urubus em Santarém

Urubus em meio a lixo na avenida Tapajós, em Santarém

por Helvecio Santos (*)

Sobre “Visitar a imunda Santarém e outras aventuras em um dos lugares mais sujos do mundo (Alter do Chão)”.

Senhor Jeferson Matos Cardoso, prazer em conhecê-lo!

É uma satisfação muito grande saber que pelo menos mais um santareno comunga dessa indignação. Surpreendo-me sempre ao perceber que poderíamos ter um dos lugares mais paradisíacos do mundo e que, por obra e graça de todos, temos hoje um município que pouco a pouco se aproxima de um grande lixão.

Li com atenção seu supra citado texto neste blog e fiquei feliz ao perceber que a sua indignação também é a minha.

Desde muito escrevo artigos – antes no Gazeta de Santarém e no Blog do Jeso e hoje somente no Blog – e minha tristeza é perceber que ninguém se indigna ou se solidariza. Parece que todos estão satisfeitos.

Pasme! A mesma cara de paisagem que algumas pessoas fizeram e até demonstração de mau gosto pela exposição do mal feito à nossa cidade pelo senhor, também já sofri, mas não me importo.

O seu texto é cirúrgico e extremamente pertinente e nossa cidade, por todos os ângulos que se analise, é um corpo dilacerado.

Certa vez disse a uma amiga santarena que no lugar do Terminal da Cargill poderíamos ter construído um borboletário, haja vista sermos o segundo destino fluvial de navios de turismo e a fartura de espécies aí existentes.

Na oportunidade, citei ainda que o terminal destruiu um cemitério indígena. Ela, com desdém, respondeu: “Ora! O que é um cemitério indígena?”.

Não sei por qual lógica ela analisava minha colocação, mas hoje comemos poeira e pó de soja sentados num bosque que não tem árvores e que ao invés de bosque, pela manilha de esgoto que ali desemboca, pela sujeira que lá existe apodrecendo as plantas aquáticas, mais adequado seria se chamar bosta Vera Paz.

Os barcos em frente à cidade são um verdadeiro bairro flutuante. Da última vez que aí estive contei mais de 200 barcos amarrados no cais. Se pensar numa média de 50 pessoas por barco, o que é uma média por baixo, não é exagerado considerar que há um bairro flutuante com aproximadamente 10 mil pessoas dia e noite despejando todo tipo de esgoto no Tapajós.

Observando a ilha na foz do Tapajós que cresce dia a dia e o despejo de esgoto tanto da cidade quanto dos barcos, um dia a expressão “estar na fossa” não será dor de cotovelo mas, literalmente.

Certa vez um turista prestava atenção ao barulho de água que vinha de um buraco na rua do Comércio com travessa 15 de Agosto e eu, constrangido, prestava atenção à cena. Lá pelas tantas ele perguntou se era um rio subterrâneo que por ali passava e eu disse que não, era esgoto mesmo. Ele se afastou com cara de nojo.

É a única cidade que conheço onde urubu é atropelado por carros e até um urubuzeiro se forma ao cair da tarde em uma árvore muito grande no final da Silva Jardim.

Como é comum algumas cidades terem uma ave como símbolo, pela profusão de urubus que convivem em tão “agradável” pedaço da natureza, Santarém poderia adotar o urubu como símbolo.

E o que é mais impressionante é que os mesmos santarenos que cantam “Minha terra tão querida” são os mesmos que jogam restos de comida ao lado das barracas no cais do porto (isso não é orla) e espinhas de peixe nas praias de Alter do Chão, razão de moscas e formigas ali proliferarem.

Santarém carece de banheiro público e os raros existentes não é um bom negócio usá-los. Exemplo? Veja-se o banheiro do Terminal Fluvial. Um horror!!!!

Em Alter do Chão, nem pensar. A atendente de qualquer barraca irá sugerir, “aliii”, espichando o beiço, o que significa um matinho qualquer perto da barraca. Como opção, dirá que a solução é a água mesmo.

E a poluição sonora das barracas? Também é um tipo de sujeira. É a Joelma gemendo em altíssimo volume, num lugar onde deveria ser o altar da natureza.

Aliás, o que mais salta aos olhos da observação da fotografia que estampa a matéria no blog é que de um lado a cor da areia é visivelmente mais escura que do outro lado. Por que será? E a água que escorre do lado de cá é um riacho ou é um esgoto?

Da última vez que estive em Santarém contei 32 lixeiras no cais. Dessas vinte estavam vandalizadas, oito cheias e quatro quase transbordando.

Mas, Jeferson, permita que eu lhe trate assim. Acostume-se! Há mais de 10 anos que bato nessa mesma tecla e não tenho retorno.

