por Célio Simões (*)
Trabalhei quase a vida inteira, sustentei minha numerosa família e exerci com dignidade minha profissão de advogado fazendo uso de uma máquina datilográfica Remington cuidadosamente guardada até hoje, com a qual nos fins de semana escrevi muitas das crônicas que publiquei em vários jornais e revistas.
De repente, passei a encontrar dificuldade de comprar as fitas de cores pretas e vermelhas (involuntária homenagem ao Flamengo?), os carretéis e até mesmo garimpar alguém que se dispusesse a proceder a uma limpeza no equipamento, pois foram desaparecendo os mecanógrafos da velha guarda, na mesma proporção que sumiram os alfaiates, os leiteiros que vendiam seu produto de porta em porta e tantas outras atividades.
Essa cruel realidade que eliminou os datilógrafos da vida nacional tem um responsável, que veio para ficar e se tornar irreversível em nosso dia a dia – o computador.
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Resisti o quanto pude, porém paulatinamente fui sendo cercado por essa engenhoca, em casa, no escritório, nos caixas eletrônicos dos bancos, nas salas de audiências (“…doutor, a ata o senhor recebe pela Internet”, dizem as secretárias), nos fóruns e ofícios de justiça, nos Tribunais, no Ministério Público, enfim, em todas as frentes das quais não pode fugir quem vive numa cidade e exerce qualquer atividade profissional, em especial a advocacia.
Depois de muita insistência e com muita desconfiança, guardei a máquina datilográfica e passei a dar os primeiros passos na computação, sob a orientação dos meus três filhos, cada qual deles o mais solícito para incutir na minha cabeça dura os conceitos mais elementares daquele avanço tecnológico, sem o qual atualmente nada se faz.
Passaram eles mais de dois anos tentando, até chegarem à mesma conclusão que o Teixeira chegou a respeito do Araújo: “Não é que ele seja burro; é que ele tem dificuldade de aprender e quando aprende, esquece depressa…”.
Todos desistiram. Cada qual com uma desculpa esfarrapada. Falta de tempo, um. Excesso de tarefas, outro. Carência de paciência, o terceiro. Recebi da minha mulher um oportuno e sábio conselho:
– Por que você não se matricula num curso de computação?
– Pelo simples fato de que não vou pagar mico nesta idade.
Teimei mais um ano remando contra a maré. Dependia de tudo e de todos para simplesmente ligar o aparelho, quanto mais realizar as operações que me permitiriam redigir um singelo texto para anexar num processo, cuja impressão ficava para o dia seguinte, quando alguém colocava a impressora para funcionar. Assim, temendo perdas, os prazos judiciais para mim passaram a acabar na véspera.
Chegou o dia em que eu mesmo fiquei convencido da necessidade de buscar orientação com gente do ramo e sorrateiramente, como que pedindo desculpa para mim mesmo, matriculei-me sexta-feira em uma escola existente a uma quadra de casa, que me permitiria ir a pé, sem o sufoco da falta de estacionamento, libertando-me da ditadura dos flanelinhas.
Atendeu-me um cidadão magrinho e diáfano, cabelos louros em desalinho, olhar esperto, estatura mediana e pele esbranquiçada como se nunca tivesse ido à rua ou a uma praia tomar sol, parecendo personagem surgido de um museu de cera. Mas era muito educado. Após acertarmos o preço do curso, marcou minha primeira aula para a segunda-feira subsequente. E ante a revelação de que eu nada entendia de computadores, procurou me acalmar:
– Fique tranqüilo. Comigo, em 30 dias o senhor vai dar um show! Saí dali entusiasmado, raciocinando com meus botões: – Essa molecada vai ver só se ainda vou viver de favores. Ao mesmo tempo, aquele aceno de mil facilidades acionou-me o gatilho da desconfiança, pois tenho severas restrições contra bazófias e recebo com reserva as promessas de milagrosas vantagens, sejam de vendedores ou prestadores de serviços, capazes de tudo para faturar em cima dos incautos.
