
Dez dias. Mais de 15 capítulos. Sete vereadores. Cinco partidos. Seis secretarias municipais. Dezenas de milhares de reais por mês em salários de familiares de parlamentares retirados do erário público municipal.
Esse é o balanço da série sobre nepotismo iniciada pelo JC no último dia 7 de maio — a mais extensa investigação jornalística sobre o tema já publicada no município. E ela segue em curso.
Ao longo dessa semana e meia, o portal documentou, com base nos dados do portal de transparência da Prefeitura e da Câmara de Vereadores de Santarém, casos envolvendo, até agora, os seguintes vereadores:
- Enfermeiro Joziel Colares (PRD), Ivanira Figueira (PSD), Sérgio Pereira (PP) e Bárbara Matos (PP).
- Além de Alaércio Cardoso (PSD), Mano Dadai (PSB) e Enfermeiro Murilo (PRD) – todos com familiares em cargos comissionados na Prefeitura de Santarém, enquadrados, em tese, na vedação da Súmula Vinculante 13 do STF (Supremo Tribunal Federal).
Como a série começou — e onde ela chegou
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A primeira matéria, publicada em 7 de maio, revelou um esquema de nepotismo cruzado: o secretário municipal Pedro Henrique Sousa, presidente do PRD em Santarém, tinha a filha lotada no gabinete do vereador Enfermeiro Joziel — do mesmo partido — e o irmão como assessor jurídico da Câmara.
O próprio secretário, por sua vez, tinha a esposa empregada na Semsa, secretaria controlada pelo PT no governo Zé Maria. A família do secretário retirava, ao todo, R$ 32.254,28 mensais do erário municipal.
Era o começo. O que veio depois mostrou que o caso não era uma exceção — era um padrão.
A série foi revelando, capítulo a capítulo: os dois filhos da vereadora Ivanira Figueira admitidos na Semg nos primeiros dias de seu mandato. A esposa do vereador Joziel nomeada chefe de núcleo na Semtras no mesmo dia de sua posse.
O vereador Sérgio Pereira com três filhos em três secretarias diferentes, somando R$ 12.500,00 mensais. A esposa do vereador Alaércio Cardoso na Semg — e sua posterior exoneração, a única registrada até agora. A familiar da vereadora Bárbara Matos na Semsa do PT.
O vereador Mano Dadai — condenado na operação Perfuga de 2009 exatamente por uso irregular de cargo público em benefício de familiar — reincidindo com quatro parentes em quatro secretarias, totalizando R$ 35.881,95 mensais com o próprio subsídio. E, mais recentemente, o irmão do vereador Enfermeiro Murilo na Semg desde o primeiro dia da legislatura.
As reações e o silêncio
A maioria dos vereadores identificados na série optou pelo silêncio. Contactados pelo JC para se manifestarem, não responderam. Seus cargos, e os de seus familiares, continuam.
Houve uma exceção positiva: o vereador Alaércio Cardoso (PSD) anunciou a exoneração da esposa logo após a reportagem, e a medida foi oficializada pelo prefeito Zé Maria por meio do Decreto nº 446/2026, de 12 de maio, com efeitos retroativos a 4 de maio. Foi o único desfecho concreto registrado em dez dias de série.
E houve uma exceção de outro tipo: o vereador Enfermeiro Joziel Colares (PRD).
Joziel: vídeos, ataques, nenhuma refutação
Joziel Colares é um vereador estreante. Foi eleito pela primeira vez em outubro de 2024 pelo PRD e tomou posse em 1º de janeiro de 2025 — o mesmo dia em que sua esposa, Noeme Morais Batista, foi nomeada chefe do Núcleo de Políticas Públicas para Mulheres (NPPM) na Semtras (Trabalho e Assistência Social).
Desde a publicação das reportagens que o envolvem, o parlamentar adotou uma estratégia diferente da dos colegas: em vez do silêncio, a guerrilha virtual. Foi às redes sociais. Gravou vídeos. Atacou o repórter Jeso Carneiro, responsável pela série.
No primeiro vídeo, o chamou de “indivíduo covarde”. No segundo, publicado em 10 de maio, subiu o tom e partiu para ataques pessoais ao jornalista, chamando-o de “idoso” e pedindo que ele “crie vergonha na tua cara”.
Em nenhum dos dois vídeos o vereador contestou um único dado publicado pelo JC. Não negou que a esposa foi nomeada. Não negou a data da nomeação. Não negou o salário. Não apresentou nenhum documento, nenhuma justificativa técnica, nenhum argumento jurídico.
Atacou o mensageiro. A mensagem permanece intacta.
Agora, dez dias depois do início da série, o JC publica em vídeo o resgate do caso Joziel — para que os fatos sigam acessíveis, documentados e na memória pública.
O que a série revelou
Mais do que casos individuais, a série expôs um padrão sistêmico. Nenhuma das nomeações identificadas foi feita por concurso público. Todas envolvem cargos comissionados — de livre nomeação e exoneração.
Em vários casos, as admissões ocorreram no primeiro dia da legislatura ou nos dias imediatamente seguintes à posse dos parlamentares. Os familiares estão distribuídos pelas mesmas secretarias onde os vereadores têm influência política como base do governo Zé Maria.
PRD, PSD, PP, PSB — partidos diferentes, mas o mesmo arranjo. Semg, Semsa, Semtras, Sempta — secretarias diferentes, mas o mesmo mecanismo. O nepotismo em Santarém, como a série demonstrou, não é um desvio isolado. É uma prática horizontal, que atravessa siglas, pastas e mandatos.
A série continua
O JC segue com as apurações. Novos casos identificados serão publicados. Manifestações de todos os envolvidos continuam sendo solicitadas e serão publicadas na íntegra, sem edição – como a do vereador Enfº Murilo.
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