Mano Beco e o inesquecível ano de 1981. Por Helvecio Santos
Flamengo, campeão da Libertadores 2019

Desde pequenos nos parecíamos muito, a ponto de muitos pensarem que éramos gêmeos.

Essa semelhança nos aproximou além do trato de irmãos, me fez seu atento observador, foi meu mestre em algumas coisas e companheiro noutras tantas.

Helvecio Santos

Ele adorava dançar, adorava papear com amigos acompanhado de uma geladinha. Adorava a Portela, adorava ler e escrever mas, acima de tudo, adorava o seu Flamengo e com orgulho nos dias festivos e principalmente nos dias de jogo vestia seu “manto sagrado”.

Futebol para ele era o Flamengo e haja coração! E entre tantos eventos esportivos vividos com ele, nunca esqueci o dia 23 de novembro de 1981. De férias em Santarém, meu imortal “São Francisco Valente de Guerra” jogaria no Elinaldo Barbosa contra a Tuna Luso e para mim, era imperdível.

Combinamos a ida ao estádio e marcamos onde ele me pegaria. Depois de uma longa e angustiante espera, nada do meu irmão. Prestes a começar o jogo e decidido a não perder o espetáculo Azulino, passos apressados boto o pé na estrada e finalmente chego ao Elinaldo.

 

Logo à entrada vejo que no final da arquibancada do lado esquerdo de quem entra havia muitos lugares vazios e lá me acomodo. Nessa escolha pesou o fato de que era para onde o LEÃO atacava.

O jogo já havia começado e logo começo num senta, levanta, senta, levanta, um uhhhh desesperador, a bola nunca entrava e pior ninguém acompanhava o meu desespero.

Lá pelas tantas entra um grupo com camisas do Flamengo, tamborins à mão e um animado porta bandeira fazendo evoluções. Isso mesmo! Era meu irmão que “furara” comigo e dava ritmo e direção ao grupo. Por um momento a raiva subiu à minha cabeça, mas logo se voltou contra uns abusados que jogavam bagaço de laranja no grupo, e a raiva estourou quando um bagaço quase acerta meu irmão.

Botei o dedo na cara do “meliante” e já íamos às vias de fato quando, para minha salvação, meu amigo Dom Inácio – na minha opinião o jogador mais completo que Santarém gestou -, intercede, salvando-me de uma grossa surra, e só então notei que tradicionalmente ali era o lugar onde ficava a torcida do São Raimundo.

A pressa levou-me a sentar, de camisa azul, no meio dos “secadores”. Meu irmão percebendo o “buxixo”e me vendo envolvido, enrolou a bandeira e subiu à arquibancada para me prestar socorro o que, para minha sorte, Dom Inácio já havia feito.

Ele pediu desculpas e explicou que estava festejando o título da Libertadores da América “papado” pelo Mengão e como sabia que eu estaria no estádio foi direto para lá.

Naquele momento, como em outros, eu era a expressão viva da música do Paralamas do Sucesso: “às vezes te odeio por quase um segundo, depois te amo mais” e dizer te amo, no nosso caso, era pouco.

 

Meu irmão era assim! Vivia suas paixões tão intensamente que ele não convencia, ele contagiava. A paixão rubro negra do meu mano Beco era tanta que logo minha irmã Nilda foi contagiada e tempos depois, pelos dois, fui inoculado por esse vírus que a ciência não consegue explicação: a graça de ser rubro negro!

Neste 23 de novembro de 2019, exatos 38 anos depois, não houve jogo do LEÃO, não errei a arquibancada, nem precisei ser salvo por Dom Inácio. Sucumbidos a um futebol de arte e magia que encanta e magnifica a alma de todos que amam o futebol, lá estávamos, minha irmã em Santarém e eu, no Rio, a vibrar por mais um título da Libertadores.

Se naquele distante 1981 no Estádio Centenário de Montevidéu contra o Cobreloa tivemos que enfrentar o “açougueiro” Mario Soto, episódio que só deve ser lembrado para que nunca mais se repita, neste 2019 tivemos uma aula de futebol, escolas iguais, técnicos dignos e jogadores de altíssimo padrão, o que qualifica ainda mais o título.

Vibrei muito, festejei muito, cantei nosso hino. O Brasil inteiro! Aliás, o mundo inteiro se vestiu de vermelho e preto e ao invés de uma aldeia global, o Mngão fez o mundo se reinventar e dançar, incansável, “Festa na Favela”.

Senti falta do meu mano Beco com seu “manto sagrado”, mas em todos os momentos estava com o pensamento nele. Dividi com ele e com minha irmã o título e agradeci a ambos que me fizeram rubro negro. Afinal, “Eu teria um desgosto profundo/Se faltasse o Flamengo no mundo”.

Não duvido que lá no céu houve festa. Ele não deixaria passar em branco, de jeito nenhum! São Pedro deve ter tido um trabalhão para por ordem na casa mas afinal, o que é santidade se não for um estado de extrema felicidade?

Ave, mano Beco! Faltou você aqui. Que saudade!


* É advogado e economista santareno. Reside no Rio de Janeiro, de onde escreve regularmente para o Blog do Jeso.

LEIA também de Helvecio Santos: O céu está mais azul, chegou Machadinho.

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4 Comentários em: Mano Beco e o inesquecível ano de 1981. Por Helvecio Santos

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  • Célio Simões disse:

    Quando em 1981 o Flamengo arrasou o Liverpol tornando-se campeão mundial de clubes, no exato instante do primeiro gol do Nunes, nascia em Belém o meu filho caçula Sérgio Guilherme Simões. Se conquistar o bicampeonato neste 2019 (trinta e oito anos depois), terei a mesma e renovada sensação de intensa felicidade!

    1. HELVECIO SANTOS disse:

      Bom dia, Célio! Torço que neste sábado, 21/12, vc tenha a mesma e renovada sensação de intensa felicidade. Desculpe a intromissão mas penso que se estivesse no momento do primeiro gol rubro negro estivesse nascendo um neto, e não preciso dizer, rubro negro, o filme estaria completo. Abs,

  • EDMAR disse:

    Li. Gostei. Abraço.

    1. HELVECIO SANTOS disse:

      Obrigado, Edmar. Abraços,