por Célio Simões (*)

Célio Simões - Blog do JesoMoleque do meu tempo, em Óbidos, não dispensava em casa ou na rua uma brincadeira de bola, jogo de pião, empinar papagaio ou simplesmente apedrejar as frondosas mangueiras que existiam na cidade, que o tempo e o desleixo das administrações foram deixando acabar.

Todo o time da minha faixa etária era por completo integrado nesse fuzuê, cujos “mestres” eram formados nos bancos das escolas municipais e ali concebiam variadas artimanhas, algumas de duvidoso bom gosto, como aquela de jogar bomba de São João, comprada nas barracas dos marreteiros da Praça de Sant’Ana, em cima dos cães vira-latas só para vê-los correr sem rumo, latindo em desespero pelo açoite dos estampidos. Um despautério!

Vez por outra a adrenalina aumentava.

Era quando eu resolvia subir a Serra da Escama para passarinhar lá no alto, inicialmente armado de baladeira e com o passar dos anos, com rifle calibre 22 de repetição, seis balas no pente e ferrolho na culatra. Perdi a conta das piaçocas abatidas no Lago Pauxis, das cobras venenosas ou não que atravessavam o meu caminho e das saborosas “Santa Cruz”, uma espécie pouco maior que a codorna, que no Nordeste é conhecida como “avoante”, a exemplo daquelas, degustadas em espetos de improvisados braseiros.

Quando não apareciam as minhas imbiaras prediletas, ficava eu sentado em um dos canhões Armstrong da Bateria Gurjão, lá no alto da serra, desfrutando a bela visão da curva estreita do Amazonas, com os telhados da cidade servindo de pano de fundo ao intenso verde da paisagem, compondo um quadro contraposto, naquilo que os poetas chamam de harmonia dos contrastes, até hoje registrada em minha memória.

Nesse dia não foi diferente. Atravessei a ponte de madeira sobre o Laguinho, inspecionei suas margens atrás das piaçocas e, à míngua de outros pássaros que não as pipiras e bem-te-vis, subi a encosta pela tortuosa trilha que eu conhecia como a palma da mão.

Lá em cima, recuperado o fôlego, fiquei maravilhado com a frondosa mangueira recheada de frutos amarelos, no ponto de serem consumidos. Com a ajuda do facão que sempre portava, deliciei-me com a iguaria presenteada pela natureza, o suficiente, entretanto para não ser vítima de indigestão.

Tudo parecia estranhamente calmo à minha volta. Aliás, deliciosamente calmo. Um silêncio convidativo me impedia a empreender o caminho de volta, apesar do velho jargão de que “pra baixo todo santo ajuda…”. Demorei o que pude, usufruindo daquela paz só encontrável no elevado das montanhas. Quem já esteve nas serras gaúchas, mineiras, cariocas, catarinenses ou em Campos do Jordão que o diga. Só que tudo tem um limite, a tarde ia se findando; soava a hora do regresso.

Redobrei a cautela por causa das cobras. Já adulto esse sobrosso levou-me a procurar pelo “mestre” curandeiro Didico Assis, que, após um ritual de iniciação, tornou-me imune à sua peçonha. Isto porque desde criança, sempre tive medo delas. Tanto medo, que quando via uma, preferia matá-la primeiro e depois verificar se era ou não venenosa. Dessa regra não escapavam nem as inofensivas jibóias ou as mal humoradas pepéuas, que mordem, mas não matam. Hoje as conheço todas – venenosas ou não – ou aquelas que assim se tornam, dependendo da época do ano.

Cheguei ao sopé do morro sem qualquer atropelo. Bastava agora vencer uma largura de uns duzentos metros, driblando as touceiras de juquirís, para atingir a cabeceira da ponte. E foi o que fiz, olho pregado no murizal, atento ao menor movimento do capim. As serpentes têm precária visão, porém superam essa deficiência pelo movimento constante de sua língua bífida, espécie de sensor que as mantém informada sobre o que ocorre em volta, através do qual estimam a distância e o tamanho de suas vítimas (para medir o bote e liberar a quantidade certa de veneno).

É por essa razão que atacam de dia ou de noite, tanto faz, assim como em terra ou nos úmidos dos igapós. Quem não as conhece, o melhor que faz é se afastar, pois o veneno é tóxico, paralisa o diafragma, bloqueia a respiração, causa hemorragia e confusão mental – talvez por isso toda pessoa picada por cobra venenosa menos de uma hora depois fica com cara de bêbado.

Foi quando ouvi aquele piado característico e insistente. Apurei o ouvido para vencer o barulho do vento, assim identificando o rumo daquele ruído familiar. A aproximação foi lenta. Ergui com o cano da arma já engatilhada um tufo de capim e para minha surpresa, lá estava um pinto pedrês praticamente saído do ovo, faminto e pelo jeito, com saudades da mãe. Fiz uma busca ao redor na tentativa de encontrar a galinha e nada; ele estava mesmo sozinho no meio do mato e com a noite caindo, morreria de fome ou devorado por uma cobra.

