Foto: Tamara Saré/Agência Pará

O boto Tucuxi no sairódromo. Ano: 2011
Professor doutor da UFOPA, Anselmo Colares faz algumas observações sobre a Festa do Sairé, cujo encerramento ocorre hoje (19):
Prezado Jeso,
Assisti no sábado as apresentações dos grupos folclóricos que impulsionaram o novo Sairé (inicialmente com Ç) e fiquei entusiasmado com o que vi, mas também surpreso com algumas “informações de bastidores” que tomei conhecimento. E olhe que nem estava buscando saber nada. Por isso até te peço (e aos leitores) que relevem algumas imprecisões e exageros, e quem sabe, possam até prestar a informação correta.
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1º) Fiquei muitos anos fora de Santarém, e não acompanhei a “evolução” do Sairé (me refiro aos botos), mas sempre lia a respeito e passei a formular uma idéia de que teria atingido um grau de crescimento tão grande capaz de empolgar a nativos e turistas, tanto quanto outras manifestações pelo mundo afora. Anteontem constatei que essa parte é verdade.
Mas o que estranhei foi o fato de que as apresentações dos botos não ocupam o lugar central, ou seja, são (ou se deixam ser) tratados como clubes que fazem as partidas preliminares. E isto significa que a arrecadação principal vai (toda ou quase toda) para aqueles que fazem a chamada “partida de fundo”, ou a apresentação principal. Nisto reside minha primeira grande estranheza, e pergunto: ainda há necessidade dessas atrações principais? Não seriam os próprios botos a ocupar este lugar?
Pelo que vi, entendo que eles já possuem maturidade para ocupar este posto. Se um dos objetivos é atrair turistas, a pergunta é: turista vem para assistir apresentação de músicas que estão em todos os lugares, ou ele quer conhecer algo novo? Faz sentido pagar para estes grupos de fora praticamente tudo o que se arrecada com a venda dos ingressos, enquanto que “os botos ficam a ver navios?”
2) As cores não expressam necessariamente os “valores”. E aqui me refiro a valor moral e financeiro. Há um trânsito considerável entre as agremiações, não há muita “fidelidade” entre os componentes. Desentendimentos amorosos são uma forte causa de deserção, de passagem de membros de um boto para outro. Mas também há a “compra do passe”, ou melhor, dos “passes”, um tanto quanto ocorre em outras esferas da vida social, onde prevalece o desejo pelo vil metal.
Sei até que eu não devia ficar surpreso com isso, mas esperava que fosse menor a ocorrência. Descobri também que nesta guerra vale também importar personagens (como o pajé que veio de um dos bois de Parintins) e até uma “ala” inteira importada de uma das tribos (grupo de dança) de Óbidos, e por ai vai.
Tem também presidente de boto que de forma antidemocrática decide quem ocupa destaque ou deixa de ocupar este posto, independente do fato do brincante ser o mais preparado, simplesmente porque falou ou fez algo que o tal presidente não gostou. Novamente sei que esta minha estranheza pode ser ingênua, pois, afinal, os botos já foram completamente absorvidos pela estrutura capitalista. São produtos de venda, e de compra. Todavia, não esperava que, em poucos anos, já fosse tão intenso esse comércio interno.
Há algumas outras questões de bastidores que prefiro deixá-las para comentar em outra ocasião, a partir de um maior conhecimento, e, quem sabe, com os complementos gerados por esta nota. Por isso, fico por aqui.
é salutar, ainda que doa, capitalizar os botos. Não adianta ficar a modorrenta e tribal tradição para sempre. É preciso artifício, é preciso “enxame”, é preciso rojões e magia. É natural e positiva a estrada que Tucuxi e Cor-de-Rosa estão trilhando, pois é isso que o turista quer ver: O brilho.
E tem que pagar mais pra tirar o coreógrafo, ou o dançarino do outro boto. Se um time compra um jogador para ganhar um campeonato, por qual a razão não poderíamos fazer isso aqui?!
Quanto aos shows nacionais, garanto que sem eles o sairé perderia a “graça”, pois a juventude santarena – sim, estou me incluindo – não se interessa pela dança folclórica, mas sim pela folia. Afinal, não dá nem pra “tirar uma onda” vendo o boto conquistar a morena.
Quando comentei com uma pessoa (daqui de Santarém mesmo) a respeito de os comunitários quererem separar os botos do Sairé, ela perguntou, espantada: mas o Sairé não é isso, a apresentação dos botos?
Muitos outros devem pensar como ela, o que pode significar que a manifestação religiosa está sendo esquecida ou até mesmo nem é conhecida pelos próprios santarenos. Vide também o espaço que é dado para os atos religiosos do Sairé na praça do Sairódromo. Bem pequeno se comparado às demais atrações…
É tempo de a comunidade repensar o caminho que quer seguir, já que a festa dos botos traz retorno turístico/financeiro para a Vila de Alter do Chão. Não há um meio termo entre o religioso e o profano? Entre o cultural e o financeiro?
Sugiro também que, para o Sairé de 2012 hoje deva ser o dia 1, ou seja, o momento de avaliar o que de certo e de errado foi feito, quais as mudanças necessárias e o que deve permanecer, para a próxima festa. É impensável deixar para falar de Sairé apenas quando setembro chegar.
