
Há um pacto silencioso que firmamos toda vez que abrimos um livro de poemas: esperamos que a palavra nos atravesse. Confiamos que, em algum momento da travessia, a sintaxe ceda, a epifania estale e o verso ilumine alguma penumbra do nosso intelecto.
Mas o que acontece quando o pacto é quebrado? O que sobra quando o leitor se entrega, mas o poema se recusa a abrir as portas?
Foi o que me ocorreu no habitual percurso das leituras matinais, ao esbarrar em uma poesia de Cecília Meireles, uma das publicadas na obra Vaga música. O poema trazia um nome revelador: Da bela adormecida. E, fazendo jus a ele, o seu significado decidiu não despertar para mim.
O sentido dele continuou em sono profundo, encapsulado sob a métrica.
— ARTIGOS RELACIONADOS
E quando a poesia, água mole em mim pedra dura, bate tanto e não fura? Uma, duas, três leituras, e não fura?
O incômodo literário deu lugar a um impasse quase físico. O sólido poema rola, rola. É água mole, tem ritmo, é banhado na cadência ceciliana. Contudo, os seus versos longos batem na pedra dura, e o que ecoa não é a revelação, mas o impacto surdo da incompreensão. O barulho da dura e intransponível passagem é que dura.
A fricção literária, a que habitualmente alarga a mente e gera o gozo estético, se faz instransponível. Eu, leitor dura pedra, versos moles batem e não fratura. É um vai e volta entre estrofes exaustivo, o leitor enlouquece, aquece, na ânsia de decifrar a cecília adormecida, mas os versos águas não arrefecem. Eles mantêm a sua temperatura, sua fluidez, indiferentes, alheios ao meu esforço de arrancar-lhes a alma.
Aceitar a opacidade de um verso exige maturidade. A sociedade nos condiciona a exigir respostas claras, rápida, utilitárias de todas as coisas, mas a literatura reserva-se o direito de manter os seus feitiços. Nem toda d’água tem a obrigação de perfurar o granito em uma única manhã.
A adormecida ceciliana preferiu o seu leito de mistério à claridade da minha interpretação.
O que me resta, então, como leitor, forjado no hábito de espremer o sumo das palavras? Resta-me converter o intransponível em literatura.
Fazer da própria barreira a matéria-prima de um “pobre poema” ou uma crônica sobre essa impotência. Pois, no fim das contas, a equação se resume a uma constatação inevitável diante dos clássicos insondáveis: cabeça dura, verso mole, vida curta.
Que venha a próxima página!
∎ Jeso Carneiro, jornalista paraense, é editor-chefe do portal JC. Esse é mais um artigo centauro – a dor, a ideia e o suor são estritamente humanos; o ordenamento estrutural teve suporte de Inteligência Artificial. Leia o manifesto do centauro.
Leia também dele, mais recente: Música no mármore: o refúgio dos vivos entre os mortos e O sumo e o bagaço do homo redes sociais.
O JC mais perto de você! 📱
Gostou do que leu? Siga nossos canais e receba notícias, vídeos e alertas em primeira mão:
Sua dose diária de informação, onde você estiver.
Deixe um comentário