por Joaquim Onésimo Barbosa
Quando o sociólogo francês Pierre Bourdieu publicou o livro “A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino”, em parceria com Jean Claude Passeron, pesquisa sobre o sistema de ensino francês, mas que não soa tão diferente do nosso, em que destaca que a escola é a maior e mais fiel reprodutora das ideologias do Estado, do Poder, ele foi criticado e rejeitado por muitos, educadores principalmente.
Suas teorias, no Brasil, demoraram para serem aceitas, algumas aceitas em parte, e até hoje pouco recebidas pelos centros educacionais, embora já bastante debatidas por sociólogos e por outros estudiosos interessados em conhecer as ideias do professor da cadeira de Sociologia da Escola de Altos Estudos Franceses.
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Para Bourdieu, toda ação pedagógica é obviamente uma violência simbólica, enquanto imposição, por um poder arbitrário, de um arbitrário cultural.
E mais, segundo o sociólogo, a escola é o maior espaço de conservação dos preitos de distinção social, pois, legitimamente, constrói as bases das desigualdades sociais e sanciona a herança cultural pinçada desde as ideias que os iluministas imaginaram como um modelo de educação em que o professor fosse o maior e mais fiel reprodutor das ideologias do Estado, fornecendo ao governo as formas de seleção, de marginalização, de coerção e de afrontamento de que se valem os do poder para impor suas ideologias.
Lembra-nos Bourdieu de que “a ação pedagógica escolar reproduz a cultura dominante, contribuindo desse modo para reproduzir uma estrutura de relações de força, numa formação social, onde o sistema de ensino dominante tende a assegurar-se do monopólio da violência simbólica legítima”.
Essa coerção pedagógica se dá, na visão de Bourdieu, na medida em que se tenta impor uma ideologia do poder, que se camufla nas várias atividades que os currículos escolares acabam por divulgar, mascaradamente, sob a forma de promoção do civismo e da formação da cidadania, ou seja, a autonomia e a neutralidade da escola, a que tanto se referem “os donos do poder”, em tese, jamais existiu e, certamente, nunca existirá, pois a escola colabora, de forma decisiva, para a transmissão e o aprimoramento da cultura dominante, ou do pensamento de grupos que fortemente influenciam o/no poder.
Para que servem os vários cargos que existem na escola? Qual é o real papel do supervisor escolar, do orientador/coordenador pedagógico, do inspetor disso e daquilo?
Em que tais cargos/funções contribuem para a melhoria da qualidade da educação, ou para diminuir o fosso que se coloca entre o discurso do poder e a realidade em que a escola se encontra?
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Há uma real sintonia entre o papel da escola como promotora de conhecimento, espaço de desfazimento de incoerências e de hipocrisias, ou espaço de liberdade e de aprimoramento de ideias capazes de tornar o homem livre e mais dono de si mesmo, do seu pensar, do seu fazer, do seu agir?, reportando aqui ao pensamento do educador Paulo Freire.
Embora a escola seja reconhecida como o espaço de promoção do saber, da difusão de mensagem pedagógica entre os que a difundem, os professores, e aqueles que a recebem os alunos, o seu limite para isso acaba sendo estabelecido pelo próprio sistema que manipula, impõe e forja a cultura dominante sob a forma de práticas variadas, as quais se metamorfoseiam em “ensino”.
Não cabe à escola questionar, uma vez que quem a observa e a rege é o próprio sistema educacional, vigiado por aqueles que, sempre, representam a ideologia de uma cultura dominante.
Tanto é dessa forma, que os currículos são sempre “jogados” de cima para baixo, numa cadeia onde o mais fraco obedece ao que tem mais força e é o dono de um discurso legitimado, lembrando aqui os teóricos franceses Michel Foucault e Louis Althusser.
As ideias de Bourdieu, embora divulgadas a partir da década de 60 do século XX, parecem vir ao encontro daquilo a que se assiste hoje. A educação, trazendo aqui para o quintal brasileiro, é um jogo de forças, caminho de passagem para se chegar ao poder.
Não é por acaso que aqueles que almejam o poder sempre a colocam em destaque nos seus planos de governo, nos debates entre candidatos a isso ou aquilo, nos meios mais fáceis de contato entre o povo e os governos.
O lema “Pátria Educadora” do atual governo redesenha muito bem isso: o discurso longe da prática, o discurso longe da realidade em que vivem aqueles que fazem a mola da educação mover-se, para que não apodreça ou não deixem que as raízes do fracasso a tomem por completo.