Senhores, duas doisas são certas, uma, é que quem está no sairódromo para vêr a apresentação dos botos são pessoas de ‘fora’ ou mais idosas, duas comparemos o fluxo de pessoas dentro e fora do sairódromo nos momentos de apresentação dos botots e depois nos shows.
Sem dúvida nenhuma os botos são acessórios à festa.
Os botos são e serão sempre uma cópia do boi de Paritins, sem claro, seu glamour e organização.
Eu estive na sexta, já cheguei tarde com um amigo, e veja só, como sempre a apresentação dos botos estavam atrasadas, pois bem, como não há nada a fazer, entramos para assistir a ultima apresentação antes do show, e, meus amigos, que coisa horrível, que coisa sem organização, que coisa ‘esculhambada’.
Fiquei lembrando que fui por 2 vezes a Alter nos dias que antecederam o Sairé e ainda haviam uns gatos pingados trabalhando nas alegorias, alegorias estas que são identicas ao do ano passado só com novo papel e esponja, ou seja, a idéia é sempre a mesma, escultura que é passáro, será sempre passáro, uma ano é papagaio no outro é pipira…
A diferença entre as duas apresentações (boto e show) é tão grande que o apresentador oficial do sairódromo repetiu várias vezes que a saída de quem assistia o botos era outra para não atrapalhar a entrada de quem queria assistir ao show.
Na minha opinião quem vai ao Sairé, não vai por conta dos botos, vai por causa da praia e da festa, da folia.
A gente paga R$ 50,00 para vêr o boi de Paritins, R$ 90,00 para vêr a seleção, mas R$ 20 para o boto é sacanagem…
Como diria o Jeso: “pergunta que não quer calar…” – Pelo amor de Deus, me digam onde cada boto ‘enfiou” R$ 180 mil de patrocínio????
180????…..foi mt mais…..220 mil cada boto….cerpa, prefeitura e governo do estado…..e outra coisa k vc não sabe alem dos botos cleuton e marlisson faturam usando o sairé…..cd o ministério publico…….???????
Ja que se está importando tudo de Parintins, porque não se importa tambem a organização de lá? inclusive trazendo tb atração de fora mas, para uma festa dos visitantes e a aração principal seja realmente dos “botos” na sua noite de gala (sabado) e em seguida ao termino a prefeitura ou os organizadores ou ainda quem estiver interessado, montem palcos em varios pontos da vila e façam festas ate o sol raiar, que tal a ideia?
De tanga e camiseta quem arrazou na rua em frente a praia de Alter foi o Jeso Jr.
sou mais o CELIVALDO todo de branco com chapéu PANAMÁ..
bem observado!!!
Caro primo Anselmo…
Sobre Sairé (com S ou Ç) já escrevi não um, mas ao menos três textos.
Na verdade existe Sairé e Sairés (sem contar o Çairé). Apesar de muito estudada, debatida e também modificada, o fato é que o Sairé de hoje ainda está em “construção” (ou “re-construção”) se considerarmos o fato que a festa que voltou a ser realizada a partir de 1970 já não guardava mais o espírito original do Sairé e já contava, naquela época com acréscimos que depois também foram tirados ou modificados…
Os botos são um “ícone” incorporado à Festa. Como toda e qualquer incorporação trás consigo coisas boas e ruins. A questão gira em torno de como o poder público, a mídia, o comércio e a população como um todo estão interagindo para que as coisas ruins sejam superadas e as coisas boas sejam melhores aproveitadas nesta festa.
Isso talvez demore anos… Tantos quantos os Jesuítas demoraram em mesclarem a cultura musical e as danças dos índios com o caráter religioso da catequese missionária. Não foi fácil naquela época, não será fácil hoje…
Os botos estão aí, mas ainda não conseguiram se impor em uma cultura local que teima em “exportar” a cultura “de fora” do que trabalhar para “importar” a cultura aqui de dentro, ou, tirando essas conotações econômicas, teima em não fazer uma festa para os santarenos mostrarem o que são, mas puramente para se arrecadar o tão desejado dinheiro, que move o sistema capitalista em vigor…
O Sairé está subsistindo, enquanto alguém puder ganhar com este evento, muitas adaptações e enxertos serão acrescentados. Voltar atrás é bom caminho? Penso que não… O caminho agora está em se corrigir certas coisas, para que o futuro aponte um caminho certo… Agora é esperar o Sairé do ano que vem.
Muito feliz a abordagem acerca do Sairé encetada pelo Prof Colares.Concordo plenamente com o posicionamento sobre Botos sendo o complemento da festa religiosa que seria o Sairé.Segundo, trazer grupos que perambulam pelo Brasil não faz sentido, temos tantas danças regionais apresentadas por nativos que não há sentido de trazer grupos de outras regiões descaracterizando nossa festa eminentimente de pricípios indígenas, vamos incrementar as boas sugestões.Ouvi falar que os nativos de Alter do Chão estão pensando em desmembrar a festa religiosa do Sairé da apresentação dos botos,ora, como falei acima, a apresentação dos botos seria a parte profana da sagrada Sairé como existem as comemorações profanas às festas dos padroeiros( celebrados) BRASIL afora, sendo portanto tudo à mesma época.