No último Plano Municipal de Desenvolvimento, o secretário pedia sugestões e, pelo blog, mandei sugestões ao secretário. Até agora nada aconteceu.

E é possível que alguém venha dizer: um mora no Rio e o outro em Curitiba, o que eles têm a ver com Santarém?

Acontece que saímos de Santarém, mas Santarém não sai de dentro de nós. Recentemente estive em Porto Alegre e encontrei amigos, entre estes alguns santarenos e fizemos o que sempre fazemos. Falamos de Santarém, rimos com as histórias de Santarém, cantamos a música santarena, enfim, tomamos um banho de santarenidade.

Amamos uma Santarém que já não existe. Onde está o Castelo? E escadaria do Frei Ambrósio? E o cine Olímpia? E as praias em frente à cidade? E o Irurá? E o Mararu?

Alguns ignorantes dirão que o progresso pede passagem e eu digo, só como exemplo: Por que o rio Sena conserva todas as pontes de todos os tempos? E o que dizer de Alhambra, em Granada? Ou o progresso que bate lá não é o progresso que bate em Santarém?

Um povo sem passado, sem história, não é povo.

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* É advogado e economista, ex-zagueiro do São Francisco. Reside no Rio de Janeiro e escreve regularmente neste portal.

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A mentira, o grande golpe e os privilégios.

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11 Comentários em: Santarém dos urubus, da espinha de peixe na praia… um lixão, por Helvecio Santos

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  • JOSÉ QUEIROZ disse:

    AMAR SANTARÉM É UMA COISA, MAS FECHAR OS OLHOS PARA A REALIDADE É PURA BESTEIRA. OLHA A ORLA TOTALMENTE ABANDONADA, UMA IMUNDICE, AS NOSSAS RUAS TOTALMENTE ESBURACADAS, O CENTRO COMERCIAL ABANDONADO, A FALTA DE ESGOTO POLUINDO O TAPAJÓS ETC ….. A QUEM RECORRER?????

  • Carlos golobovante disse:

    Reconheço que o descaso é muito grande com a nossa Santarém, comparo santarem como uma morena bonita, mas que precisa de um bom trato.

  • Gervásio - Brasília - DF disse:

    Um dos melhores textos a respeito de Santarém. É a realidade nua e crua. meu caro Helvécio um dia a muito tempo escrevi um texto abordando essa temática. também moro a trinta anos em Brasília, saí de santarém mas santarém não saiu de mim! recomendo aos amigos conhecerem santarém mas me envergonho como nossa terrinha é tratada. Esgoto a céu aberto, urubus, mercado mal cheiroso, lixo por toda parte, pessoal que atende nas barracas de alter do chão mal educado. Não vejo como só quem mora fora de santarém possa ver isso. Não concordo que a solução seja obrigação de quem mora fora saímos de nossa terra foi com o intuito de buscar aquilo que não nos era oferecido. Acostumamos com outras realidades, sim! claro! É por isso que dá uma tristeza quando vejo que a cidade foi privilegiada pelas belas formas da natureza mas não é cuidada com o real zelo e carinho que merece. Enquanto , isso! atire a primeira espinha…….
    Deixei de postar comentários. aqui, quando alguém da mesma forma me fez esse
    comentário. vc tá fora de stm portanto, não pode palpitar… ..

  • Glauco disse:

    Vou ali em Alter dá um mergulho e volto!

  • Alice disse:

    Um pouco ao contrário do Edibal, eu aceito críticas, e quando construtivas são okay. Elas podem ser mto úteis, eu reconheço!
    Entretanto, apontar o errado, falar que é um lixão: É fácil!
    Fazer um texto sobre a calamidade de santarém, alter do chão, rio de janeiro, brasil, etc, a maioria das pessoas tem potencial p isso! E fazem, tem inúmeros na net.
    Até mesmo para quem ”já se acostumou” dizer os problemas é simples.
    Como comentei no ”post da latrina”: a internet já está sobrecarregada de artigos, posts, compartilhamentos, likes, comentários (tipo o meu) de pessoas que apenas sabem apontar o erro. Criticar. Claro, é mais simples!
    Eu aprecio a inteligência de quem vê o erro! De quem sabe dos problemas! A solução (ou não) pode começar a partir daí.
    Contudo, apontar e não fazer nada, apontar apenas para ”lacrar”, porém não buscar alterar o cenário: é a opção mais fácil e comum, ou seja, da maioria dos ”defensores” (NA internet) de alguma coisa. NA internet.