O modelo educacional brasileiro ainda reflete aquele imposto pelos governos de regimes autoritários, traduz a ideologia de um Estado que reflete as ideias de uma cultura dominante. Não há como se negar isso.
Há uma linha entre a educação democrática e a educação opressora, aquela em que o Estado, no papel dito laico, acaba por absorver as ideias de uma minoria que tenta, a todo custo, impor suas ideologias.
A questão de gênero, que se tentou colocar em debate para os currículos escolares foi suprimida por conta das correntes religiosas, que viam o risco de contaminação dos alunos por ideologias que os dessas correntes consideram “repugnantes”, deturpadoras de valores, afronta aos bons costumes.
Confundem filosofia pessoal ou religiosa com políticas públicas de Estado, com permissão ao pensar, à discussão sobre as realidades que saltam aos olhos, mas muitos fingem não perceber e regam ideias como na época medieval, esquecendo-se de que os valores são transmitidos pela família, ou pela própria igreja, já que os desta se colocam como a mão divina e capazes de remover da sociedade toda sujeira que se tenta sair da escola, embora a discussão de gênero, das diferenças, nada tenha a ver com religião, pois sabemos que o fosso que existe entre o pobre e o rico, o negro e o branco, ainda é gritante; os espaços de atuação da mulher ainda são reduzidos diante dos largos acolhimentos ao homem; ou seja, as várias artes de fazer entre os que podem e os que não podem estão fortemente marcadas na sociedade, e é isso e sobre isso que se deve discutir e levar o aluno a pensar. Fechar as portas para uma realidade visível é o mesmo que, como diz o senso comum, tapar o Sol com a peneira.
Quando o Estado cede às pressões de grupos religiosos, que impõem a ditadura do pensar e imaginam a sociedade homogênea, propensa a pensar, a seguir uma ideologia enfraquecida, preconceituosa, ele abre espaço para que ideias de cunho fascistas, homofóbicas, heterofóbicas sejam vistas como normais, levando a sociedade ao mesmo estado que viveu a sociedade irlandesa, quando assistiu a uma guerra religiosa entre protestantes e católicos, numa luta para impor suas ideologias numa sociedade dividida e aturdida por preceitos que deveriam ficar restritos aos espaços religiosos, mas que descambou para as ruas, para os espaços públicos.
A escola é um espaço de diversidade de pensamento, embora fortemente marcada por um pensamento que mira uma ideologia religiosa, no caso brasileiro, a católica.
Não é por acaso que as aulas de ensino religioso, não de cultura religiosa, nas escolas públicas, em sua grande parte, referendam os ritos católicos, as celebrações de datas comemorativas da igreja católica. É uma realidade que não se pode ignorar.
Enquanto ideologias de outras confissões são reprimidas, deixadas de lado, vistas com receio, até mesmo com preconceito por professores, muitos deles pessoas que possuem cargos em igrejas, sejam elas católicas ou evangélicas, uma domina, tem privilégios, outras cambam ao descaso.
Daí, pensar que a escola é democrática, que ela permite a livre expressão do pensamento, é ignorar que as manifestações de grupos minoritários são reprimidas ou ignoradas dentro de um espaço que deveria permiti-las. A escola organiza atividades em que os umbandistas, os espíritas, os do candomblé, os agnósticos, ou de outros pensamentos diversos aos católicos e protestantes possam expressar suas crenças e suas filosofias? De certo, se isso acontece dobra as raras exceções.
Ivan Illich já dizia que a escola mais serve como espaço de separação, de alienação do que de inclusão, de livre expressão. O aluno, a sociedade, aprendem mais sobre liberdade e democracia fora da escola do que dentro dela.
Nossos currículos escolares estão cheios de boas intenções, mas na prática carregam as marcas de uma ideologia que marginaliza, massacra, abomina, cerceia, aliena e expele muitos e absorve poucos.
Ainda há o forte compadrio entre Igreja e Estado, como em outros tempos. Enquanto países que estão no pódio em excelência de educação e ensino destacam-se justamente por permitir que a escola seja o maior espaço de livre expressão, de expressão das várias filosofias: o fazer, o dizer, o expressar-se são regras em países como a Finlândia, a Noruega e a Suécia; já nós, os sedentos por qualidade de ensino e moralidade social, arrogamo-nos a fincar em solo brasileiro as ideologias de um pensamento trazido nas caravelas de Cabral.
Tomaz Tadeu da Silva destaca que, a partir da década de sessenta do século passado, no mesmo tempo em que as ideias de Pierre Bourdieu e Jean Claude Passeron eram levadas às discussões, começavam a ebulir movimentos que buscavam resguardar direitos e espaços.
