
Há casos de nepotismo que surpreendem pela ousadia. Há casos que surpreendem pela reincidência. O do vereador Mano Dadai (PSB) pertence à segunda categoria.
Eleito para a Câmara de Santarém em 2024, para um novo mandato, o parlamentar integra a base de apoio do prefeito Zé Maria Tapajós (MDB) e tem 2 familiares lotados na Secretaria Municipal de Portos e Transporte Aquaviário (Sempta) desde 1º de janeiro de 2025, data de início da nova legislatura.
Filho e irmão, cada um em um setor diferente da mesma secretaria, cada um recebendo salário mensal dos cofres públicos de Santarém.
O que torna o caso de Mano Dadai singular é o que veio antes: o vereador já foi condenado judicialmente em processo originado da operação Perfuga, de 2009 — e a acusação envolvia, justamente, o uso irregular de cargo público em benefício de sua esposa.
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Ele e a mulher firmaram acordo de não persecução penal e evitaram o cumprimento da pena, mas o episódio está registrado nos autos da Justiça paraense.
Quem tem passado, condena mais rápido. E reincide com mais desenvoltura.
Dois familiares e os dois cargos
O levantamento do JC junto ao Portal de Transparência da Prefeitura de Santarém identificou:
- Yanglesson da Mota Mattos, filho do vereador Mano Dadai, está lotado na Seção de Projetos da Sempta desde 1º de janeiro de 2025. Ocupa cargo comissionado e recebe R$ 2.800,00 mensais.
- Yonyer Kennedy Santos Matos, irmão do vereador, trabalha na Divisão de Fiscalização Portuária da mesma Sempta, também desde 1º de janeiro de 2025. Seu salário mensal é de R$ 3.500,00.
Os dois foram admitidos no mesmo dia — o primeiro dia da nova legislatura — e estão lotados na mesma secretaria, em setores distintos. Juntos, custam ao erário R$ 6.300,00 mensais. Dadai, no cargo de vereador, ganha R$ 19,8 mil.

A Sempta e o perfil do caso
A Secretaria Municipal de Portos e Transporte Aquaviário é uma pasta de relevância estratégica para Santarém — cidade ribeirinha cuja economia e logística dependem diretamente da hidrovia. Trata-se de uma secretaria do primeiro escalão do governo Zé Maria, ao qual Mano Dadai presta apoio político como vereador da base governista.
Os cargos de Yanglesson e Yonyer são comissionados — de livre nomeação, sem concurso público — e se enquadram diretamente na vedação da Súmula Vinculante 13 do STF (Supremo Tribunal Federal).
Filho é parente de primeiro grau em linha reta. Irmão é parente de segundo grau em linha colateral. Ambos os graus de parentesco estão expressamente abrangidos pela proibição constitucional.
O antecedente: Perfuga e o emprego da esposa
A operação Perfuga, deflagrada em 2009, investigou irregularidades na administração pública de Santarém. Mano Dadai foi um dos alvos. A acusação que pesou sobre ele envolvia o uso de cargo público em benefício de sua esposa — a figura do emprego irregular de familiar, na prática.
Condenado em primeira instância, o processo tramitou depois na 3ª Turma de Direito Penal do TJPA (Tribunal de Justiça do Pará), com relatoria do juiz convocado Sérgio Augusto de Andrade Lima. O vereador e a esposa firmaram acordo de não persecução penal — instrumento que encerra a persecução criminal mediante o cumprimento de condições, mas que não equivale a absolvição nem apaga os registros do processo.

O acordo encerrou o processo. Não encerrou o histórico.
Agora, quase duas décadas depois, o mesmo vereador volta a figurar num levantamento sobre familiares em cargos públicos — desta vez com filho e irmão, não a esposa. A secretaria mudou. O padrão, não.
Matéria de uma série que não para de crescer
Essa é mais uma da série iniciada pelo portal JC na semana passada (dia). Desde lá, o JC já revelou casos envolvendo vereadores e secretários de pelo menos cinco partidos — PRD, PSD, PP, PSB e, indiretamente via secretaria, o PT — e múltiplas pastas do Executivo municipal: Semsa, Semg, Semtras, Sempta.
O único desfecho concreto registrado até agora foi o do vereador Alaércio Cardoso (PSD), que anunciou a exoneração da esposa após a reportagem do JC — medida que foi oficializada pelo prefeito Zé Maria por meio do Decreto nº 446/2026, nesta terça-feira (12), com efeitos retroativos a 4 de maio de 2026. Os demais envolvidos não adotaram medidas equivalentes.
A vereadora Bárbara Matos (PP) não se pronunciou sobre a filha na Semsa. O vereador Sérgio Pereira (PP) não comentou sobre os três filhos em três secretarias. A vereadora Ivanira Figueira (PSD) não respondeu sobre os dois filhos na Semg.
O vereador Enfº Joziel (PRD), que atacou pessoalmente o jornalista Jeso Carneiro em vídeo, também não adotou nenhuma medida — e sua esposa permanece no cargo.
Outro lado
O JC entrou em contato com o gabinete do vereador Mano Dadai (PSB) para colher sua manifestação sobre as admissões de Yanglesson da Mota Mattos e Yonyer Kennedy Santos Matos na Sempta. Ele optou pelo silêncio. Ainda assim, o espaço ficará aberto em caso dele mudar de ideia.
O portal também aguarda posicionamento da Prefeitura de Santarém e da Secretaria Municipal de Portos e Transporte Aquaviário sobre os critérios adotados para as nomeações.
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