  • Anderson Sousa disse:

    Realmente , pelo menos em santarém não temos níveis alarmante de violência, até o momento não foi necessário intervenção militar em nosso município. Podemos fazer uma caminhada tranquila na orla, sem aquele medo de alguém lhe assaltar. Além de termos o privilegio de terminamos o expediente e irmos curtir uma bela praia a poucos km da cidade, livre de congestionamento e um mero detalhe e não menos importante, banho em praia de agua doce. Sem contar que as praias do rio de janeiro, são mais sujas que a nossa, lá existem arrastões e por mais que seja uma paisagem bonita, você fica com medo de em algum momento alguém lhe abordar e ser assaltado. A lagoa Rodrigo de Freitas consegue ser mais poluída que o lago do Juá. Más á quem diga que prefere morar la, Porém estatisticamente 56% dos moradores da cidade maravilhosa querem sair de lá. Lembrando daquele velho ditado ; ´´o Gramado do vizinho e sempre mais bonito que o nosso´´, por isso que sou feliz morando em Santarém, não existe lugar melhor no Brasil, viajamos sim , mas não tem coisa melhor que voltar pra Santarém e termos nossa tranquilidade de volta. Segue relato de Mariliz Pereira Jorge. Essa visão de que o Rio é o melhor lugar do mundo para se viver é um tanto provinciana e romântica, além de cega, de uma maioria que mora e trabalha na zona sul – e parte da zona oeste– e só de vez em quando tem o doce cotidiano chacoalhado pela violência que atravessa o túnel Rebouças. Gente que vive numa bolha, que eventualmente estoura num assalto com morte.
    Prefiro minha Santarém do lixão, dos urubus e da espinha de peixe, do que viver em um lugar que é uma bomba relógio prestes a estourar.

    Relato de um cidadão santareno, que não aceita de forma alguma que falem mal da sua terra
    Anderson Sousa.

    1. Fernando Pinto - Servidor do Público disse:

      Realmente o conterrâneo José Edibal Cabral tem muita razão, ” é muito fácil ficar só criticando “, ainda bem que um dos Santarenos mais ilustre e Jornalista mais admirado no Brasil ” Lúcio Flávio Pinto” nunca teve a audácia, a leviandade e a infelicidade de falar muito mal de sua Terra Natal . Sugiro que os Senhores Helvecio Santos do Rio de Janeiro e Jeferson Matos Cardoso de Curitiba, voltem para a Nossa Amada Santarém e nos ajudem a cuidar melhor de Nossa Pérola do Tapajós . Belém do Pará tem suas mazelas e problemas, Rio de Janeiro tem suas mazelas, problemas e sofrimentos, São Paulo também, Manaus também, Brasília a Capital Federal também tem muitas mazelas,problemas, descasos e muita corrupção. Com todo respeito a esses dois senhores que são filhos de Santarém, rogo-lhes que deixem de avacalhar e falar muito mal de Nossa Pérola do Tapajós .

  • Jose Edibal Cabral disse:

    É muito fácil criticar, Olhem ao redor de suas vidas e critique seu comportamento egoísta. Não permito que ninguém fale mal de Santarém. Morei muito tempo fora de minha querida Santarém, quando cheguei aqui de volta faço tudo para contribuir para melhoria de minha cidade, tudo….sou extremamente apaixonado pelo meu torrão e quando ouço alguém criticar minha cidade sempre devolvo a critica com uma pergunta; o que você está fazendo aqui? Qual a sua sugestão para melhorar? Como você pode contribuir? Colegas Santarenos do outro lado, da margem, quando visitarem outra vez nossa Santarém traga pelo menos 01 lixeira e coloque na frente de sua casa como demonstração de seu apego pela cidade.

    1. Manoel Gregório disse:

      Comentário tão fedido quanto ao atribuído a Santarém.

    2. paulo disse:

      Não aceita críticas? Tu achas que mora onde? Suécia, Noruega, Canadá.
      Texto perfeito. E dizer que faz que isso que aquilo é fácil. . Se fizesse algo, talvez ele não precisasse mostrar essa porcaria toda.

  • Jeferson disse:

    Prezado Helvécio,
    Existe um problema mais sério por debaixo de tudo isso. Estamos vendo apenas a estrutura superficial. A nível de estrutura profunda, a coisa é mais complicada. Não existe aprendizado sem repetição. Observar uma paisagem e se acostumar com ela, pois que ela é repetitiva, é também uma forma de aprendizado/internalização. Suponho que exista, na cidade, uma “internalização” de uma paisagem imunda e fedida. O cérebro já se acostumou com essa imagem/odor e a lê como se fosse algo normal e aceitável. É a única forma que eu vejo para explicar o tamanho do “conformismo” com uma situação tão execrável.