Terra Querida

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por Vicente Malheiros da Fonseca (*)

Vicente Malheiros da FonsecaO artigo é uma breve homenagem a Santarém, pelo transcurso de seus 355 anos de fundação.

O portal G1 (Santarém e região) promove, neste mês de junho, interessantes enquetes interativas com o objetivo de consultar o internauta sobre três temas, no ensejo em que a cidade de Santarém, no Estado do Pará, completa 355 anos de fundação, no dia 22 de junho de 2016: “Qual música melhor representa Santarém”; “Qual comida melhor lembra Santarém”; e “Qual seu lugar preferido na cidade”.

Escrevo esta crônica na manhã de domingo (19 de junho), antes de saber o resultado final das enquetes.

O tópico sobre os alimentos santarenos é de dar água na boca: bolinho de piracuí, doce de cupuaçu, tacacá e tambaqui assado. Até o momento, ganha o tambaqui assado (que delícia!).

Os pontos turísticos são maravilhosos: Alter do Chão, Orla da cidade, Praça do Mirante, Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Encontro das águas. Este último é o preferido, até agora, dos que se manifestaram.

Realmente, o belíssimo cenário do encontro dos dois rios que banham a nossa cidade (Amazonas e Tapajós), fonte de inspiração para músicos e poetas, é maravilhoso!

Na enquete sobre a música, concorrem ‘Nada se compara’, de Jana Figarela; ‘Dança na mata’, de Beto Paixão; ‘Canção de minha saudade’, de Wilson Fonseca; ‘Um poema de amor’, de Wilson Fonseca; e ‘Terra querida’, de Wilson Fonseca.

Até o momento, a música favorita é a linda canção “Terra Querida”, de autoria (letra e música) de meu saudoso pai Wilson Fonseca (Maestro Isoca), que compôs inúmeras obras musicais em homenagem à nossa cidade, além do “Hino de Santarém” (1941-1948, oficializado em 1971) que tem letra de Paulo Rodrigues dos Santos. Faltou consignar que a “Canção de Minha Saudade” (1949) possui letra de Wilmar Fonseca, meu tio.

Todas as cinco músicas concorrentes são belas obras.

Certamente a intenção da pesquisa, que se baseia em ampla consulta popular, tem o propósito de valorizar temas que denotam importantes características da “Pérola do Tapajós”: a sua música, a sua culinária e os seus pontos turísticos.

Falarei um pouco sobre música, dada a minha aproximação com o tema.

No meu livro “A Vida e a Obra de Wilson Fonseca (Maestro Isoca)”, em homenagem ao centenário de nascimento do compositor santareno (2012), ao fazer comentários sobre a canção “Terra Querida”, assim me pronunciei:

Uma vez mais, o compositor revela o seu amor pela terra querida, o tempero necessário do sabor santareno, tão determinante na música telúrica de Isoca. O compositor explica que “Santarém deve ser uma das raras cidades interioranas do Brasil que se podem orgulhar de possuir música própria, com características peculiares e definidas. Não sabemos com precisão até que ponto o sortilégio da velha ‘Aldeia dos Tapajós’, as belezas que nos cercam, são responsáveis pela inspiração dos nossos poetas e compositores. Mas é inegável que o ambiente exuberante, com uma paisagem privilegiada em que se entrechocam, num combate eterno, dois portentosos rios, vem exercendo muita influência sobre o espírito dos musicistas locais; são numerosas as canções que enaltecem a gleba mocoronga, seus atrativos e singularidades” (artigo escrito por Wilson Fonseca, “A Nossa Música”, no Programa da Festa da Conceição de 1968, transcrito na Apresentação do livro “Santarém Cantando”, publicado pela Imprensa Oficial do Estado do Pará, em 1974, sob os auspícios do Governador Fernando Guilhon).

No artigo “A canção amazônica de Isoca”, o jornalista Luís Nassif acentua que Wilson Fonseca “é autor de obra vastíssima, algumas canções clássicas e uma enorme prole de filhos e netos que prosseguem a tradição local. Suas músicas lembram Waldemar Henrique, os botos e as lendas da selva. (…) Morreu há dois meses [na verdade, o compositor faleceu em 24.03.2002, com 89 anos], provavelmente não teve nem um registro sequer nos jornais dos centros maiores. Mas a tradição que deixou em Santarém, as sementes que plantou e frutificou, são um caso único na história musical do país” (Jornal “A Folha de São Paulo”, caderno Dinheiro, edição de 28.07.2002).

