
por Rômulo Viana (*)
Ainda que possa parecer que a maior vocação cultural de Óbidos seja o seu famigerado Carnapauxis (ressignificado a partir de 1997), o que de fato torna essa cidade única do ponto de vista cultural é a ainda presença marcante de seus casarios.
Tanto isso é fato que durante esses dias o Ministério da Cultura, dando prosseguimento ao processo de tombamento, homologou o tombamento do Forte Pauxis e dos resquícios da Fortaleza Gurjão (próximo passo será a inclusão desses dois bens no Livro do Tombo).
Mas estranhamento a isso, no dia de hoje, me surpreendeu uma discussão em um grupo de WhatsApp quanto à descaracterização de um imóvel no centro da cidade, para dar lugar a uma fachada “mais moderna”. “A cidade do já teve”!
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Se por um lado a cidade ganha reconhecimento nacional quanto ao processo de tombamento de tais bens (sendo um deles a única construção pós-período regencial a se manter de pé no Brasil), por outro, não avança na conscientização da preservação de sua história por parte de seus moradores e na efetivação concreta no que diz respeito ao processo de tombamento municipal.
Sim, Óbidos tem legislação própria quanto a issomas, infelizmente, esbarra num processo moroso de garantir em lei a preservação arquitetônica de sua própria história (vale lembrar a celeuma que foi a derrubada dos resquícios da casa da Bacuri).
A Lei nº 3.753, de 20 de julho de 2009, que “dispõe sobre o processo de tombamento e dá outras providências” atribui ao gestor municipal, ouvido o Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural e Artístico de Óbidos, decidir sobre os atos de tombamento.
Logo, cai por terra a fala de que a prefeitura não pode tombar seus bens públicos ou bens privados (conforme estabelecido na lei). Mas se há uma lei municipal, se há também um Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural e Artístico de Óbidos por que tantos prédios estão sendo descaracterizados? E outros, “tombados” no sentido negativo da palavra?
Não! Esse texto não tem por objetivo tomar partido político. Mas falando em política (ou politicagem), o atual gestor disse em bom tom que durante seu mandato nenhum prédio histórico seria demolido em Óbidos.
Quase um ano de mandato e o que vemos é a repetição de notícias passadas que não se tornaram realidade ainda. Nosso maior símbolo arquitetônico – Forte Pauxis – abandonado. Morrendo física e historicamente.
É preciso fazer valer a lei existente. É preciso também que as organizações culturais constituídas assumam seu papel de representantes culturais perante a sociedade no que diz respeito à educação patrimonial.
Se do contrário nada for feito, chegará o dia em que diremos que Óbidos um dia teve o título de cidade mais portuguesa da Amazônia.
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* É servidor público federal em Óbidos e ativista cultural. Escreve regularmente neste portal
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A frase que mais representa Óbidos é essa que a Marlene Soares disse, “Óbidos parou no tempo”, não sei por mais quanto tempo Óbidos e seu patrimônio Histórico irão resistir, desde que me entendo por gente, Óbidos vive essa situação estática, nunca vai pra frente, algumas vezes até regride, reafirmando aquela antiga frase de cidade do “já teve”, as vezes a esperança chega a existir, com a eleição de gente de boa índole, mas quando a gente se dá conta, algumas atitudes acabam por se assemelhar aos gestores de sempre, mas é assim mesmo infelizmente, o atual gestor ainda tem três anos pra mostrar a que veio, enfim, a esperança nunca morre de ver Óbidos tão importante economicamente como foi no passado, culturalmente é inegável sua importância, porém, hoje Óbidos não lembra nem de longe o que foi um dia…
CONCORDO COM A PRESERVAÇÃO, MAS, TAMBEM TEMOS QUE OLHAR PRA FRENTE, PARA O FUTURO,NÃO DEVEMOS RENEGAR A MODERNIZAÇÃO DE UMA CIDADE QUE TEM SEU HISTÓRICO COM POUCA OU QUASE NENHUMA PRESERVAÇÃO DO SEU ACERVO ARQUITETÔNICO. AS CIDADES TEM QUE CRESCEREM E ACOMPANHAR A MODERNIZAÇÃO A ATUALIZAÇÃO QUE É PARA FIXAR O SEU FILHO NATIVO.
Sorte do companheiro servidor público FEDERAL, que com seu salário em dias, consegue escrever e pensar nos casarios que marcam uma época da história da ocupação da Amazônia, com sinais lusos muito presentes. Debruçar na janela do presente, contemplando o passado , sem poder escrever seu presente, é viajar sem rumo como as caravelas portuguesas. O saudosismo não me parece parâmetros para balizar uma sociedade que precisa evoluir. Óbidos parou no tempo infelizmente. Contempla uma cultura de poucos e a maioria vive a margem dessa linguagem . Não se pode comparar casarios com Carnaval, muito menos diminuir uma perante a outra. A identificação de uma cultura são um conjunto de tradições e costumes que somados formam a história de um povo. Antigamente nas missas da matriz de Santana que bonitos véus e lindos leques usavam as senhoras, uma cultura que sumiu. Pergunto. Uma central de ar não é melhor e mas democrático?
É muito bom falar de cultura , se preocupar com casarios, mas efetivamente o que fazemos além da preocupação. Acusar gestores? Como os únicos responsáveis. A ACOB precisa ser povo, o que nasce elitizada, contra censo da cultura, jamais será guardiã de quaisquer cultura. Até porque cultura não se impõe se vive e compartilha. Os clãs culturais sempre falarão sozinhos e buscarão culpados por tudo. É claro, Costa mas larga que de gestor, só do próximo a assumir. Existe uma distância imensa entre os discursos culturais dos imortais e suas práticas. Adoram as maravilhas da modernidade, moram em casas modernas e adaptadas as novas tecnologias e pregam há outros que o passado e o desconforto é bom, porque é cultura. Vamos repensar culturalmente Óbidos. Saga portuguesa.
Muito boa sua reflexão. Mas não entendo preservação como saudosismo. Creio que Óbidos poderia ganhar muito com uma politica de educação patrimonial (pelo menos dos prédios públicos que se encontram praticamente abandonados). Creio também que levantar discussões como está em saites e redes sociais já é algo concreto sim, pois desperta para um pensamento de reflexão. E como você vamos (re)pensar culturalmente Óbidos, sim!
Senhor:
Concordo com seu pronunciamento
Apenas quero dizer que a culpa náo pode ser generalizada.: A ACOB – Associaçáo Cultural Obidense, fundada há 34 anos, gastou sua voz e ardoroso empenho por esse patrimônio. A resposta a toda essa luta foi de que “VELHAS RETRÓGRADAS NÃO QUERIAM O PROGRESSO DE ÓBIDOS” .
Nos arquivos da ACOB está o registro da nossa luta…
Espero que a voz de V.S. ecoe mais alto nos gabinetes governamentais e Instituiçoes responsáveis conosco pelo Património Histórico infelizmente agonizante em Óbidos.
Ao dispor para detalhes desta mensagem de protesto também.
Idaliana Azevedo.