Muita quinquilharia e pouco ouro: Festival de Cinema de Alter do Chão. Por Paulo Cidmil
Exibição do documentário Inajara em Alter do Chão

Faço uma avaliação um pouco diferente da exposta por Raimunda Monteiro sobre o Festival de Cinema de Alter do Chão. Ela sugere que as universidades sejam o vetor do desenvolvimento de uma indústria audiovisual na região.

Só que, universidades, apesar de contribuírem, não inventam artistas, e do ponto de vista formal, elas são excludentes à participação dos não acadêmicos. Para mim, mais que a pequena produção de conteúdo por uma suposta baixa qualificação dos agentes produtores, o problema crucial para a produção de filmes na região é o acesso aos meios de produção.

Paulo Cidmil

Cinema custa caro. Mesmo se produzidos nos limitados Smartphones. É preciso transporte, é preciso alimentação, é preciso hospedagem, é preciso atores, cinegrafistas, locações.

E no caso de você realizar um filme dentro de seu quarto, com um único personagem, é preciso a ferramenta fundamental para que você tenha um filme com a qualidade necessária que atenda aos padrões do mercado exibidor: o acabamento artesanal, de alta tecnologia, que são as ilhas de edição de imagem e som. Isso que irá garantir uma excelente finalização o que inclui a produção de uma identidade visual para divulgação.

 

Será que as universidades estariam dispostas a abrir a extensão, disponibilizando equipamentos e meios para produções coletivas de acadêmicos e artistas independentes de fora da academia? Como isso iria se hierarquizar dentro das formalidades acadêmicas?

Vejo a sugestão de estarem envolvidas no processo de desenvolvimento do audiovisual no Tapajós como algo muito positivo e necessário. Mas como conheço razoavelmente o meio acadêmico, me pergunto como se desatariam os muitos nós que se manifestariam nesse processo. Inclusive os que teriam origem nas disputas políticas internas que habitam o seio acadêmico.

Quanto ao festival de Alter do Chão, é preciso uma análise criteriosa sobre o seu custo benefício.

Tenho como principal crítica a ausência de produções inéditas, a tímida presença de filmes brasileiros de longa metragem (a maioria foram documentários). O foco excessivo em curtas e médias metragens de pouca expressão e todos já exibidos em canais fechados e festivais do gênero, o que caracteriza o Festival de Alter do Chão mais como uma mostra cinematográfica e não um festival de cinema.

Festivais são plataformas para lançamento de filmes inéditos dentro do país, mesmo que os filmes já tenham sido lançados no mercado internacional. O ineditismo das obras é que mobiliza a imprensa. E é necessário que o festival traga artistas e diretores para estimular público e mídia.

Não adianta propalar na imprensa números exorbitantes como quase 2000 inscritos e cerca de 300 filmes a serem exibidos, quando o público sequer tem disponível o resumo da sinopse dos filmes no programa do festival.

O Festival de Alter do Chão poderia ter sido um canal para dar visibilidade a centenas de longas brasileiros que se encontram nas prateleiras a espera de salas de exibição.

Existe um entrave na cadeia produtiva que inviabiliza a produção nacional no seu momento mais significativo: a exibição. Frustrando produtores, diretores, atores e técnicos que após longos períodos de dedicação não veem seus filmes serem vistos pela população.

Só o cinema nacional pode proporcionar a oportunidade para o brasileiro se ver nas telas, conhecer melhor a sua geografia e sua historia; vivenciar sua diversidade, seus dramas, suas peculiaridades e rir com sua maneira singular de fazer humor.

Não sei qual a estratégia que tinha em mente a coordenação do festival ao priorizar os canais exibidores de TV por assinatura como parceiros e não as distribuidoras e diretores(as). Seriam esses canais os provedores do vasto material apresentado no festival? Teria a ver com a Lei 12.485 do Audiovisual?

Fazer rodada de negócios para vender o quê? Se todos os filmes da mostra já rodaram por festivais e canais exibidores. Vender a produção regional? Qual? Qual foi o volume de negócios? Qual o fluxo turístico no período, que possa justificar o grande investimento?

