A minha tragédia
Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!
Ó minha vã , inútil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida!…
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade!…
Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me meiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém , de ser assim!
Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!…
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De Florbela Espanca, poeta portuguesa.
Jeso, obrigada por nos presentear Florbela. Melhor comentário para ela, somente ela. Um bom dia.
Sem remédio
Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou…
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!
Lumar, Florbela é o fado em versos. Adorável, instigante, avassalaDOR.
Lindo e profundo…ou não fosse Florbela Espanca!