O legado de Alfred Nobel e os agraciados com o Nobel de Fisiologia e Medicina em 2020
Alfred Nobel, pai da dinamite: químico, engenheiro e inventor.

por Walace Gomes Leal (*)

Em 1876, um senhor solitário e multimilionário, mas infeliz no amor que nunca teve esposa e filhos,  publicou um anúncio em um jornal austríaco: “um senhor de certa idade, rico e muito instruído, residente em Paris, procura mulher experiente e de certa classe, que conheça línguas estrangeiras, e que possa servir de secretária e dama de companhia”.

O senhor era Alfred Bernhard Nobel 1, um químico, engenheiro, inventor, empresário e filantropo sueco que fez sua fortuna seguindo a tradição da família, trabalhando na indústria de armamentos.

Walace Gomes Leal *

Respondeu ao anúncio a poliglota e estonteantemente bela, filha de um aristocrata falido, condessa Bertha Kinski von Chinic und Tettau. No entanto, Alfred Nobel, ele mesmo, o que dá o nome ao prêmio Nobel, não teve sorte e a condessa, logo após o primeiro encontro e uma viagem a negócios de Alfred, preferiu casar-se com um antigo namorado.

No entanto, Alfred a perdoou e ficaram amigos. A condessa Bertha era pacifista e teve grande influencia sobre a decisão de Alfred Nobel de, ao final da vida, fazer um testamento deixando mais de 90% da sua fortuna, à época 31 milhões de coroas suecas, para premiar os cientistas cujas descobertas tivessem grande impacto positivo sobre a humanidade – assim nasceu o prêmio Nobel.

Alfred Nobel não teve educação formal quando criança e foi educado por professores particulares. Sua família teve várias empresas relacionadas a produção de armamentos, inclusive na Rússia para onde a família Nobel foi morar quando Alfred ainda era criança.

 

As empresas da família Nobel enfrentaram épocas de prosperidade e falências. Nas épocas de prosperidade, Alfred pôde estudar e obter excelente formação em química e engenharia. Ele tornou-se um magnífico inventor tendo a autoria de 355 patentes, sendo a mais famosa dela a dinamite que foi sintetizada após uma modificação química da nitroglicerina, inventada em 1846 pelo químico italiano Ascanio Sobrero, uma substância instável e altamente explosiva composta de uma mistura de glicerina e os ácidos nítrico e sulfúrico.

A instabilidade química da nitroglicerina foi um dos principais desafios de Alfred Nobel por vários anos, ou seja, como modificar sua química de modo a torná-la mais estável e evitar as explosões?

Durante as tentativas para conseguir esse feito, houve uma tragédia familiar e um laboratório, na Suécia, que Alfred Nobel dividia com seu pai Immanuel Nobel e seu irmão mais novo Emil, explodiu e matou Emil. Alfred não estava presente.

Depois de muitas tentativas, Alfred conseguiu modificar a estrutura da nitroglicerina criando a dinamite, o que o deixou multimilionário. Além disso, Alfred investiu nos negócios relacionados ao petróleo do seu irmão Ludovic Nobel, o que o tornou ainda mais rico.

A família Nobel ficou conhecida como empresários que fizeram fortuna com a guerra e com a morte, considerando seus negócios com armamentos militares. Chegaram a ter mais de 90 fábricas de armamentos de guerra, apesar de, ironicamente, Alfred Nobel ser um pacifista.

Em 1888, seu irmão Ludvig Nobel faleceu e diversos jornais europeus publicaram, por engano, obituários como se Alfred Nobel tivesse morrido. Um jornal francês escreveu “morreu o mercador da morte”.

 

Quando Alfred leu esse obituário ficou extremamente abalado por ter sua imagem associada a armas, guerras e morte. Decidiu então mudar esse panorama para que seu legado não fosse associado a guerras e mortes, colocando no seu testamento, em 1895, que 94% da sua fortuna deveria ser usada para premiar cientistas e inventores que tivessem feito notável contribuição científica com comprovado benefício para a humanidade.

Atualmente, a Academia Sueca de Ciências, em Estocolmo, premia estes cientistas com o prêmio Nobel, com um montante atual de 1 milhão de dólares. Alfred Nobel colocou no seu testamento, em 1895, as áreas que deveriam ser agraciadas, incluindo Física, Química, Fisiologia e Medicina, Literatura e, segundo Alfred Nobel, “uma contribuição para alguém que contribuiu para a fraternidade humana”, atualmente o prêmio Nobel da paz.