Entre esses movimentos estão os feministas (que nada tem a ver com homossexualismo como muitas mentes fechadas adjetivam), os movimentos dos direitos civis, nos Estados Unidos principalmente, os protestos contra a guerra do Vietnã, os movimentos de contracultura, as lutas contra a ditatura no Brasil, também surgem ensaios e teorias que colocavam em xeque o pensamento e a estrutura educacional tradicionais, principalmente aquele debatido pelo que, na Inglaterra, se chamou grupo da “nova sociologia da educação”, também têm destaque as ideias de Althusser expostas em seu “A ideologias e aparelhos ideológicos do Estado”, que destaca a escola como o maior aparelho ideológico do Estado, pois atinge, segundo Althusser, a população por grande espaço de tempo; no Brasil, destacam-se as ideias do educador Paulo Freire, que, juntamente com tantas outras entre as já citadas, contrapunham as ideias de aceitação, ajustes e adaptação das teorias tradicionais educacionais desenhadas pelo pelos governos de regimes repressores.
Voltando às ideias de Pierre Bourdieu, para finalizar este texto, é preciso atentar para o fato de que a sociedade reflete, em grande parte, as ideologias da cultura dominante, e isso faz com que quem tem o capital cultural simbólico desponte sobre os que não o têm.
A cultura da classe dominante é a que tem valor, que tem lugar de destaque nas prateleiras dos mercados dos bens simbólicos, ou do capital cultural institucionalizado, em que seus gostos, seus costumes, seus modos de agir, suas artes de pensar e fazer são tomados como modelos a serem copiados ou seguidos pelos que são obrigados a absorverem para si costumes e práticas com que se deparam fora dos seus espaços, mas estampados através dos meios de comunicação e suas ferramentas de forças, como as novelas e séries; agora, como epidemia, os programas e shows da fé, em que se estampam as hibridizações de curas e milagres, por meio das mãos dos mesmos que tendem a influenciar, sob seus argumentos petrificados, sem muita base sólida, mas à base da força, aqueles que dependem do voto de cabresto e trocam-nos pelos benesses tisnados pelo capital cultural econômico, por meio das doações das ofertas e dízimos, para manterem a certeza de suas eleições e influências nos vários órgãos de governos.
Pensar a sociedade que queremos exige que repensemos a educação que temos, e que temos carregado nesses longos cinco séculos de nossa história, forjada ao ferro e ao fogo, sob as ideias de um poder que mais suga do que fortifica e nutre. Querer que a escola seja o espaço de transmissão de ideologia de um ou dois grupos e dizer que ela é a responsável pelas transformações sociais é ignorar que há a multiplicidade de pensamento, que as diferenças são postas à mesa para serem debatidas, discutidas e não deixadas de lado ou jogadas para debaixo do tapete, como se elas não existissem.
Ou repensamos a educação que temos e fortalecemos as bases que somarão às grandes mudanças sociais que à escola se prejulgam, ou, então, continuaremos a arranhar na pedra e veremos sangrar os dedos sabendo que deles não mais do que sangue sairá e osso aparecerá.
Se a própria Igreja, voz maior na manutenção de preceitos ditos morais e éticos, se modernizou, saiu das quatro paredes, dos hinos enfadonhos e hibridizou-se ao som da rumba e do pagode, foi para a televisão, a fim de arrebanhar fieis e o capital cultural econômico, por que então desconsiderar a questão dos gêneros e as diferenças como objeto de estudos e debates em todas as esferas públicas, principalmente nas escolas?
À GUISA DAS CITAÇÕES:
BOURDIEU. Pierre. Escritos de educação. Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani (org.) 16. ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 2015.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Edições 70, 2014.
BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. 2. ed. rev. Porto Alegre: Zouk, 2013.
BOURDIEU, Pierre, PASSERON, Jean Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. 3. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1992.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 24. ed. São Paulo: Loyola, 2014.
ILLICH, Ivan. Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1985.
LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação. 16. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
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º Santareno, é professor da rede estadual de ensino e universitário. Mestre em Sociedade e Cultura na Amazõnia.
Acho que a questão de gênero embora de forma talvez tímida já começa a ser trabalhada nas escolas e em disciplinas como história, geografia e sociologia, por exemplo. Infelizmente a laicidade das escolas vem sendo atropelada por grupelhos ditos católicos e evangélicos que vivem misturando suas doutrinações no espaço escolar e que deveria ser rebatido pelos responsáveis pela aplicação dos preceitos constitucionais.