Waldemar Henrique elogia o compositor santareno, ao reconhecer que Isoca produziu “uma obra perdurável, sempre original e sugestiva, impregnada de sadio regionalismo, onde a inventiva melódica pontifica sem comprometer a nítida tendência instrumental de um compositor autêntico” (Parecer nº 02/77, da Câmara de Letras e Artes, do Conselho Estadual de Cultura, que opinou pela publicação da Obra Musical de WF, em 28.07.1977).

A alma do poeta-cantor nos deixa extasiados, diante da linda canção e do belo encontro das águas que se descortina em frente à cidade: “Vi em sonhos encantados/Teus eternos namorados/Amazonas, Tapajós/Pararelos no caminho,/Disputando o teu carinho/Numa luta tão feroz…”. Não se trata de um simples acidente geográfico. É a declaração de amor pela terra querida, de tanta riqueza que Deus lhe deu, enfeitando a natureza, que inspira o uirapuru-mor, nesse desfile de recordações e saudades.
(…)

Reporto-me aos comentários no capítulo sobre o CD “Sinfonia Amazônica” (vol. 2), gravado pela Orquestra Jovem “Maestro Wilson Fonseca”.
A belíssima “Terra Querida” (1961) – letra e música de Wilson Fonseca – é uma espécie de “continuação” da “Canção de Minha Saudade” (1949), que tem letra de Wilmar Fonseca, irmão de Isoca.

De fato, o texto poético da “Canção de Minha Saudade” descreve diversos lugares pitorescos de Santarém. E o compositor Wilson Fonseca, então, resolveu “completar” esse clima, cantando as belezas naturais da “Pérola do Tapajós” ao compor a “Terra Querida” doze anos depois, conforme ele próprio nos contava. Portanto, são músicas irmãs gêmeas siamesas.

Tanto quanto a “Canção de Minha Saudade”, a “Terra Querida” é um dos clássicos do cancioneiro santareno, peças muito conhecidas dos “mocorongos”, que costumam cantá-las sempre com muita emoção.

Uma feliz coincidência: a canção “Terra Querida” foi composta em 1961, ano em que Santarém completava 300 anos de sua fundação, em 22 de junho de 1661, data, aliás, estabelecida como resultado de exaustivas pesquisas realizadas por Wilson Fonseca, conforme registros em seu livro “Meu Baú Mocorongo”. Portanto, há 55 anos.

Cá pra nós, não há quem resista um tambaqui assado, às margens do rio Tapajós e ao som da “Terra Querida”…

Fiquemos com o inspirado texto poético da canção “Terra Querida”, para a qual escrevi um arranjo destinado a Banda Sinfônica, quando a obra musical completava o seu jubileu de ouro (2011), ainda inédito:

TERRA QUERIDA
(Canção)
Letra e música de Wilson Fonseca (1961)

Minha terra tão querida,
Meu encanto, minha vida,
Santarém do meu amor,
Deus te deu tanto riqueza,
Enfeitando a natureza
Que inspira o teu cantor.
Que saudade a gente sente
Quando está da terra ausente!…
Dá vontade de chorar…
Vê-se o rio cristalino,
“Rocha Negra” e “Diamantino”
Desfilando no pensar!…

Quando à noite a lua cheia
Vem brilhar na branca areia
Da formosa “Salvação”,
O cantor faz serenata,
Entre o rio e a verde mata,
Ponteando o violão!…
E se a noite está serena
Vai cantando até a “Lorena”,
Que saudade isto me traz!…
Recordando os teus encantos
Dos meus olhos correm prantos.
Recordar é sofrer mais.

Vi em sonhos encantados
Teus eternos namorados:
Amazonas, Tapajós.
Paralelos no caminho
Disputando o teu carinho
Numa luta tão feroz.
“Ponta Negra” entre os dois rios
Tem suaves amavios
Que eu recordo a soluçar…
Santarém fica defronte,
E as catraias formam ponte
Que ao “Trapiche” vai chegar!…

Ouça a gravação da música no CD “Sinfonia Amazônica” (volume 2), interpretada pelo cantor Francisco Campos, acompanhado pela Orquestra Jovem “Maestro Wilson Fonseca”, de Santarém (PA), sob a regência do Maestro José Agostinho da Fonseca Neto (Tinho):

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* Santareno, é desembargador federal do trabalho, músico e compositor. Reside em Belém.


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2 Responses to Terra Querida

  • Emocionante! Ouvir o Sr. Isoca tocando… ouvir cantada… letra e musica perfeita. Deixa qualquer pessoa encantada e se for santareno… emocionado! Lindo!

  • Sem sombra de dúvidas, TERRA QUERIDA é a música que melhor representa Santarém.
    Já dei meu voto favorável a essa maravilhosa composição.

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