Segunda-feira, 19:00 horas, lá estava eu firme na minha carteira, a cara no chão de vergonha, porque em torno de mim só tinha jovem, os quais me olhavam como se eu fosse um extraterrestre. Mais um pouco e entraram na sala diversos instrutores, inclusive o “museu de cera” que tratara antes comigo. Efusivo, cumprimentou-me, me fez repetir alto meu nome a guisa de apresentação e para não rotular-me de velho, apelou para um eufemismo:
– Atenção, nosso colega veterano nada sabe de computador. Vamos ajudá-lo a se tornar um craque…
Ninguém riu, e eu muito menos, pois estardalhaço em torno do meu analfabetismo virtual era tudo o que eu não queria naquele momento. O tal sujeito, em vez de ir embora, puxou uma cadeira, sentou ao meu lado em frente à tela de um computador e iniciou a sessão de tortura:
– Hoje nós vamos estudar um pouco de HARDWARE, SOFTWARE, SLOTS e BARRAMENTO. Hardware são todas as partes físicas que formam o computador, sabia?
– Se o senhor está dizendo…
– Placa mãe ou Mother Board é o elemento central de um microcomputador. É uma placa onde se encontra o micro e vários componentes que fazem a comunicação entre ele com os meios periféricos externos e internos, entendeu?
– Parceiro, dá pra deixar a mãe fora dessa história?
– Calma, não é isso que o senhor está pensando. A mãe é a do computador, inserida numa placa…
– Ainda bem parente, senão não ia prestar.
– Então vamos continuar. Além da placa mãe (a dele, por via das dúvidas…), temos ainda a placa de vídeo, a placa de som, a placa de fax/modem e a placa de rede. Já ouviu falar delas?
– De rede já, eu nasci dentro de uma…
– O senhor é um gozador. Lembre que esta é apenas nossa primeira aula e temos que acelerar. Não se esqueça dos 30 dias que lhe falei – disse o professor, abrindo uma apostila e continuando a aula:
– Vamos falar um pouco de SOFTWARE. O senhor sabe que a isso se chama um conjunto de instruções que juntas tentam resolver problemas do cotidiano. Eles possuem uma sequência que são construídas através de uma linguagem de programação, fácil de ser assimilada, denominadas de aplicativos: WORD, EXCEL, CALCULADORA, AUTOCAD, PHOTO SHOP, WINDOWS, LINUZ, UNIX, SOLARES, CD-ROM PARA APRENDER O ALFABETO, SHOW DO MILHÃO, etc.
Comecei a me sentir tonto. Um suor gelado inundou minha pele, mas procurei mostrar interesse:
– Mestre, que mal lhe pergunte, esse último tem alguma coisa a ver com o Sílvio Santos?
– Não disse que o senhor é um gozador?…
– Sabe como é; a mensalidade é cara e eu tenho o direito de perguntar.
– Fique frio, disse o instrutor. Vamos aproveitar o tempo que resta – fez um gesto com o braço e apertou a vista olhando para o relógio – para conversarmos um pouco sobre Internet. Já ouviu falar?
– Já, mas não manjo nada. Só sei escrever na minha Remington…
– O que é isso?
– Nada, deixe pra lá.
– Bem, como eu ia dizendo, na Internet tem a HOME PAGE, o DOWNLOAD, o UPLOAD, os SITES, os LINKS, HYPERLINKS, a praga dos SPAM, SHAREWARE, FREEWARE, SITES DE BUSCA e PESQUISA, LISTA DE DISCUSSÃO, E-COMERCE, ANTIVIRUS, FIREWALL, VIRUS, JAVA, HTML e os COOKIES. Qual deles é do seu conhecimento?
– Professor, o senhor ainda não entendeu. Não conheço nada de computador, quanto mais de Internet.
