Herdeiros da Corte

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por Helvecio Santos (*)

Blog do Jeso | Helvécio SantosFugindo de Napoleão Bonaparte que invadira Portugal, em 1808, a corte portuguesa aportou na cidade do Rio de Janeiro. Neste Paraíso Tropical, desapossou imóveis residenciais para abrigar a multidão que acompanhava o príncipe fujão, aproximadamente 15.000 “acompanhantes” que num simples PR colocado no frontal da casa, oficialmente “príncipe regente” ou, como o povo traduzia, “ponha-se na rua”, logo conseguiam um teto.

Creio que esse ato foi a mais incisiva demonstração de que o poder pode tudo, podendo até fugir à ortodoxia, como foi o caso da Quinta da Boa Vista, residência oficial do Príncipe Regente, mimo feito pelo maior mercador de escravos da época.

A nossa história é prenhe de casos idênticos, abusos, por extensão, razão porque penso que ainda percorreremos um longo caminho na luta por um Brasil melhor, a despeito do barulho ouvido nas ruas recentemente.

Nossos dirigentes, em qualquer nível dos três poderes, tão logo alcançam a ribalta, acham-se diferenciados do povo e com “realeza” se comportam, bastando para isso ver a penca de assessores que cerca um vereador de qualquer cidadezinha do interior.

Esse “fazer-se diferente” encontra eco no atacado e no varejo, uma forma de isolá-los no olimpo, diferentemente até do que acontece em países que estão anos luz à frente.

Querem ver?

O presidente dos Estados Unidos mora e trabalha na Casa Branca. No nosso “Quinto dos Infernos” temos o Palácio do Planalto, d’Alvorada, do Itamaraty, o que é replicado nos estados e até na futura capital do Estado do Tapajós. Aí está o Palácio Jarbas Passarinho que, penso, pela quantidade de buracos na nossa cidade e pelo que é dito do solo da Lua, seria mais adequado se chamar Casa da Lua. Não?

Palácio é lugar de reis, rainhas, nobreza. Será que assim se acham?

Também é construção suntuosa e aí eu pergunto: será que à vista de tanta carência, precisamos de um palácio? Tanto no nome quanto na suntuosidade?

Como o papa está na moda, vale a comparação: em sua posse nossa presidente levou uma comitiva que ocupou 52 suítes em um hotel de luxo em Roma. Ao contrário, o sucessor de Pedro veio ao Brasil e ocupou a casa cardinalícia do Sumaré e, pelo que foi dito pelas freiras que lá prestavam serviço e publicado nos jornais, arrumava sua cama e preparava seu café.

No Judiciário também cabe a comparação com o gigante da América do Norte.

Lá existe juiz da Suprema Corte que, pelo que li, vai para o trabalho dirigindo seu próprio carro e tem cinco assessores. Aqui? Inúmeros assessores e carro oficial com motorista. Com esse e outros aparatos, não poderia ser juiz. Ministro é mais pomposo!

No Legislativo? Bom! É excelência pra cá, excelência pra lá, carro com motorista para líder da maioria, líder da minoria, presidente de comissão, idem para 1º, 2º, 3º, 4º, etc, etc, vice presidente, idem para tantos secretários, e o que mais a imaginação possa alcançar. Pelo andar da carruagem, será que um dia ouviremos excelência para alguém preso e o carro oficial à espera da excelência na porta do presídio?

E aqui eu pergunto: nestes tempos de barulho nas ruas, será que ao invés de aumentar o preço da gasolina como o governo já anuncia, não seria mais prudente diminuir o custo da máquina estatal com manutenção? Também, se os componentes dos três poderes usassem carro próprio sem cota de gasolina, a economia seria bilionária.

Ah! A justificativa oficial para o aumento anunciado é que o dólar está subindo muito e a gasolina precisa acompanhar esse aumento. Mas o que uma coisa tem a ver com a outra? O Brasil não é autossuficiente em petróleo como nossos dirigentes cansam de propalar aos quatro ventos?

Voltando ao assunto, e em nossa Santarém qual a última “realeza”?

Pasmem, o cúmulo da brincadeira de mau gosto é uma redoma de vidro colocada na Câmara de Vereadores para separar a galeria, leia-se povo, do plenário, leia-se, vereadores.

Bom! Mas essa casa não é do povo e os vereadores não são os representantes deste mesmo povo? Não consigo entender e acredito que qualquer mortal minimamente antenado também não conseguirá. Creio que a colocação da tal redoma é uma leitura equivocada da realidade em qualquer momento e muito mais no momento atual. Também não seria demais lembrar que humildade é uma das qualidades do homem público, mas parece que foram lições não aprendidas de Francisco, tanto o santo quanto o papa.

A propósito, enquanto o papa mandou tirar os vidros do papa móvel para ficar mais perto do povo, a atitude dos edis da Terrinha é em sentido contrário.

Será que nossos vereadores são mais importantes que o Papa e não sabemos?

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* Santareno, é advogado e economista. Reside no Rio de Janeiro e escreve regularmente neste blog.


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É advogado e economista santareno, residente no Rio de Janeiro. Ex-jogador e torcedor do São Francisco.

2 Responses to Herdeiros da Corte

  • Parabéns por seu texto objetivo e claro, revelando com bastante coerência aquilo que nós “simples mortais” também achamos desses “herdeiros da Corte” espalhados por aí.

    Prof. Edna Marzzitelli
    ICED/UFOPA

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