A organização do evento divulgou números grandiosos antes e depois do evento. Afirmar que ao festival compareceram 30 mil espectadores, é um grande exagero. Digo que não chegou a receber 10 mil e se estou equivocado que o povo de Alter do Chão me desminta.

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Sala de exibição quase vazia no festival

Não fosse a grande cobertura dos meios de comunicação, especialmente da TV Tapajós, que durante os quatros primeiros dias do festival manteve uma equipe com plantão permanente produzindo matérias para todos os seus telejornais, esse festival teria sido um fiasco.

O festival não apresentou novidade do ponto de vista do ineditismo das obras, teve uma comunicação visual pouco criativa com banner de programação praticamente um copia e cola já visto em outros festivais, como o FestRio.

Montou uma programação megalomaníaca, realizando uma maratona de filmes pela manhã e tarde, como se fosse possível competir com as praias de Alter do Chão em pleno verão.

Foi um evento que diferente dos muitos festivais existente no país não primou por uma identidade. Tentou o gigantismo de um FestRio ou a Mostra São Paulo, o que não cabe em nossa região. Talvez tivéssemos que começar com um formato mais enxuto como o Festival de Búzios ou Fortaleza, com um bom espaço para a produção regional.

Mesmo com essa crítica ácida, que nada tem a ver com algo pessoal, o Festival de Alter do Chão trouxe coisas positivas:

 

• A ambientação do espaço criou um clima bem regional e acolhedor em comparação com outros festivais, sendo uma atração à parte.

• A feira cultural e gastronômica compondo com a ambientação, inclusive com a presença indígena comercializando sua arte, muito contribuiu para reter o publico no ambiente do festival (reproduzindo formato do Çairé).

• A presença de grupos musicais da terra, estendendo o festival para uma programação noturna com ênfase na musica regional, acrescentou a energia necessária para estimular a integração do Festival com a comunidade de Alter do Chão.

• As oficinas, palestras e rodas de debates, mesmo não ocorrendo todos os eventos programados e a pouca frequência em outros, foram importantes, porque promoveram troca de informações e conhecimentos tão necessários para o desenvolvimento do audiovisual em nossa região.

• A boa presença de produções regionais ou de temática amazônica na programação da Mostra foi importante para ampliar a percepção sobre os problemas amazônicos. A se lamentar que muitos desses filmes foram vistos, quando muito, por meia dúzia de pessoas.

Acredito ser unânime entre gestores, produtores, artistas e acadêmicos que Santarém comporta e necessita de um festival de cinema para estimular o desenvolvimento da produção audiovisual na região.

Mas, na minha modesta opinião, é preciso repensar o formato e a estratégia de produção e exibição. O formato realizado não tem sustentabilidade. Todo passo maior que as pernas tende a derrubar o cavaleiro andante.


* Paulo Cidmil é diretor de Produção Artística e ativista cultural. Escreve regularmente neste blog.

— Leia também de Paulo Cidmil: O roubo da Muiraquitã.

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5 Comentários em: Muita quinquilharia e pouco ouro: Festival de Cinema de Alter do Chão. Por Paulo Cidmil

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  • jorge moraes disse:

    esse “festival de besteira” foi só fita….

  • Jeso Carneiro disse:

    Cidmil, parabéns pelo lúcido e oportuno artigo. Que aponta, de acordo com seu ponto de vista, erros e acertos do festival de cinema.

    Um contraponto: entendo que a universidade pode ser, sim, uma boa parceira para ajudar na musculatura desse polo de cinema na região que todos almejamos. Desde que os cursos ofertados na área sejam realizados além dos muros da academia, junto a associações culturais, escolas, entre outros segmentos.

    Seria uma forma de driblar o caráter excludente da universidade que você, Cidmil, tão acertadamente pontua.

  • João disse:

    Gostei. Todas as outras críticas ao festival foram ufanistas. Esta foi mais realista. Trouxe os ponto fracos e suas alternativas. Falou o que precisa melhorar sem denegrir a iniciativa. Parabéns. E vamos esperar um festival de cinema cada vez melhor.

  • Katia disse:

    Égua da critica bem construida!

  • Francisco Edson disse:

    Muito boa crítica e bem fundamentada.