
Foram três semanas ouvindo os “especialistas”, a hipótese de uma vitória de Flavio Bolsonaro me deixou insone. Há tempos tento entender como se consolidou na sociedade brasileira o fenômeno Bolsonarismo. Vejo no subterrâneo, sob muitas camadas, uma velada luta de classes.
Mas não é isso que dizem conceituados acadêmicos. Detém-se nessas diversas camadas: religião, cultura, identitarismo, racismo, machismo, feminismo, violência urbana, novas relações de trabalho, rural x urbano, são muitos os bodes colocados na sala, sobra até para o alinhamento sertanejo, mamando muita grana nas infiscalizáveis emendas parlamentares.
No Brasil, é tabu falar em luta de classes. E de fato é difícil analisar essa polarização política como um confronto de classes. A sociedade passou por transformações profundas nas relações de trabalho. Aqui, o profissional liberal não se identifica como classe trabalhadora. E há um exército de 30 milhões de empreendedores sonhando com um futuro empresarial.
Soma-se a isso castas encasteladas no Estado: funcionários de média e alta qualificação em ministérios, autarquias, estatais; o judiciário onde raro são os magistrados com origem na classe trabalhadora; a classe política. Todos esses, a grande maioria, não se percebem como classe trabalhadora.
— ARTIGOS RELACIONADOS
Resumindo: o conceito clássico de classe trabalhadora que sobreviveu até os anos 1980, foi pulverizado com o surgimento de novas relações de trabalho, a desindustrialização, a automação da produção, o universo digital e o crescente empreendedorismo.
Transformações que também ocorreram na política com a consolidação de grupos coorporativos como as bancadas da segurança privada, do agro, evangélicos e privatistas/rentistas representados pelo sistema financeiro, apelidado de mercado, os senhores das sombras.
Vejo na eleição presidencial, traços não de um confronto de classes no sentido clássico, fatalista, mas de um reconhecimento de origem de classe social, de pertencimento, uma identificação com as lutas e reinvindicações populares da esquerda, da classe trabalhadora.
Na mídia coorporativa e digital, os “especialistas”, analistas políticos e pesquisadores, reduzem esse embate a um conceito difuso e vazio como Bolsonarismo e Lulopetismo. Raros debatem conceitualmente o que seria esquerda e direita.
O segundo turno foi o momento em que a população teve a clara percepção que era imperativo se posicionar. Como disse Chico Science “você samba de que lado? de que lado você quer sambar?”. Foi como se dissessem, não me reconheço nesse granfino, como Lula o rotulou, nem nessa mudança mentirosa, essa tesoura é para me cortar.
A eleição não foi vencida pelo PT, pela esquerda, por partidos aliados, eles venceram a apatia e somaram forças para a vitória. Foi uma centelha que acendeu com a manifestação dos estudantes e cresceu, ganhou as ruas e se agigantou. Foi a eleição vencida pelo povo brasileiro que percebeu o engodo, Flavio cheirava a trapaça.
O povo que precisa de políticas afirmativas e de inclusão, que depende das cotas nas universidades, do Fies, do gás, da creche, do bolsa família, do BPC, da moradia, da escala 5/2, da educação pública, do SUS. Estudantes, professores, aposentados, funcionários públicos, humanistas. Essa massa convergiu em uma mesma direção: parar o Bolsonarismo.
A lembrança do que foi o governo Bolsonaro está viva na cabeça da população, dizem que o povo não tem memória, mas ele sabe lembrar.
A mídia corporativa exerceu papel fundamental para a apatia do eleitor no primeiro turno. Desde o início da campanha esteve engajada na “mudança” de Flavio, alguns descaradamente como a CNN, outros de forma dissimulada como Globo e Band. Passavam verniz moderado na cara de pau do miliciano.
Enquanto os institutos de pesquisa desmobilizavam o PT (que fazia uma campanha ruim) colocando Lula à frente por 1 ou 2 pontos, os “especialistas” trabalhavam a negação do governo.
A ênfase era a rejeição, os erros, o endividamento, o déficit fiscal. O STF no olho do furacão, e, segundo eles, muito mais afinado com Lula. Colocavam Alexandre de Moraes todo cagado de banco Master no colo de Lula.
O segundo turno zerou o jogo. Havia PT e esquerda nocauteados, apáticos, menos Lula. Engajei desde a primeira live de Janones no Exército de Lula. Outra vitória sensacional, neutralizando a Meta e assumindo o controle das narrativas nas redes.
Mas o discurso de desconstrução de Lula persistia: as chances são muito pequenas, o pacote de bondade chegou tarde demais, há um forte sentimento de mudança, o povo quer mudança, a gastança de Lula deixará uma herança maldita. Diziam os especialistas.
Vieram os debates, Lula esteve bem em ambos. Os “especialistas” viram outra coisa, a avaliação foi na direção da forma, não do conteúdo. Apontavam os 81 anos de Lula como limitação e incapacidade.
Além de críticas negativas ao governo, diziam que ele estava cansado, apresentava sinais de senilidade, que demostrou irritação ao ter que debater com Flavio, insinuaram postura arrogante, de superioridade.
