por Fábio Tozzi (*)
O debate sobre o Abaré I, que se tornou referência nacional de saúde nas regiões de rios da Amazônia, deve ser entendido não como um problema, mas como uma forma de mobilizar oportunidades para a interiorização da medicina na nossa região, como uma política pública integradora de atendimento e de ensino na área de saúde.
A discussão já vai longe e me manifesto trazendo à tona alguns elementos que considero importantes, como médico que vivenciou essa experiência por 4 anos, e atualmente como coordenador adjunto do curso de medicina UEPA – Universidade Estadual do Pará.
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A construção do modelo de atendimento em saúde aos ribeirinhos por meio do Barco Abaré I trouxe não apenas a melhoria das condições de saúde da população que vive distante dos centros urbanos, que de fato sempre foi seu principal objetivo, mas também resultou em referências que devem ser levadas em consideração no atual contexto.
Especialmente num momento em que o Brasil discute a necessidade de interiorização dos médicos, dada a carência nas pequenas e médias cidade, principalmente no nordeste e norte do país, e mais ainda na realidade das zonas rurais.
A primeira delas é o fato de que, além do trabalho de atenção básica de saúde realizada no Abaré I, foi também possível, pelo caráter inovador do projeto, mobilizar diversas parcerias, para a realização de jornadas de cirurgias, que tiveram impacto positivo na demanda reprimida de patologias simples que hoje impactam o sistema de saúde, na área de oftalmologia (cataratas e pterígios), odontologia (caries e próteses) e hérnias.
Somente entre 2009 e 2011, foram realizadas uma média de 4 jornadas, com a realização de 600 cirurgias. Isto demonstra a capacidade que um projeto como esse tem ajudando na mobilização e atração de profissionais médicos para a região, mesmo que não de forma permanente, mas contribuindo para diminuir a grande demanda existente.
Outro aspecto relevante é que a infraestrutura do barco, com laboratórios, farmácia, consultórios médicos, de enfermagem e odontologia, permitia não apenas a atenção básica adequada ao controle da saúde dos ribeirinhos incluídos nos programas de Saúde da Família, com impactos positivos em vários indicadores de saúde como vacinação, desnutrição, aleitamento materno, aderência nos programas de hiperdia, PCCU, e pré natal.
Esta estrutura permitia também dar suporte aos programas de prevenção, capacitação de agentes comunitários de saúde, e ao receptivo de residentes médicos à bordo. As parcerias com as universidades possibilitaram o desenvolvimento de linhas de pesquisas e trabalhos científicos que envolviam sempre a visão da academia voltadas para a solução de problemas de saúde comunitária, o que chamamos de Trabalhos científicos de base comunitária- com realização de varios TCC, TCA e teses.
Além disso, com essas parcerias, conseguíamos ter a presença de mais profissionais além dos raros médicos oriundos das secretarias de saúde que se dispunham a este tipo de trabalho. Além do médico chefe das equipes, contávamos sempre com médicos residentes e alunos do quinto ao sexto ano de formação e enfermeiros oriundos não só das universidades locais, mas também de outras universidades, como a USP, UFSC, UNB, UFPB, UFPA; UNICAMP etc.
Portanto, tratava-se de um verdadeiro estágio de interiorização que expandia a capacidade de atenção e a qualidade nos atendimentos, como observamos hoje no Hospital Municipal de Santarém, a grande contribuição de internos e médicos residentes supervisionados, frente à grande demanda existente melhorando a qualidade do atendimento.
Com isso conseguimos ter uma resolutividade de 93%, ou seja, somente 7% dos pacientes precisavam se deslocar até a cidade, pois a maioria dos problemas eram resolvidos ali mesmo à bordo. Isso portanto, significava um atendimento de qualidade, resoluto, que além de tudo, ainda diminuía a pressão ou aumento dos pacientes nos postos e hospitais já saturados da cidade.
A UEPA formou no ano passado sua primeira turma de médicos. Sempre acreditamos ser fundamental permitir aos estudantes de medicina que pudessem ter uma formação também voltada às demandas das populações rurais. Ano passado foi criado na UEPA o Programa de Residência Médica em Saúde da Família . O programa de saúde da família fluvial possibilita que os médicos residentes tenham a chance de aprender como praticar a medicina nas áreas ribeirinhas.
