50 anos do golpe: uma narrativa inconclusa…

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por Samuel Lima (*)

A História é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquele que a negue
(Chico Buarque e Pablo Milanés)

Blog do Jeso | Samuel Pantoja LimaA data parece distante no calendário das horas, mas no tique-taque da história é ainda um fragmento de tempo, uma narrativa sem ponto final: 50 anos de uma longa e nefasta ditadura militar, cujos saldos não se contam apenas entre os 475brasileiros e brasileiras, assassinados e desaparecidos (a lista pode ser acessada aqui: https://migre.me/iA7pm).

No contexto da Guerra Fria, daquele promissor começo de anos 1960, o golpe perpetrado pelas forças reacionárias, executado pelos militares (com apoio logístico dos Estados Unidos), jogou o país nas trevas do atraso institucional, político, cultural, educacional, científico por mais de duas décadas. Trata-se de um prejuízo que me parece impossível de mensurar.

Nestes mais de cinco séculos de história, o país não chegou ainda aos 50 anos de vida democrática (os mais longos foram de 1946/1964 e agora, a partir dos anos 1990, com a posse de Fernando Collor de Mello), ainda experimentando e consolidando parcos mecanismos da democracia liberal clássica: o direito de votar e ser votado, as liberdades civis básicas, liberdade de expressão e de imprensa, alguns direitos sociais, bem como a existência de mecanismos de controle e transparência da gestão pública entre outros. É do jornalista Mino Carta uma síntese precisa (CartaCapital, ed. 02/04/2014: p. 36):

O Brasil padeceu de várias desgraças ao longo de cinco séculos. A colonização predatória, a matança dos aborígenes, três séculos e meio de escravidão, uma independência sem sangue, uma proclamação da República perpetrada por obra de um golpe de Estado militar, a indicar o caminho convidativo daí para a frente. O entrecho de desgraças, entre elas a carga mais deletéria representada pela escravidão, cujos efeitos permanecem até hoje, influenciou profundamente a história do século passado (Leia a íntegra do texto aqui: https://migre.me/iA7MG).

Nas páginas e espaços da mídia há uma intensa disputa de sentidos sobre o suposto legado da ditadura militar. Os golpistas na verdade não surgiram, feito raio no céu azul, em 31 de março de 1964.

Protestos_contra_regime_militar

A materialização do golpe, naquela noite de 31 de março, pelas tropas do general Olympio Mourão Filho, com apoio decisivo dos governadores golpistas Carlos Lacerda (RJ) e Magalhães Pinto (MG), era mais uma tentativa de tantos golpes frustrados em 1951, 1955 e 1961 – quando da renúncia de Jânio Quadros e a tentativa de impedir a posse de Jango Goulart.

Do lado dos militares golpistas e seus arautos na mídia conservadora, falácias são usadas fartamente como aquela que prega o tal “perigo comunista” como pretexto ao golpe. Almino Afonso, ex-líder do PTB no Congresso Nacional e ex-ministro do Trabalho de Jango, cassado pela ditadura, refuta categórico esse tipo de argumento: “Os comunistas não tinham como chegar ao poder. Por eleições, nem falar; por luta armada, nem falar; muito menos em aliança com Jango. A que título um proprietário de terras faria aliança que levasse ao comunismo?” (Valor Econômico, Caderno “Eu & Fim de Semana, ed. 14 a 16/03/14, p. 10), indaga.

O professor Luiz Roncari (USP), na mesma edição do Valor Econômico (p. 34-35), vai mais longe em sua inquietante análise, que percebe similitudes entre 1964 e 2014, a julgar pelo comportamento de alguns agentes como a imprensa tradicional, setores militares (aposentados) e fragmentos da classe média. Para Roncari,

A violência do golpe de 64 não se restringiu ao campo político-institucional, foi também a demolição de um universo cultural que se estruturava: escolas, associações, institutos, emissoras de rádio e televisão, universidades, revistas, jornais, editoras e os seus respectivos corpos técnicos de profissionais, como jornalistas, professores, escritores, cientistas, editores e pesquisadores. Nada ficou incólume à brutalidade.

É preciso reverenciar de maneira muito especial, nesta passagem dos 50 anos do golpe militar de 1964, a memória, a luz, a vida e o gesto de luta pelas liberdades democráticas que, entre tantos outros lutadores, os 152 cidadãos e cidadãs brasileiros, cujos corpos continuam desaparecidos.