Lula sabia que por trás do boneco adestrado para mentir, havia um malandro que nunca trabalhou, que vive de mordomia e bons salários desde os 21 anos, à custa do contribuinte, nunca prestou serviço relevante a nação, com envolvimentos que o promove a categoria de gangster.
Há as exceções na mídia, especialmente no portal Uol, simpáticos a candidatura Lula, não por ideologia, mas porque sabiam o que ameaçava o povo brasileiro. A tônica nas análises dos “especialistas” do marketing político, dos institutos de pesquisas e da ciência e jornalismo político, eram sombrias para Lula. Apontavam para a “mudança”.
As ruas foram tomadas de gente, as redes sociais inundadas de informação pró-Lula. Presumo que os “especialistas” dos institutos de pesquisa sabiam o que ia acontecer dia 25. Ou os caras não sabem o que fazem ou o cinismo em defesa do negócio, fala mais alto. Mantiveram as previsões de vitória da “mudança” até a boca de urna.
Jornalistas e comentaristas que ancoram os telejornais e portais na internet, alçados a interpretes da política nacional, são poucos com independência editorial, quase todos tem patrão, o CNPJ do patrão tem lado, e não é o da classe trabalhadora. E o patrão do CNPJ, seja da mídia corporativa ou grandes portais, é o tal “mercado”.
Mídia corporativa, institutos de pesquisa e marqueteiros tocam negócios que se complementam e as vezes se locupletam. Os bois só tem nome na publicidade. Quando é para exercer pressão sobre governos e arrancar vantagens, os bois são chamados de “Mercado” e “Faria Lima”. Há uma regra de impessoalidade estéril.
Bancos e corretoras de valores tem nome, corporações transnacionais tem nome, entidades patronais tem nome, milionários e bilionários rentistas tem nome.
A mídia é dependente da publicidade, não dá para imaginar que são isentos, ela pisa em ovos, tenta fazer jornalismo isento, ao mesmo tempo, presta serviço aos interesses do que denominaram de “Mercado” e “Faria Lima”.
Os mantem fora do foco, enquanto os editorias e os “especialistas” argumentam a seu favor. Nesse caso, em defesa do “enxugamento da máquina pública” do tesouraço e das privatizações. O “mercado” quer avançar no orçamento do Estado, gerir e lucrar com os serviços públicos privatizados.
Nessa eleição, nada é comparável aos comentários fatalistas e extremamente pessimistas sobre o governo Lula, de Thais Herédia e Willian Waack “especialistas” de economia e política da CNN. Eles resumem, nas entrelinhas, a derrota e o ressentimento de um jornalista tendencioso e servil ao “mercado”, que predomina na grande mídia.
A CNN Brasil é o elo midiático dos EUA e seus interesses no Brasil. O jornalismo da CNN, com verniz e discurso democrático, é a Doutrina Monroe para América Latina. Atuou desavergonhadamente pro Flavio nas eleições.
Estão a serviço do alinhamento incondicional do Brasil aos EUA. Foi a CNN o canal escolhido por Flavio e sua turma para assistirem a derrota. O Estado brasileiro deveria ficar atento ao jornalismo da CNN Brasil.
O governo Lula precisa prestar atenção no mapa eleitoral que emergiu das urnas e observar o papel do agro. O plano safra oferece 600 bilhões anuais, a juros subsidiados de 12% ano. Parte dessa grana seria bem vinda para somar esforços na revitalização e diversificação regional de nossa planta industrial.
Há mercado para nossos produtos na América Latina, Caribe, África e Ásia. Abrir mercados é a especialidade de Lula. Produtos industrializados agregam valor e geram mais empregos que soja in natura. Cerrado e Floresta Amazônica festejariam.
Febraban, Fiesp, ABAG, CNA, ABIOVE, ABIEC, direita TFP e bolsonaristas, estão tentando entender o sacode que Lula lhes impôs. Houve instituto, na pessoa do CEO “especialista”, argumentando ter havido a existência de eleitores improváveis, até isso! Ainda procuram fraudes e culpados. Foi o povo brasileiro que deu o sacode levando Lula nos braços.
Foi lindo ver o velhinho saltitante com seus óculos estrelado adentrar a Paulista, transformada em um mar de diversidade, alegria e beleza, tomada pelo povo brasileiro. Em estado de profunda alegria, vendo aquele gozo coletivo, pensei: a felicidade custa muito pouco.
Por fim, o cara da mudança optou por se mudar. A última notícia é que o moleque fujão, presidente dos Estados Unidos do Brazil, está em outro patamar, subiu de patente, agora já é chamado de Napoleão de hospício. Mas é só um ladrão, fugindo da justiça.
⚀ Paulo Cidmil (*) é diretor de produção artística e ativista cultural. Santareno, escreve regularmente no portal JC. Ele está no YouTube e no Instagram. Siga-o nessas plataformas! Leia também dele: Após a vitória envergonhada, Zé enfrenta a hidra de 7 cabeças.
E ainda: Protagonismo amazônida e Fora Cargill, saúva gigante; vídeo.
∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos.
O JC mais perto de você! 📱
Gostou do que leu? Siga nossos canais e receba notícias, vídeos e alertas em primeira mão:
Sua dose diária de informação, onde você estiver.
Deixe um comentário