Segurei-o nas mãos colocando-o dentro do bornal que eu trazia atracado no boldrié e assim cheguei em casa com aquela preciosidade, despertando a curiosidade da família, que quis saber onde e como eu conseguira aquele inusitado troféu. Explicações dadas e aceitas, foi o pequeno animal solto em nosso quintal, uma espécie em miniatura de arca de Noé, onde proliferavam patos, galinhas, galos, porcos e outros bípedes e quadrúpedes, sempre lembrados às vésperas de algum aniversário ou no dia de Natal.

Ocorre que o pinto passou a desfrutar de mordomias. Para início de conversa, comia milho moído na minha mão, pelo menos uma vez ao dia. Eu aparecia no quintal e lá vinha ele atrás de sua porção de comida fosse ou não hora da chepa. Não satisfeito com esse tipo de tratamento diferenciado, deu de andar atrás de mim pela casa e pelo quintal, tal qual um cachorro anda atrás do dono. E de tanto comer na hora ou fora de hora, cresceu precocemente e virou um frangão robusto, enfrentando de forma desafiadora nosso galo “Argentino” em renhidas disputas pelo escancarado amor das galinhas, que o cortejavam abertamente. Situação complicada essa, que estava a merecer uma solução urgente, não se podendo vislumbrar qual era.

Nessa época eu tinha uma bicicleta comprada na antiga Casa Gina, que ficava bem ao lado da loja A Pernambucana e nela eu fazia miséria nas ladeiras da “Cidade Presépio”, sempre em alta velocidade. A sucessão de tombos era uma conseqüência natural dessa imprudência; meus braços e pernas viviam permanentemente feridos e quando estavam sarando, outra queda me impunha novas cicatrizes, inclusive no rosto, uma das quais torna até hoje incômoda a simples tarefa de fazer a barba. Quando esse fato aconteceu, eu estava me recuperando de uma derrapagem que sofri na ladeira do mercado, que fez desaparecer a pele do meu joelho direito.

Minha mãe se queixou que uma quantidade exagerada de urubus vivia à espreita em nosso quintal, pousados na cerca de pau-a-pique, esperando a hora de brigar pelos rebotalhos de carne que eram descartados por nossa empregada doméstica. Um deles, inclusive, de maneira acintosa e precipitada, entrou voando dentro de casa, na tentativa de saciar a fome, quase fazendo minha irmã desmaiar de pavor. Foi a gota d’água! Chegou-me o apelo materno para que eu desse um jeito naquela insustentável situação, de vez que os vizinhos também se queixavam do mesmo abuso da urubuzada, embora não tomassem nenhuma iniciativa.

Urubus de Óbidos são iguais aqueles do Ver-o-Peso em Belém ou do matadouro de Santarém. Adoram uma bagunça. E com autorização da minha mãe, decidi solucionar em definitivo aquele aflitivo problema. Combinei com a empregada que ela me avisaria o dia em que cuidaria da carne, para atraí-los.

E assim foi feito. Ela começou seu trabalho como se nada de anormal fosse ocorrer, cantarolando baixinho a música de sua predileção; esgueire-me furtivamente por trás de um camburão de água que ficava bem próximo, empunhando o rifle calibre 22 e dali pude enquadrar na alça de mira o urubu mais vistoso e ousado, que vivia aporrinhando a rotina da minha casa.

O frangão, meu velho conhecido, resolveu postar-se ao meu lado, à espera de sua porção diária de alimento. E qual não foi minha surpresa, pois, antes do tiro fatal, senti uma dor lancinante no bendito joelho ferido, cuja pele eu perdera na ladeira do mercado. Olhei e vi que era o desgraçado do galináceo, em quem nem estava prestando atenção, que pelo vezo de andar atrás de mim, dera uma senhora bicada no ferimento, arrancando parte da pele já machucada e fazendo o sangue jorrar com abundância, impondo-me uma dor que me fez gritar, para a sorte daquela revoada de corvos que simplesmente bateu asas, sumiu, como que fazendo gozação da minha cara…

Misturado à intensa dor, o sangue ferveu de raiva, por isso julgo dispensável contar os detalhes do final dessa história, mas o almoço do dia seguinte em casa foi um suculento frango, que eu particularmente comi com um misto de fome e de desforra, porque o ferimento infeccionou, exigiu cuidados médicos e injeções de antibióticos até sua completa cicatrização.

Jamais senti remorso pelo que fiz, pois o próprio pedrês não soube valorizar as regalias que desfrutou no seu privilegiado espaço. Ademais, faltou-lhe o necessário instinto para assimilar uma lição básica nas regras de sobrevivência no mundo dos animais racionais ou irracionais, sem qualquer duplo sentido: pinto que trai o dono tem mais é que levar o farelo…

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* É Advogado e cronista. Vice-Presidente da Academia Paraense de Jornalismo. Escreve regularmente neste blog.

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