-1
Nos tempos do estádio Elinaldo Barbosa. Por Helvecio Santos
Arquibancada do antigo Elinaldo Barbosa

Eu sou do tempo em que o Estádio Municipal Elinaldo Barbosa, de saudosa memória, não tinha alambrado e só tinha a arquibancada que dava fundos para a Escola São Francisco.

À direita, logo depois do portão de entrada, ficava a banca de refresco do inesquecível amigo, azulino de coração, alenquerense de nascença e santareno por adoção Bráulio Rodrigues da Mota ou, nas palavras do meu amigo Raimundo Gonçalves, em memorável artigo escrito no Gazeta de Santarém de 17 de outubro de 2009, Bráulio “Fi, fi, fi, fi, fiu! Oi, borracho….vai um refresco de mangarataia?”.

Helvecio Santos (*)

Depois vinham duas ou três barracas de venda de salgados e a seguir a arquibanca de uns vinte metros, em dois módulos, dividida ao meio por um espaço sem degraus que separava as torcidas.

Mais tarde, nesse espaço central foi construída uma escada que levava às cabines de rádio que ficavam num segundo andar da arquibancada.

Dali eram transmitidos os embates entre São Francisco, São Raimundo, América, Fluminense, Náutico, Flamengo, São Cristóvão, Norte, nas inconfundíveis e memoráveis vozes de Osmar Simões, Herbert Tadeu Matos, Eriberto Santos, Dario Tavares e outros, fazendo do radinho à pilha locomotiva a levar emoção aos verdes e quase sempre longínquos rincões amazônicos. 

 

As tardes de Elinaldo, para os aficionados do “nobre esporte bretão”, deslocava o eixo da terra. Era algo que beirava a santidade.

Que saudade! Do Bráulio, do “seu” Duca, da Caçula, do Eduardo “Roxinho”, do Félix “Leiteiro”, mas a vida é um livro cujas páginas não admitem voltar e ler novamente. 

O título deste artigo é “Nos Tempos de Elinaldo Barbosa” mas, por quanto marcaram aquela praça esportiva, bem poderia ser de Mindó, de Dedê, de Jó, de Moura, de Aluisio, de Mundinho, de Truíra, de Goitinho, de Inacinho, de Istemir, de Taro, de Getúlio, de Cecebuta, de Bigode, de Galo, de Edu, de Alvinho, de Balão ou mesmo de Anastácio Miranda, de Edson Pepeu, de Orlando Cota, de Cistóvam Sena, de Cristóvão Cruz mas, vejam, nomes compostos eram  exceção.     

Que belíssimo futebol se praticava em Santarém!

Embora nossa praça futebolística fosse precária, uma rala grama somente abundante nos quatro cantos da arena, esbanjávamos um futebol de altíssima categoria, um verdadeiro luxo, coisa de se assistir de joelhos, rezando e agradecendo.

Sem querer desmerecer os outros e por ser mais saudosista que a própria saudade, destaco as magistrais bicicletas do inesquecível Goitinho e as matadas no peito e lançamentos de cinquenta metros, em curva, do magistral Mindó, o qual nunca vi cometer uma falta.

 

Faço esse gostoso retorno a um passado maravilhoso que vi e vivi, como uma introdução do que vou comentar e que se integra e vem a reboque do tosco futebol que se pratica na nossa Pérola do Tapajós, na maioria feito por “babas” descartados dos times dos centros de maior expressão esportiva e que não está à altura, nem desse passado que lembro em rápidas pinceladas, nem da evolução da cidade.

Esse futebol que recordo com saudade era de uma Santarém de cinquenta mil habitantes e três bairros: Aldeia, Centro e Prainha. Hoje nossa cidade tem mais de trezentos mil habitantes e mais de trinta bairros. 

Ah! E aqui chego ao ponto que quero comentar.

Se o futebol deixa a desejar, o mesmo não se pode dizer dos pomposos nomes que os “craques” ostentam e se os nome alongaram, o futebol encolheu. Haja disposição para os profissionais que transmitem.  

Essa é a verdade!   

São tantos nomes extensos que dá pena. O profissionais dos meios radiofônicos estão sempre atrasados dois ou três lances.  

Querem saber do que falo? Vou fazer uma singela comparação.

Vi o Flamengo de 82 jogar: Raul; Leandro, Marinho, Mozer e Junior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico.

Para melhor compreensão do que falo, cito também o Santos da década de 1960 que lamento não ter visto: Gylmar; Lima (Carlos Alberto Torres),Mauro, Calvet e Dalmo; Zito e Dorval; Mengálvio (Clodoaldo), Coutinho (Toninho Guerreiro), Pelé e Pepe (Edu).

E tenho orgulho de dizer, joguei no São Francisco, meu LEÃO Azul santareno de 1968/1969/1970: Xabregas (Edmar); Guajará, Helvecio (Darinta), Dias (Maromba), Acari (Cuiu, Caipira, Cuca); Antonio Carlos (Valdo Bidala), Da Silva; Carlitinho (Edu); Jeremias, Cabecinha (Bimba, Arinos), Navarrinho. Mas isto era nos tempos de Elinaldo.

Hoje a coisa mudou. Querem exemplos? 

Aqui no Rio de Janeiro temos: Gatito Fernandez, Diego Cavalieri, Paulo Henrique Ganso, Tales Magno, Ygor Julião, Yago Felipe, Wellington Nem, Caio Paulista, Fernando Pacheco, Marcelo Benevenuto, Danilo Barcelos e outros mais.

À exemplo da vitrine do Sul do País, nos tempos de Colosso, na minha Santarém, o modismo também pegou.

No Tapajós Futebol Clube, único em atuação no momento, vejam só! Jogam ou já jogaram Thiago Costa, Bruno Monte Alegre, Luis Felipe, Fernando Almeida, Paulo Curuá, Ricardo Maranhão, Igor Gabriel e outros mais.

Nomes extensos e pomposos. E o futebol?

Fico pensando se com essa moda, vai que um filho da realeza brasileira resolve jogar futebol, heim?

Tipo assim, o Príncipe Imperai (pretendente), Bertrand Maria José Pio Januário Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orleans e Bragança e Wittelsbach.

Dá pra imaginar? Kkkkkkkk! Até eu cansei!

P.S.: dedico estes escritos ao Edu, amigo desde os tempos de moleque nas peladas na sombra das mangueiras da São Sebastião, companheiro de LEÃO, simplicidade no nome e no jeito de levar a vida e um imenso futebol. Sentirei saudades de nossas idas ao Colosso, da carona na volta e nossos papos nas tardes de Sorveteria Vista Alegre. Vá em paz, amigão!


— * É advogado e economista santareno residente no Rio de Janeiro. Esreve regularmente neste blog.

— LEIA também de Helvecio Santos: Mano Beco e o inesquecível ano de 1981

Nota do editor: textos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados no espaço "comentários" não refletem necessariamente o pensamento do Site Jeso Carneiro, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

2 Comentários em: Nos tempos do estádio Elinaldo Barbosa. Por Helvecio Santos

  • Você esqueceu do Botafogo, (ou porque as camisas são parecidas a do São Raimundo kkkk) de: Manga, Cacá. Zé Maria, Chicão, Nilton Santos, Garrincha, Didi,Quarentinha(China, Amoroso), Amarildo e Zagalo.

  • Tua cronica me levou direto a um estimado tio, Dr. Reinaldo Fernandes, que carente de companheiro para acompanhá-lo, sempre que chegava a Santarém, ele logo avisava, amanhã o São Francisco joga, vamos lá. Quantas tardes maravilhosas!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *