Santarém e a COP 30: teremos protagonismo local? Por Jackson Rêgo Matos

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Santarém e a COP 30: teremos protagonismo local? Por Jackson Rego Matos
Lula e Helder no lançamento da COP 30 em Belém. Foto: Agência Pará

Com a coordenação da vice-secretária-geral da ONU, Amina Mohammed, e do governador Helder Barbalho, presidente do Consórcio Amazônia Legal (CAL), Santarém (PA) irá sediar neste dia 2 de agosto de 2023 o encontro que vai oficializar o Fundo Multi-Doadores das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável na Amazônia Legal (MPTF da Amazônia).

Isso merece muitas reflexões sobre a participação local. A prioridade do mecanismo financeiro é beneficiar os grupos populacionais mais vulneráveis da região amazônica, com ações de geração de alternativas econômicas sustentáveis, de proteção de seus meios e modos de vida e de garantia de sua segurança física, sanitária, energética, climática e alimentar.

Marcado para iniciar as atividades do grandioso Centro de Convenções Sebastião Tapajós, espaço mais que necessário para todo o oeste do Pará, fica a pergunta sobre o evento: os principais interessados neste mecanismo serão protagonistas?

Como filho, neto e bisnetos da família que tem o nome do rio Tapajós, mesmo sendo hoje professor titular da Ufopa, que tem uma enorme comunidade de etnias indígenas e de quilombolas, faço essa análise, pois vejo muito distante a possibilidade de inclusão de boa parte de uma população altamente ameaçada, por sua invisibilidade e inviabilidade.

Os caboclos, ribeirinhos, nativos filhos e filhas de uma Amazônia bela, amada e conflitada têm poucas chances ou quase nenhuma possibilidade frente aos grandes interesses, que somente se importam pelos nossos recursos e quase nunca observam a nossa cultura e identidade. Desta forma, a nós, os descentes de uma ancestralidade de 11.200 anos, cabe a teimosia de dizer quem somos nós e como queremos dialogar, para traçar o presente que caibam muitas gerações.

O processo que tem causado esse estrangulamento nunca antes visto não só na região do Tapajós, mas de todas as amazônias, tem nome e sobrenome, mas domina e pode esvaziar o grande motivo da COP 30, que é o que fazer coletivamente para combater o que nos frita.  

Chegamos a vislumbrar  a  possibilidade de um grito que precisa ser forte e talvez único para tentar salvar e proteger o que ainda existe, controlando a perda da biodiversidade, buscando as políticas para recuperar  florestas, as águas, o ar, os espaços e ressignificar a vida, não só na Amazônia, mas a de todo o planeta.

Mas as forças que existem, que devastam, digladiam entre si e destroem com a força da devastação mostradas na grande mídia. E o que precisa ser reconciliado?

De um lado, o grande capital continua como o Titanic em direção ao grande iceberg. De outro, o Estado ainda inerte, olhando até a onde vai dar. Nas pontas, o povo e aldeia local, sempre de fora das decisões, muitas vezes com a memória multifacetada pela ilusão, pelo improviso e pela vingança política que destrói o bem para recomeçar pelo o que ainda é incerto.

Agora será diferente? Ou será o mesmo jogo dos grandes que muito tem e deixam a grande maioria que nada tem de fora?

Fizemos no Tapajós quatro encontros debatendo com os movimentos sociais e culturais nossas pautas comuns. Debatemos bioeconomia da floresta em pé, transformações na economia, educação, cultura, saúde e, por fim, territórios e resistência com colegas do Equador, Colombia, Bolívia e outras regiões como com colegas da Universidade Federal do Amazonas.

Organizamos junto com nossas universidades locais, com o Instituto Sebastião Tapajós e o Nierac (Núcleo da Promoção da Igualdade Étnico Racial, do MPPA), feiras culturais e agroecológicas. Organizamos ações de saúde ribeirinha de muito nível, tendo a enfermeira Franciane Matos à frente de equipes de professoras e discentes do Iespes (Santarém), entre outras iniciativas.

No entanto, observamos que o encontro com a subsecretária da ONU privilegia as mesmas classes e dá ênfase aos que comandam os setores estabelecidos, forçando os movimentos locais a realizarem uma manifestação pacífica com a pauta: direitos dos povos da Amazônia e Desenvolvimento Sustentável do lado de fora do centro de convenção.

Assim, vamos vendo mais uma vez, as mesmas cantigas e agora as novas de fora que não expressam nosso canto. Nilson Chaves, cantor e compositor da terra, expressou depois de enfrentar tanta burocracia para poder participar dos diálogos que vai desistir, prefere ficar de fora observando. Espero que ele, pela expressão que representa, consiga vencer as barreiras e possa participar com sua voz e seu canto.

Muitos de nossos artistas, intelectuais, cientistas e acadêmicos poderão participar. Mas é um dever moral e ético, incentivar e motivar o povo, as populações tradicionais, a periferia, os mais simples e humildes para participarem de todo o processo e em todos as pontas possíveis. São eles os que mais estão sofrendo com todo o calor, toda secura e mudanças que já estamos vivendo nas cidades e sentido na pele.

São eles certamente que sabem do cotidiano e da realidade. São eles que tem mais a dizer, nos ensinar e mostrar  o que fazer para vencer as mazelas impostas por quem não sabe o que é so-li-da-ri-e-da-de. Esses e nós não podemos ficar de fora.

Jackson Fernando Rêgo Matos

É professor da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará) em Santarém. Tem doutorado em Políticas Públicas pela UNB (Universidade de Brasília). É também membro do IHGTap (Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós)

    

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