Amazônia no centro do mundo e a maior riqueza do Brasil. Por Raimunda Monteiro

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Amazônia no centro do mundo e a maior riqueza do Brasil. Por Raimunda Monteiro
Caminhão com tela exibe imagem e mensagens sobre desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira pelas ruas de Los Angeles (EUA). Foto: Divulgação

Na geopolítica do mundo Ocidental, a Amazônia foi considerada historicamente uma periferia, rica em matérias-primas úteis ao desenvolvimento industrial dos países do Norte, mas um lugar selvagem, dispensável.

O complexo de periferia foi fortalecido pelo abandono e/ou subordinação em relação às regiões desenvolvidas do país. A crise climática coloca a Amazônia no centro das soluções na redução de emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE), mas devemos reivindicar estar no centro das economias verdes e da indústria sustentável.

Secularmente somos vistos como fronteira aberta, a partir das regiões mais dinâmicas do país. Chegou a hora de virarmos o olhar e ver o Brasil e o mundo industrializados como fronteira de economias e modos de vida centrados em sistemas de vida saudáveis, num século que pode ter nos ecossistemas protegidos e/ou utilizados de forma racional e inteligente,  o maior capital. 

Pensamentos com esses agitaram minhas duas últimas semanas, como professora e pesquisadora do magistério superior. Comento aqui três fatos inter-relacionados que detiveram minha atenção.

O primeiro foi a apresentação presencial do livro, de minha autoria como pesquisadora, Amazônia: espaço-estoque, a negação da vida e esperanças teimosas[2]. O segundo a entrega da carta Seres e saberes da Amazônia são riquezas do Brasil[3] aos pré-candidatos Lula e Alckmin, em São Paulo, no dia 4 de junho, e o terceiro, o trágico desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillps.

No meu livro os três assuntos se conectam como análise histórica, sendo que parte do mesmo aborda a tormenta dos anos do governo brasileiro atual, que reedita a mesma concepção dos militares há 50 anos, de que os recursos naturais da Amazônia devem ser explorados a qualquer custo, tendo na violência contra povos que habitam regiões ricas em matérias-primas uma marca recorrente. É sobre isso, o sentido de um espaço-estoque e a negação da vida, humana e dos bens da natureza.

Sobre os espaços-estoque, sigo uma gama de estudiosos sobre a Amazônia, na visão de que é funcional ao sistema industrial que depende de insumos a baixo custo, manter a região como um espaço-estoque de matérias-primas minerais, florestais, aquáticos e de solos agricultáveis – para o mercado mundial de commodities[4].

Não é acidental que a região não tenha, ao longo de 60 anos de integração à dinâmica industrial do país, a partir da abertura da rodovia Belém-Brasília, diversificado sua base industrial utilizando de seu amplo portfólio de oportunidades. [5]

O atraso industrial não é resultado de inferioridade nas habilidades industriosas de nossos  povos. Antes, é funcional à um sistema que se beneficia dos ganhos nas trocas desiguais de matérias-primas in natura devolvidas em forma de produtos industrializados com alto valor agregado.

Quando os europeus chegaram à Amazônia, éramos povos em estágios diversos de desenvolvimento tecnológico, econômico e político. Em que estágio estaríamos se aquelas relações internas na Pan Amazônia  não tivessem sido interrompidas pelo genocídio e escravidão?

Trazendo para os dias atuais, fatos recentes no interior do Pará, como a criação das duas universidades federais (Ufopa e Unifesspa), ampliação e interiorização dos institutos federais e aumento considerável de cursos de graduação e pós-graduação, a partir de 2009, descrevem uma nova rota.

A partir de 2016, com a emenda do teto dos gastos, que freou investimentos, verifica-se  o aumento da evasão de estudantes, paralisação de laboratórios e desestímulo por falta de bolsas. Se continuar esse quadro, a recuperação será lenta para uma  Amazônia que já sofria um atraso de cerca de quarenta anos na oferta de ensino superior e de suporte para o desenvolvimento científico no seu vasto interior.

