessoas inclusive de municípios vizinhos, que recolhem o saboroso peixe do Amazonas com suas tarrafas habilmente manuseadas, para saboreá-lo em seguida sob as mais diversificadas formas permitidas pela culinária local.

Se no carnaval prevalece o famoso mascarado fobó, de vetusta tradição lusitana, uma espécie deturpara pelo tempo dos festejados “entrudos” de antanho, com blocos de rua como o Serra da Escama, Unidos do Morro, Bloco das Virgens, etc. para onde convergem além das comunidades das várzeas e das colônias, animados foliões das vizinhanças, na quadra junina, das típicas e deliciosas comidas, reinam absolutos os cordões de passados como a Garcinha, a Arara, o Surucuá, o Galo da Serra e os bois bumbas, com inigualáveis coreografias e encenações como se observam no Pai do Campo e no Pintadinho.

Julho é um mês inteirinho de festas religiosas e profanas, com a realização do Círio de Sant’Ana no segundo domingo do mês, com a procissão fluvial ao cair da tarde quando a querida Padroeira é recebida no cais de arrimo pelos fiéis que contritos a levam ao seu altar na Catedral, postada na principal praça da cidade. A festa invariavelmente ocorre no dia 26 (data fixa) verificando-se intenso movimento de venda de iguarias e o leilão de todo o gado e outras prebendas doadas pelos devotos, cuja renda vai inteira para a Paróquia e para a Diocese, chefiada pelo Bispo Dom Bernardo Balhman, aparentado de Dom Amado, o estimado bispo que marcou a história da Igreja Católica de Santarém e dá nome a um dos mais respeitados colégios do País.

Os obidenses, regra geral, ressentem-se de uma maior divulgação dos encantos e belezas naturais de seu município, que reclama a inserção de seus principais eventos no calendário turístico oficial do Pará, vantagem já alcançada por outras com melhor sorte, qe souberam valorizar sua cultura e sua criatividade, como Santarém com a Festa do Çairé, Parintins com a globalizada porfia entre o Caprichoso e o Garantido e mesmo Juruti, a mais recente estreante na mídia, graças à animada batalha anualmente travada no “Tribódromo” conde galhardamente competem as aldeias dos “índios” Mundurucus e Muirapinimas…

Com seu jeitão de burgo lusitano, porém antenada com tudo o que acontece no mundo, graças ao cipoal de parabólicas, a “Cidade Presépio” – assim chamada pela semelhança com um presépio natalino, quando vista de longe – reúne todas as condições para se tornar mais um dos tantos destinos turísticos que o Estado do Pará dispõe e que todos os paraenses merecem ver. Pela sua tradição, pelos seus costumes, pela sua gente, pela sua história e pela sua privilegiada posição geográfica, atrevidamente debruçada sobre a chamada “passagem heróica” do maior rio do planeta.

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* O autor é obidense, escritor e membro titular do Instituto Histórico e Geográfico do Pará.


Publicado por:
Advogado e escritor, nasceu em Óbidos. É membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Reside em Belém e escreve regularmente neste blog.

4 Responses to Óbidos, 315 anos: sua história e sua gente

  • Belíssimo trabalho, caro Célio Simões, que tanto engrandece a cultura da região. A Amazônia carece de escritores por isto sou aprendiz de escritor aos 6.7, e me sinto grato quando encontro fontes de pesquisa tão rica quanto a sua. Parabéns!

  • Ao viajar no texto. pude relembrar de algumas passagens e de algumas pessoas. Tudo veio reativar minha memória. Hoje com setenta e dois anos. Parabéns Óbidos minha terra Natal. Abraços a todos obidense e parentes que deixei.

  • Sou filho de OBIDENSE, nascido no RJ, porque as autoridades obidenses não procuram DIVULGAResta maravilha que acabei de ler, e fiquei ENCANTADO.

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