É neste ponto, como coordenador adjunto do curso de medicina da UEPA, que vejo uma grande perda, tanto para as comunidades, quanto para nossos alunos, e também para as outras universidades parceiras e associações médicas, que poderiam continuar atraindo oportunidades de oferta de serviços de saúde para nossa região.
Olhando o debate hoje no Brasil, do desafio de interiorização da medicina, temos um modelo que vinha se demonstrando efetivo para as áreas ribeirinhas, pois unia condições de trabalho, e uma forma inovadora e atrativa, com a formação de equipe de saúde voltadas às comunidades às margens dos rios.
O modelo gerado e desenvolvido aqui no Tapajós já está sendo replicada através da portaria ministerial 2191 em outros Municípios da Amazônia Legal e Mato Grosso do Sul. No entanto, aqui estamos vendo toda essa construção ser conduzida de uma forma reducionista, sem levar em conta todo seu potencial.
A falta de uma solução definitiva por parte do poder público municipal, para a permanência do Abaré I no Tapajós, ficando refém do aluguel do Barco, inviabiliza a continuidade de todo esse movimento. Até mesmo a regularidade da presença do barco nas comunidades, responsável pela melhoria dos indicadores de saúde, começa a ser prejudicado. Apenas em maio o Abaré I fez sua primeira viagem e algumas comunidades reclamam da ausência de médicos à bordo.
Se não houver uma solução definitiva para a permanência do Abaré I no Tapajós, aproveitando as oportunidades manifestadas pelo Ministério da Saúde para sua aquisição, poderá ser uma perda para todos. Para as comunidades, as universidades, e a política municipal de saúde. Porque perder essas oportunidades?
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* É médico.
Um pouco antes das eleições o Abaré ficou parado mais de um mês na “orla” la no Uruará, na época eu morava la e digo com certeza de causa o que estou falando.Durante dias eu via ele la parado, ate que um dia chegando do serviço desci ate a orla e preguntei para uma amiga que mora bem mais perto da orla.Fiquei sabendo que o Abaré estava “supostamente escondido! porque como ja estava perto das eleições nao iria sair mais para as visitas de medicos nas colonias.Com certeza era um tipo de espera tipo assim: se o PT ganhar nos coloca ele de novo para trabalhar”…enquanto nao sabemos o que ira acontecer, é melhor que ele fique parado, e se o PSDB ganhar que se virem para ele sair de novo.Enquanto isso se alguem morrer nao interessa…quanta sacanagem desse PT !!…como brincaram com a vida do povo !!!…e agora querem atribuir tudo ao Prefeito…esse barco deve estar ate podre de tanto tempo ja parado…Naquela ocasiao eu ainda me fiz de boba e fui com minha amiga ate o barco…dei um jeitinho de entrar em conversa com quem estava ali dentro, só tin ha dois jovens tomando cerveja e me disseram que a ordem que eles tinham era de permanecer ali ate novo aviso e que nem sabiam do que se tratava. Quem erao aquelas pessoas?…o que aquele barco com missão tão importante estava fazendo ali durante mais de um mes parado, ao inves de estar viajando para as comunidades?…Com certeza o Prefeito Alexandre Von sabe de suas obrigações e ja deve estar tomando providências , mais essa historia do tempo que ficou parado quem esclarece?…Cobrar de quem ainda esta fazendo e querendo fazer o melhor pode?…e de quem só soube fazer coisas erradas e obscuras nao pode?…
De tudo colocado aqui no Blog, o relato da Sra Lunavera é de uma realidade atroz, não quero e não tenho o propósito de desmerecer o trabalho dos abnegados voluntários do Barco Abaré I. Mas, política e negócios caminham pari passu.Vou citar: na propaganda eleitoral para prefeito de Santarém, vários Médicos apareceram na Tv dando depoimentos sôbre a saúde em Santarém, inclusive gente que trabalhou no tão afamado barco.Dona Lunavera, a senhora foi a primeira leitora que tocou em ponto nevrálgico do Barco Abaré I e Comunidades ribeirinhas.Meus respeitos e parabéns.Por isso, não perco a Esperança, Médicos em abundância para nosso interiorzão.
