por Márcio Ékex (*)

Todos os dias antes das seis horas da manhã, abriam as portas da capela de nossa casa. Tia Maria Rosa nos dizia que exatamente às seis horas, quando o sino da matriz tocava, Nossa Senhora entraria nas casas.

Primeiramente recitava-se o Angelus.

– O anjo do senhor anunciou a Maria, e ela concebeu do Espírito Santo…

Depois rezava-se o terço. Nesse ritual compareciam apenas mulheres e crianças. A essa altura, o padrinho e tio Manuel já estavam na rua resolvendo seus compromissos.

Depois fechava-se aquele quarto que seria aberto somente na manhã de outro dia.

Durante os dias santos, a capela ficava aberta o dia inteiro, inclusive para os escravos e empregados que resolvessem rezar. No oratório preto de maçaranduba, quase do tamanho de umas das paredes, observávamos diversas imagens: Santa Rita de Cássia, São José, Nossa Senhora do Desterro, Santo Onofre e até um crucifixo de ouro.

Quando chegava a Semana Santa nossa rotina era modificada. Os adultos não pegavam em dinheiro, as mulheres não lavavam roupas, os escravos não trabalhavam. Éramos obrigados a ficar sentados dentro do quarto.

Comia-se uma vez por dia para se cumprir a obrigação do jejum; e deus o livre de quem comesse carne de gado, estava cometendo pecado mortal.

Na madrugada de Quinta para Sexta-Feira realizavam a Procissão do Encontro. A imagem de Jesus Cristo com a cruz nas costas era conduzida apenas por homens. Nossa Senhora das Dores conduzida pelas mulheres. As duas procissões se encontravam em frente de nossa casa, depois seguia a rua dos Mercadores até chegar á Matriz.

A Sexta-Feira era uma data muito especial. Passávamos o dia vestidos com nossas roupas de festas. Não se chamava nome a ninguém, não se tomava banho no rio, para não se ficar nu um na frente do outro.

Dona Mundica, parteira, vinha para nossa casa e ficava muitas horas rezando ladainhas e contando a vida e mistérios de N. S. Jesus Cristo. Algumas vezes vinham atrás dela para que fosse fazer uma benzição ou puxar alguém desmentido, pois a velha era excelente consertadeira. Mas a mesma se recusava dizendo:

– Diga que vou amanhã, tenho que respeitar o dia santo.

Parece que naquele dia tudo era muito triste. À tarde, minha madrinha e tia Maria Rosa levavam uma mesa e botavam na frente da casa. Era arrumado um pequeno altar com toalha de renda inglesa branca, crucifixo de ouro e a Bíblia sagrada.

Quando vinha a Procissão do Senhor Morto rezavam em nossa porta uma das estações. Durante vários anos minha irmã Leonor participou dessa procissão encenando o papel de Verônica. Com a imagem do rosto de Cristo pintada num lenço branco, ela entoava um canto extremamente mórbido e que fazia muita gente chorar.

No sábado, passávamos o dia inteiro em casa e só saíamos á noite para assistir a Missa de Aleluia e a cerimônia do fogo.

E quando chegava o domingo éramos tomados de tamanha alegria. Jesus Cristo estava vivo, tinha ressuscitado.

O café da manhã era cheio de bolos e doces variados. Na hora do almoço, descíamos para a cozinha; era o único dia do ano que comíamos todos juntos, brancos e escravos…

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* Escritor santareno. O trecho acima faz parte do livro “O Afilhado do Coronel”, ainda inédito, do autor.

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