. A ascensão dos combustíveis fósseis

por Tiberio Alloggio (*)

A transformação das antigas sociedades no moderno e globalizado mundo tecnológico de hoje ocorreu mais rapidamente de qualquer outra mudança já verificada na historia da humanidade.

Em apenas dois séculos, a sociedade humana conseguiu substituir o pequeno mundo antigo das relações agrestes, no moderno e mirabolante planeta totalmente conectado pela tecnologia.

Essa extraordinária aceleração no ritmo das transformações econômicas e sociais só foi possível graça a introdução na sociedade de um novo regime energético, um regime baseado nos combustíveis fósseis.

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Depois do advento do petróleo, carvão e gás a demanda mundial de energia nunca para de crescer. E desde então aumentou mais de 70 vezes. Apenas um século e meio atrás, 75% de toda a energia produzida nos Estados Unidos era derivada da madeira, enquanto o restante, 25%, era gerado através da força da água e pelos moinhos a vento.

Durante séculos, a Europa medieval baseou-se suas necessidades energéticas no uso da madeira como fonte de matéria prima. As grandes florestas que cobriam a Europa forneciam aquilo que parecia ser uma reserva inesgotável de energia.

Como ocorre hoje com o petróleo, a madeira era o principal recurso energético das antigas sociedades, um recurso explorado com dezenas de finalidades.

A lenha era o material, que virava combustível, utensílio, máquina e instrumento. Ou seja, a madeira representava o maior recurso industrial da época.

A deflorestação que já vinha ocorrendo pela necessidade de cultivar mais terra e pela demanda crescente de carvão de lenha para a indústria artesanal, acelerou-se verticalmente depois da invenção do motor a vapor.

As tentativas de regulamentar e planejar sua exploração fracassaram e seu custo já havia se tornado duas vezes e meio mais caro. A madeira já estava se tornando um recurso que começava a escassear.

Para a sociedade medieval, a escassez de madeira tornou-se um problema análogo à escassez de petróleo na nossa sociedade contemporânea. A busca de uma alternativa para geração de energia já era uma necessidade vital.

A alternativa veio por meio carvão, que aos poucos iniciou o ciclo de substituição da lenha como principal fonte de energia.

Movendo os novos motores a vapor, e ditando o ritmo da revolução industrial, o carvão acabava de se tornar o principal propulsor da transição da sociedade feudal para a sociedade industrial.

Já o petróleo, que até então circulava timidamente, irrompeu com força no centro da vida econômica e social no início do século dezenove. Dois eventos caracterizaram sua ascensão:
1) A invenção do motor a combustão interna
2) A importância que teve na movimentação de armas e tropas, na derrota da Alemanha prussiana e nazista nas duas guerras mundiais.

Se por um lado, o automóvel havia tornado o petróleo indispensável. Pelo outro, foram as duas guerras mundiais que convenceram as elites políticas e econômicas de sua importância estratégica.

Atualmente, mais do 80% da energia mundial é garantida pelo petróleo; 40%, Carvão; 22% e Gás, 23%. Enquanto as fontes hidroelétricas e nucleares são responsáveis pelo 7% cada uma. E apenas o 1% é produzida pelo solar e eólico.

Durante muito tempo, os donos dessas fontes de energia cultivaram ingenuamente a ideia de que suas reservas embaixo da terra estivessem suficientes para satisfazer todas as necessidades energéticas para sempre. Mas agora, após de dois séculos de produção industrial e de comércio internacional, os combustíveis fosseis entraram em um lento e inexorável declino.

E como todas as fortunas, também essa é destinada a acabar.

Seu custo crescente, a crise econômica mundial e o aquecimento global estão nos avisando que a conta chegou.

(continua…)

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* Sociólogo, reside em Santarém. Escreve regularmente neste blog.

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