O prêmio começou a ser oferecido em 1901, quando Emil Adolf von Behring foi agraciado com o Nobel de Fisiologia e Medicina por ter desenvolvido uma terapia com soro para tratar a difteria.

Desde então, inúmeros trabalhos memoráveis e de grande relevância para a humanidade, foram agraciados com o Nobel de Fisiologia e medicina, incluindo transplante cirúrgico de órgãos (1912), as descobertas da insulina (1923), das sulfas (1939), da penicilina (1945), do cortisol (1950). Inovações tecnológicas também foram agraciadas com o Nobel de fisiologia e Medicina incluindo a criação da técnica do eletrocardiograma (1924) e tomografia computadorizada (1979).

Recentemente, a Academia Sueca divulgou os ganhadores do prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 2020 2 para os cientistas que descobriram o vírus causador da Hepatite C, uma doença que induz cirrose e câncer hepáticos em milhões de pessoas no mundo.

Os cientistas Harvey J. Alter 3-5 (Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos), Michael Houghton6-7 (Universidade de Alberta, Canadá) e Charles M. Rice 8 (Universidade Rockefeller, Nova York), com suas magníficas pesquisas, descobriram o agente etiológico (causador da doença) da hepatite C contribuindo  para o desenvolvimento de testes sanguíneos e tratamentos eficazes advindos das suas pesquisas e salvando a vida de milhões de pessoas 2.  As referências citadas dão mais detalhes sobre as pesquisas desenvolvidas pelos agraciados desse ano.

Alfred Nobel morreu solitário e doente no dia 10 de dezembro de 1896 em San Remo, Itália. Ele doou sua fortuna para a ciência para que seu legado não fosse associado a armas que causam morte, o que, ironicamente, lhe propiciaram fortuna. Ele conseguiu.

 

O prêmio Nobel é visto pelo mundo como uma recompensa aos grandes cientistas que de forma indelével deixaram seus nomes como bem feitores da humanidade. Um cientista brasileiro nunca ganhou um prêmio Nobel, apesar de ter passado bem perto. As razões para isso são complexas e tema para um próximo ensaio, mas o negacionismo científico no Brasil é alarmante deixando claro que, cada vez mais, precisamos da ciência.

Referências

1 Alfred Nobel: da dinamite à paz. https://super.abril.com.br/cultura/alfred-nobel-da-dinamite-a-paz/

2 Press release: The Nobel Prize in Physiology or Medicine 2020. https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2020/press-release/

3 Feinstone SM, Kapikian AZ, Purcell RH, Alter HJ, Holland PV. Transfusion-associated hepatitis not due to viral hepatitis type A or B. N Engl J Med 1975; 292:767-770.

4 Alter HJ, Holland PV, Morrow AG, Purcell RH, Feinstone SM, Moritsugu Y. Clinical and serological analysis of transfusion-associated hepatitis. Lancet 1975; 2: 838-841.

5 Alter HJ, Purcell RH, Holland PV, Popper H. Transmissible agent in non-A, non-B hepatitis. Lancet 1978; 1: 459-463.

6 Choo QL, Kuo G, Weiner AJ, Overby LR, Bradley DW, Houghton M. Isolation of a cDNA clone derived from a blood-borne non-A, non-B viral hepatitis genome. Science 1989; 244: 359-362.

7 Kuo G., Choo QL, Alter HJ, Gitnick GL, Redeker AG, Purcell RH, Miyamura T, Dienstag JL, Alter CE, Stevens CE, Tegtmeier GE, Bonino F, Colombo M, Lee WS, Kuo C., Berger K, Shuster JR, Overby LR, Bradley DW, Houghton M. An assay for circulating antibodies to a major etiologic virus of human non-A, non-B hepatitis. Science 1989; 244: 362-364.

8 Kolykhalov AA, Agapov EV, Blight KJ, Mihalik K, Feinstone SM, Rice CM. Transmission of hepatitis C by intrahepatic inoculation with transcribed RNA. Science 1997; 277: 570-574.


— * Walace Gomes Leal é neurocientista e professor do Instituto de Saúde Coletiva da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará).

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