A narrativa da independência do Brasil. Por Felipe Bandeira
Quadro de Pedro Américo sobre o Grito do Ipiranga. Foto: Agência Brasil

Aprendemos desde cedo na escola que no 7 de setembro se comemora o dia da Independência do Brasil. Lembro que a professora, após chegar na sala de aula e colocar o livro em cima da mesa, pegava o giz e escrevia bem grande no quando: “Independência do Brasil – 1822”.

Depois desse ritual, ela dizia que essa data marcava um grande feito na nossa história: a saída do Brasil da condição de colônia portuguesa para se tornar uma verdadeira nação. Este feito extraordinário deveria ser muito importante mesmo, afinal, na semana que antecedia o 7 de setembro, além de não ter aula, ainda íamos para a rua “marchar”. Eu achava um máximo!

Felipe Bandeira *

Mas essa narrativa, encenada pra gente todos os anos nas ruas, com direito à desfile militar, não conta “da missa a metade”. Pra começar, essas datas encobrem milhões de personagens anônimos, aqueles e aquelas que estavam submetidos a um sistema brutal de exploração.

Na Amazônia, por exemplo, a notícia da Independência demorou muito a chegar, tão longe que estávamos da sede do governo. Na verdade, até 1772, a Amazônia, ou Estado do Grão Pará e Maranhão, como era conhecida, foi administrada diretamente por Lisboa. O restante da América portuguesa, denominado Estado do Brasil, foi governada como uma entidade separada. Portanto, por essa época, Portugal considerava que possuía duas, e não uma colônia nas Américas.

Essa situação se explicava por motivos práticos, pois Belém, a capital do Grão-Pará, e São Luís, a capital do Maranhão, eram mais próximas de Lisboa do que Salvador e Rio de Janeiro. E aí, pra facilitar o comércio, Portugal decidiu fazer assim duas colônias.

 

Na Amazônia, foram os missionários, principalmente os jesuítas, que comandaram a maior parte do comércio e administração dos índios, até sua expulsão em 1757.

As longas distâncias e as diferenças regionais, produziram uma integração muito reduzida entre as duas colônias, motivo pelo qual os grupos políticos locais foram contrários a integração política do Grão Pará ao Brasil no fim do período colonial. Tanto que passado um ano, o Pará era a única província que ainda não tinha aderido à Independência do Brasil. Isso só foi acontecer no dia 15 de agosto de 1823, ocasião que comemoramos o dito feriado da Adesão do Pará.

Após a Independência, em 1822, as elites locais passaram a ter muito medo de revoltas populares. Como até então haviam se esforçado para deixar o povo de fora desse processo, o acumulo de frustrações foi tomando forma política, comandados por aqueles que já não aguentavam a escravidão e os desmandos dos senhores que fazia a maioria da população padecer de fome, sofrimento e humilhações.

“A comunidade de Ecuipiranga, localizada entre os rios Amazonas e Arapiuns, foi o maior acampamento do movimento revolucionário”

No Pará, essas tensões foram aumentando até estourar no ano de 1835 na Guerra da Cabanagem. As demandas do movimento cabano combinavam aspirações liberais e populares e resultou em uma das maiores rebeliões da história do Brasil.

Em Santarém, se destacou os movimentos com grande participação de povos indígenas e populações negras que enfrentaram e removeram o poder imperial entre os anos de 1836 e 1837 e impuseram o estabelecimento de um governo revolucionário, tornando-se o centro do movimento rebelde no Pará.

A comunidade de Ecuipiranga, localizada entre os rios Amazonas e Arapiuns, foi o maior acampamento do movimento revolucionário. Os homens e mulheres de Ecuipiranga eram, em sua maioria, moradores locais que haviam aderido ao movimento. Alguns deles, fugidos de fazendas próximas, traziam famílias inteiras e os poucos pertences domésticos que possuíam em suas canoas. O movimento era organizado a partir de várias lideranças descentralizadas, dentre os quais destacaram-se indígenas e negros amocambados.     

A queda de Ecuipiranga marcou o fim da fase de avanço do grande levante na província. Após retomar o controle de Santarém, as forças imperiais reprimiram violentamente os rebeldes, perseguindo-os e matando-os. Para se ter uma ideia do tamanho da repressão, no Pará, que à época contava com uma população de cerca de 120 mil habitantes, estima-se que trinta mil pessoas tenham morrido na Cabanagem, ocasionadas, sobretudo, pela violenta repressão provocada pelo Império.

A fuga dos rebeldes para escapar da repressão e dos abusos perpetrado pelas forças imperiais foi em um poderoso fator de deslocamento dos povos indígenas e populações negras. Entre os negros, os que não morreram em combate aproveitaram a oportunidade gerada pelos conflitos para formar novos quilombos ou se juntar aos já existentes.

O historiador Vicente Salles, comparando o quantitativo de escravos de Belém entre os anos de 1822 e 1848, constatou uma forte redução dos cativos, que, segundo Salles, “evadiram-se para os mocambos dos países próximos em grande proporção após a guerra da Cabanagem”.

O mesmo aconteceu em todo o vale Amazônico, como atestam as inúmeras incursões policiais organizadas pelas vilas de Óbidos e Santarém contra os quilombos e rebeldes cabanos fugidos. Entre as comunidades da região, ainda hoje é frequente ouvir histórias de vida que remontam ao deslocamento e fuga de seus ancestrais em virtude dos embates da Cabanagem.

Essa era a verdadeira Independência que se pensava para a Amazônia. Com forte participação popular.

Hoje, a história dos vencedores é mais uma vez contada, no momento que somamos mais de 125 mil mortes ocasionadas pelo novo corona vírus e que vários direitos são retirados dos mais pobres, enquanto privilégios são distribuídos entre um pequeno número de ricaços.

 

O desemprego atinge índices alarmantes, com mais de 13 milhões de desempregos, com o aumento do número de miseráveis – gente que passa fome todo o dia. A Amazônia queima e é novamente invadida por grandes proprietários.

No campo do funcionalismo público, foi anunciada uma reforma administrativa que retira a estabilidade do servidor e os deixa mais suscetíveis ao assédio de políticos. Lunáticos negam a importância da vacina; meninas são violentadas e em seguida são julgadas e criminalizadas. Hipócritas utilizam da fé das pessoas para enriquecer. Negros e negras são mortos e encarcerados. Novamente, prevalece o tronco e o açoite.

Mas essa história está sempre aberta a revoltas populares. Assim, como os cabanos e cabanas, nossa luta é pela dignidade para a maioria da população. Na nossa história, o tronco e o açoite não simples metáforas. O chicote do feitor certamente estalou em muitas costas negras e indígenas. Mas isso nunca nos impediu de lutar e, a despeito de tudo isso, nossos ancestrais construíram uma tradição de intensas lutas. É por isso que estamos aqui. Nós somos os novos cabanos! Esta é a verdadeira Independência.

Fora Bolsonaro!


— * Felipe Bandeira, santareno, é economista e doutorando em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp.

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