Amar Berenice com fervor dos fanáticos

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“Uma saudade de bubuia – um ano sem o poeta”

por Lila Bemerguy (*)

O texto que inaugura essa série foi escrito por Emir Bemerguy aos 21 anos, no seu diário do ano de 1954, chamado de “Diário de Juventude”. Nele, o poeta escrevia diariamente, registrava acontecimentos pessoais e outros vividos na cidade de Belém.

Aquele ano foi particularmente especial, pois ingressou na Faculdade de Odontologia e conheceu a que viria ser a sua eterna musa, Berenice. De 1954 até a sua morte, em 13 de novembro de 2012, 58 anos se passaram, de amorosa convivência.

Ao fim do ano de 1954, na última página do diário, o poeta escreveu essas linhas, inéditas, só conhecidas pelos familiares que tiveram acesso ao caderno, ainda preservado.

Emir e Berenice Bemerguy. Arquivo: Lila BemerguyEmir e sua musa eterna

Nele o poeta declara seu amor a Berenice, a quem dedica um verso ao final, e revela seu desejo de “adquirir facilidade” na arte de escrever.

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31 de dezembro de 1954:

…Lançando um olhar sobre esses doze meses que ora se extinguem, concluo, satisfeito, que fui feliz tanto quanto é possível sê-lo, neste vale de amarguras.(…) Mas a dádiva maior, o prêmio mais valioso que recebi no ano que morre, foi a suprema felicidade de amar e ser amado pela minha Berenice querida. Desta aventura inigualável derivou um mundo de indescritíveis alegrias. Por mais que me tenha sempre esforçado por exprimir nestas folhas o que me vai ao coração quando escrevo sobre essa adorada bonequinha, jamais o consegui. Porém, conforto-me sabendo que sentimentos não se explicam: sentem-se. E um amor como este meu, em tempo algum há de permitir que se proclame sua exata força, seu poder integral. Ainda que passe a vida inteira medindo-o com a trena da saudade, experimentando sua resistência no cadinho de uma duríssima separação, nunca serei capaz de conhecer ao certo suas características, pois a cada instante que passa ele é mais extenso, mais tenaz do que no momento precedente. Assim, restrinjo-me a amar, sem preocupações de qualquer espécie. Amar a minha Berenice! Querê-la com o fervor dos fanáticos, com a alucinação dos loucos, com a esperança dos moribundos, com a saudade dos exilados! Ama-a, coração, ama-a com todas as tuas fibras, com toda a tua capacidade de querer bem!

…Chegou, enfim, a hora de encerrar mais esse diário. Não sei, confesso, com que objetivo comecei a anotar todos os dias tudo o que se passava comigo e ao meu redor, digno de ser gravado nas páginas de um caderno. Creio que várias são as causas disto que agora já é um hábito, uma necessidade para mim: desejo de adquirir alguma facilidade nesta complexa e difícil arte de escrever (…) ter na velhice minhas ilusões de moço guardadas, intactas, em alvas folhas de papel como num cofre inviolável. Tenho me dado bem com essa mania e tão cedo não hei de abandoná-la.

Adeus, livro amigo! Guarda contigo para sempre, com desmedido zelo, esse mundo de segredos, que a ti confiei.

– Quem desfolhar este arquivo pequenino,
Há de notar, certamente, um nome feminino.
No fim da quinta linha
De uma página amarela,
Lá está, com tinta azul,
Bem escrito o nome dela: Berenice!

Emir Bemerguy, dezembro de 1954

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* Jornalista, é santarena e filha do poeta Emir Bemerguy.


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One Response to Amar Berenice com fervor dos fanáticos

  • Prof. Emir Bemerguy, homem de bem, sábio, conselheiro, amável, boa conversa, cristão exemplar, … autor de verdadeiras e reconhecidas por todos os cidadãos santarenos, de obras que mostra Santarém para o mundo.
    Agora só SAUDADES, querido Prof. Emir Bemerguy.
    Agradecimentos à família que nos dá oportunidade de ler seu diário.
    (meu nome foi escolhido por meu papai CHICO IRENE, em homenagem ao Prof. Emir Bemerguy, isso em 1959). Que Legal! meu segundo filho também se chama EMIR.

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