A face mais hedionda do regime negou aos seus familiares o sagrado de direito de prantear seus mortos, dando-lhes um funeral digno. Por isso, me causa tanto asco a versão dos embusteiros, generais de pijama e torturadores, que buscam a todo custo justificar o golpe alegando uma guerra imaginária contra “perigosos comunistas”.

Só começo de março de 2014, por exemplo, a família do deputado Rubens Paiva teve confirmado aonde os agentes do regime podre (os facínoras, como se lhes chamou um certo doutor Ulysses Guimarães, no ato de promulgação da Constituição Federal, em 1988) ocultaram seu corpo.

Entre os porta-vozes da ditadura, destaca-se o general Leônidas Pires Gonçalves, ex-ministro do Exército do governo José Sarney.Não obstante toda a verdade factual rigorosamente apurada e comprovada, o jornalista Vladimir Herzog continua sendo “um suicida”, na versão propalada pelo militar.

Há menos de dois anos, o general vociferava, via imprensa contra a criação da Comissão Nacional da Verdade: “Se quiserem fazer pressão no Supremo, o Poder Moderador tem que entrar em atuação no país”. Gonçalves se referia ao debate sobre a revisão da Lei da Anistia para permitir o julgamento e punição dos torturadores. O tal “poder moderador” seria naturalmente os militares e sua longa ficha de desserviços prestados à democracia.

Os raios de luz insistem em desfazer as nuvens de chumbo no céu de estrelas da Terra Brasilis. Cinco décadas depois, a esperança é que os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, a serem divulgados em dezembro de 2014, possam resgatar informações fundamentais dessa longa e inconclusa narrativa, iluminando novos caminhos. Retomo a voz lúcida e profunda de Mino Carta (cit.):

Sempre que ouço pronunciar a palavra redemocratização padeço de um sobressalto entre o fígado e a alma. É justa e confiável a democracia em um país que ocupa o quarto lugar na classificação dos mais desiguais do mundo? Os senhores do privilégio querem é uma democracia sem povo e um capitalismo sem risco. De qualquer forma, à democracia não basta promover eleições periódicas, mas algo é mais grave, nesta instância do pós-ditadura: o espírito golpista ainda lateja nas entranhas da sociedade, como vocação inapagada e impulso natural.

Que saibamos regar, com delicadeza e senso histórico, essa ainda frágil flor democrática para que nossos filhos, netos e gerações possam colher, flores e frutos de um país socialmente mais justo, politicamente igualitário e humanamente mais fraterno e solidário. Ditadura, nunca mais! Segue a vida, e a luta.

* Santareno, é jornalista, professor-adjunto da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (FAC/UnB) e pesquisador do Núcleo de Transformações sobre o Mundo do Trabalho (TMT) do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política (UFSC). O artigo acima foi publicado originalmente no blog do Manuel Dutra.


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4 Responses to 50 anos do golpe: uma narrativa inconclusa…

  • A resposta se os militares agiram certo ou errado não se sabe ao todo. Imagina-se os atos de alguns lideres numa eventual ditadura de esquerda tendo como referẽncia as lambanças que alguns fizeram no regime democrático.

    Discutir ideologia não leva a lugar nenhum…….O estado ideal é o de bem estar social (Noruega, Suécia…) não isso que se prega no purgatório chamado américa latina

  • Texto muito bom; faltou apenas citar a Operação Popeye, que desencadeou esse famigerado golpe. Sou um dos que acreditam que os culpados jamais serão julgados e condenados porque a Lei da Anistia perdoou culpados e inocentes de seus crimes. Essa dívida será eterna, assim como a escravidão e o sistema colonialista que ainda estão presentes em nossa sociedade, mas mesmo assim o trabalho da Comissão da Verdade continua sendo muito importante para ao menos indicar os culpados e inocentes.

  • Todas as ditaduras são nefastas, restringem o direito sagrado da liberdade, entretanto, são milhares os que abominam a ditadura no Brasil mais aplaudem a ditadura em Cuba e idolatram seus ditadores.

  • Parabêns Mestre/ Professor Samuel, sempre sereno, dominador, e acima de tudo responsável nos assuntos abordados. nos enche de orgulho ter um conterrâneo de valôr refinado nos temas tratados no nosso dia a dia. quem tem saudades da ditadura militar? só a globosta.

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