Assino embaixo as palavras do Dr. Fábio Tozzi.
Penso que as unidades fluviais começam na raiz do problema, que é a garantia de um atendimento de qualidade. Não podemos apostar nessa região com métodos tradicionais. os resultados que esta UBSF traz para a saúde da comunidade são imediatos. “O mais importante é a prevenção e está claro que no caso do abaré, 97% de resolutividade é prova irrefutável do sucesso desse modelo de atenção à saúde.
Espero que essa situação se resolva o mais rápido possível, pois, quem sofre são nossos irmãos ribeirinhos e não os políticos que estão fazendo essa lambança sem precedentes.
O foco principal é a carência de Médicos em nosso interior, a importação faz-se necessária e urgente.Chega de programas sem consistência, etéreos, abstratos.O bem material concreto é a presença do Médico atendendo aos necessitados, sejam conduzidos de transatlântico, barco Abaré I, canoas, bajaras, carros de boi, tudo é irrelevante.Pouquissimos defendem a vinda dos cubanos, preconceito arraigado em mentes que temem o comunismo, catapultado há muito.
A Esperança é a última que morre. Podem vir sim Cubanos, Bolivianos, Chineses…. desde que sejam preparados e ofereçam atendimentos de qualidade. Mas, sem estrutura de saúde para atenderem, tudo continuará na mesma.
A luta também é que se garantam espaços com condições dignas para o atendimento da população o que geraria resolutividade. Esse é o principal desafio de se fazer saúde na amazônia e o abaré provou que é possível, tanto que o MS tem hoje uma política pública.
No amazonas, tem previsão de serem entregues mais de cinquenta barcos desse tipo exatamente pela resolutividade que ele proporcionaria ao atendimento de ribeirinhos.
Te pergunto: Vc acredita realmente que esses médicos estrangeiros irão se fixar no interior?
Fixar-se-ão sim. Os Médicos cubanos tiveram uma formação humanística sólida, são experts em Saúde Pública, respeitados pela ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, se vierem, terão aval da OMS, pode acreditar.Essa propaganda tôda, xenófoba, é obra do pessoal de avental branco.Pode acreditar, teremos vários barcos com tôda estrutura de hospital, residindo com Médicos nas comunidades carentes.Chega de atendimento Médico, tipo Mutirão, é ultrapassado, de cunho eleitoreiro , fugaz, sem resultados a longo prazo.
Jeso,
O Dr. Fábio Tozzi é médico mas, no caso dele, é importante dizer que além de ser uma pessoa que tem a medicina como missão, ele tem uma formação acadêmica muito sólida. O Dr. Fábio tem Doutorado em Medicina (Clínica Cirúrgica) pela Universidade de São Paulo, Brasil (1996). É um cirurgião respeitado em todo o país. Vive em Santarém e dedica toda a sua energia pela saúde da população de nossa região.
Aproveito para reafirmar minha admiração pelo seu empenho e garra nessa luta.
Paulo Lima
É, Paulo, são credenciais de quem conhece a medicina tanto nos grandes centros como na periferia deste país. Tem peso, pois, as palavras e ideias que ele defende.
De boas idéias o inferno estã cheio.Barco Abaré não propiciou a interiorização de Médicos no interior da Amazônia, eram jornadas efêmeras. Precisamos de atendimento contínuo às nossas comunidades ribeirinhas.Desfoquemos esse barco de nossas necessidades prementes,urge ,tenhamos Médicos permanentemente, diariamente em nosso interior carente.As autoridades do Governo Federal estão empenhadas em trazer Médicos ( tenho preferência pelos cubanos porque teriam um campo de trabalho semelhante ao cubano) para suprir nossas necessidades.O Dr Fábio poderia, com sua exímia capacidade e titulatidade médica, entrar na corrente :Queremos Médicos estrangeiros para trabalharem em nossas comunidades abandonadas, BARCO ABARÉ I ABARROTADO DE CUBANOS.