A negação da vida se refere à obtenção, por determinados setores da economia,  dos bens  públicos ou de uso comum, os bens da natureza (água, solos, subsolos e florestas) por meio da violência. Uma sanha de lucro a qualquer custo e sempre, no menor tempo possível, que ceifa vidas e degrada as condições ecológicas tão caras à reprodução sistêmica da vida.

A violência no campo e nas florestas aumentou exponencialmente, conforme relatório da CPT Conflitos no Campo Brasil 2021[6]. São assassinatos de líderes camponeses, religiosos, servidores públicos, indígenas e jornalistas. Bruno Pereira e Dom Philips, até prova em contrário, podem estar nessa lista de terror.

Quantos servidores da Funai, do ICMbio, do Ibama e dos órgãos de segurança se viram ameaçados nessas regiões quentes das disputas de recursos e territórios e tiveram que sair de suas bases por ameaças de morte? Quantos jornalistas ou pesquisadores foram inibidos em suas atividades profissionais por ameaças de morte?

No livro conto casos emblemáticos de genocídio indígena com a abertura da Transamazônica paraense, em particular sobre os Parakanã e os Arara. Mas, trago à tona as ameaças e desterritorializações ocorridas nos duros anos do governo atual.

O ataque  aos ativos florestais e minerais presentes em Unidades de Conservação (UCs), territórios indígenas, quilombolas e de agricultores familiares em assentamentos têm no Executivo federal o favorecimento da ganância, o aval à violência e à poluição em larga escala dos rios e solos.

Infelizmente, a semana que termina, traz o peso do desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips, reafirmando o horror da negação da vida, mais uma vez.  Bruno é de uma geração jovem de indigenistas que luta pela integridade dos territórios de índios isolados. Phillips escreve sobre esses anos tenebrosos para a democracia do Brasil e um livro sobre o ataque contra as populações indígenas no governo atual. 

O indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips, rezemos para que ainda estejam vivos, podem estar entre as vítimas da política de uma economia criminosa que marca o tipo de governo que tivemos há 50 anos e que, reedita a pior característica do que parte significativa dos militares brasileiros têm demonstrado apoiar, contra sua própria pátria. Se não diretamente, mas sim fazendo vistas grossas à luta desigual que se trava nos confins das florestas.  

As esperanças teimosas tratam da persistência dos fazeres contra-hegemônicos, destacando as iniciativas econômicas  e socioculturais que utilizam os recursos da natureza a favor da vida.

A elevação da renda do extrativismo, dos sistemas agroflorestais, de uma pecuária manejada, da bioindústria de fármacos, alimentos saudáveis, da produção florestal com reflorestamento e diversas oportunidades virtuosas são percepções antigas e atuais  de um caminho que a Amazônia deve trilhar.

Os látexs,  as castanhas, o cumaru, o piquiá, a andiroba, a copaíba, as fibras vegetais, as cascas, galhos, folhas e óleos diversos compõem um universo de texturas, aromas, resinas, corantes, essências fitoterápicas, saponáceas… uma infinidade já conhecida ou ainda por desvendar ou validar pela ciência.

As riquezas naturais das águas, tanto de espécies vegetais como da rica biodiversidade da fauna também representam um manancial de aproveitamentos em diversos ramos para além da alimentação humana. E o que dizer das ricas e abundantes terras de várzeas…

Homem no interior da floresta amazônica olhar para o alto com atenção. Foto: Reprodução

Essa economia hoje  extrativista, amanhã, provavelmente, em  sistemas mistos de extração e plantios pode vir a gerar renda em variados setores das economias locais e nacional. Num mundo comandado pelas trocas monetárias,  esses recursos tão ricos, e muitos tão singulares como as riquezas culturais e paisagísticas, podem se converter em renda, conforto e bem-estar para as populações rurais e urbanas da Amazônia,  sem ser destruídas pelo fogo e pela redução das espécies animais que as dispersam.

A entrega da carta SERES E SABERES DA AMAZÔNIA SÃO RIQUEZA DO BRASIL para o ex-presidente Lula e ao ex-governador Alckmin, está relacionada às esperanças dos povos amazônicos que têm consciência dos riscos e oportunidades que nos rodeiam.

Onze temas para a retomada das políticas socioambientais, culturais, econômicas, de infraestrutura, de governança regional e de um financiamento do desenvolvimento voltado para a sustentabilidade orientam um caminho em que a Amazônia seja a base da reindustrialização do Brasil.

A teimosia se prolifera em uma quantidade enorme de iniciativas de grupos, coletivos, partidos progressistas, comunidades científicas, articulações de organizações de base e organizações nãp-governamentais, escrevendo cartas, manifestos e propostas para Lula e Alckmin na esperança de que o atual ciclo marcado pela violência e  degradação humana e ambiental pare.

Dentre as propostas em debate se destacam o pagamento de serviços socioambientais para promover uma agricultura limpa, com base na agroecologia e em sistemas agroalimentares que produzam comida para alimentar o povo amazônico e brasileiro.

O  reflorestamento como uma economia rentável e em larga escala; a transição ecológica na base da reindustrialização brasileira, tendo na Amazônia, o locus da sociobioeconomia; entre outras medidas estruturais  que estanquem a sangria da violência e da degradação e coloquem a Amazônia no centro do desenvolvimento do país, como o Nordeste e o  Centro-Sul foram o foram  nos séculos passados.

Nós, que vivemos no centro da Amazônia e sofremos as consequências da especulação imobiliária, da poluição e do abandono das políticas socio territoriais, bem-viveres e ambientes saudáveis, devemos nos posicionar pela vida. E estar presentes nas proposições que possam influenciar o próximo governo, com vistas a gerar empregos verdes, melhorar a vida nas cidades e colocar o Brasil na liderança das agendas positivas globais.


[1] Professora do curso de Gestão Pubica e Desenvolvimento Regional da Ufopa, Dra. Em Ciências: desenvolvimento socioambiental, Mestre em Planejamento de desenvolvimento e graduada em jornalismo.

[2] Este livro compõe um conjunto de reflexões acerca dos 50 anos da colonização, que teve das rodovias federais, vetores de ocupação sob o regime militar das décadas de 1960/70.  Como produto acadêmico, o livro resultou do  projeto: 50 ANOS DE COLONIZAÇÃO, INSURGÊNCIAS, AFIRMAÇÃO E EMERGÊNCIAS TERRITORIAIS NA AMAZÔNIA, sendo este o  compromisso assumido com o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, com a orientação de Boaventura de Sousa Santos. Como desdobramento desse projeto, está em curso a pesquisa:  50 Anos de Colonização na Amazônia: Testemunho Multicultural de Mulheres, atualmente compartilhado com pesquisadoras (as) do curso de História da Ufopa, do Campus da UFPA de Altamira e da UNIFESSPA.

[3]  Resultado da contribuição de cerca de 900 participantes e cerca de sessenta palestrantes, promovidos pelo Fórum da Amazônia, vinculado à Fundação Perseu Abramo, Instituto Lula e Partido dos Trabalhadores. Acadêmicos, gestores públicos, lideranças de organizações sociais e parlamentares de todos os estados da Amazônia se expressaram nos debates virtuais.

[4] Mercadorias exportadas com baixo valor agregado, cujos preços são determinados pela procura  nos mercados globais. A exportação de matérias-primas gera emprego nos países que beneficiam,

[5]Desenvolvo esse assunto em artigo a ser publicado a partir de agosto em um livro do Centro de Estudios Brasileños da Universidade de Salamanca, na Espanha, em parceria com Esther Albuquerque e com Itajaí Albuquerque.

[6] https://www.brasildefatope.com.br/2022/04/12/dados-de-relatorio-da-cpt-apontam-aumento-de-94-em-conflitos-no-campo-destaca-agente-pastoral, acessado em 08.06.2022.

Raimunda Monteiro
Raimunda Monteiro

É professora doutora santarena, ex-reitora da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará), a primeira eleita pelo voto direto da instituição a ocupar o cargo.

Leia também de Raimunda Monteiro: O desafio da expansão do ensino superior e a necessidade de amplo apoio político.

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