– Perdão, tinha me esquecido. Vou fazer um resumo do que é isso: – A Internet reúne mais de um bilhão de pessoas, chamadas de internautas, funcionando com perfeição sem controle de ninguém. Uma entidade privada, a Internet Corporation for Assigned Names and Numbers com sede na Califórnia, sem intuito de lucro, faz a administração dos endereços da web, embora a Internet que hoje conhecemos, a World Wide Web, tenha sido inventada em Genebra, na Suíça, pela maior organização científica mundial, a Conseil Européen pour La Recherche Nucléaire, que recentemente criou o colisor de hádrons, um acelerador de partículas que pretende fazer colidir prótons em busca de vida em outras dimensões. Ficou claro agora?
– O pessoal de Óbidos já sabe disso?
– Óbidos? Não sei. Nunca estive na ilha do Marajó.
– Olha aqui cara, vê se não sacaneia. É a minha cidade e não fica no Marajó. Tu pode ser bamba na informática, mas em geografia…
– Não se aborreça, não sou paraense, cheguei há pouco a Belém e acho que estou indo rápido demais. Voltemos apenas ao computador, para conhecimento das barras de ferramentas. Vamos descobrir os principais recursos existentes na barra de menus como ALT + A; ALT + E; ALT + X; ALT + I; ALT + F; ALT + M; ALT + B; ALT + J e ALT + U. Há também um detalhe importante, que o senhor deve ter sempre na cabeça. São os BITS e os BYTES, pois eles calculam o tamanho das informações. O BIT é a menor unidade de processamento de dados. Um BYTE é o conjunto de 8 bits, ou seja, 1 BYTE é igual a 8 BITS. Partindo dessa certeza, é fácil calcular que 1 KB é igual a 1024 Bytes; 01 MB é igual a 1024 KB e 1 GB é igual a 1024 MB. Eu vivo dia e noite na frente do computador e sei tudo isso de memória (“…não é a toa que esse f.d.p é da cor de uma estearina, pensei…”). Alguma dúvida?
– Eu posso ir pra casa?
– Claro que sim e até amanhã. Acho que o senhor foi muito bem para quem nada sabia.
Quando, respirando aliviado, já me dirigia à porta de saída, olhei para trás e vi o “museu de cera” tirando um pedaço de papel do bolso e me chamando pelo nome:
– Sim?
– Aproveite as horas de folga para decorar uma coisa importante. Está escrito nesse papel, que dou para todos os meus alunos. Recoloquei as lentes e li: TIPOS DE CÓDIGOS: .org: site organizacional; .gov: site governamental; .edu: site educacional; .mil: site militar; .br: site brasileiro; .ar: site argentino; .us: site norte americano; .jp: site japonês.
Por Deus que está no céu pensei, horas de folga eu não tenho; e pra que eu ia querer site americano, argentino ou japonês? Meu único objetivo era escrever minhas petições, só isso. Cheguei em casa arrasado. Só não dei um beijo na minha máquina de datilografar porque ela estava num canto do armário, coberta de poeira e teia de aranha. Fiquei saudoso das aulas no teclado, na Escola São Francisco, de propriedade da minha querida mãe, dona Lady Simões: A S D F G e pronto. A gente ia aprendendo as teclas por fileiras, inicialmente da esquerda para a direita, depois os números e um dia fazíamos a prova, quando o risco de reprovação era remoto e ocorria apenas se o candidato fosse muito bronco. Tudo sem a torrente de explicações com que fui bombardeado naquela maldita aula.
Perdi o dinheiro da matricula, porém nunca mais coloquei os pés na tal escola, que acabou falindo, pois no local hoje funciona uma lanchonete. Confessei minha desolação ao Sérgio, meu filho caçula, que penalizado deu-me de presente um computador Itautec de terceira mão, prontificando-se a me ensinar tudo nas nossas raras horas ociosas.
– Toma pai. Vai aprendendo neste…
Tenho evoluído aos poucos. No escritório, sob a supervisão do Célio Augusto, já redijo e imprimo minhas petições sem maiores dificuldades e por cautela contratei um técnico para os reparos nessa máquina maravilhosa, pois em nossos freqüentes conflitos e desacertos, invariavelmente saio derrotado. Mesmo a tal Internet não é um bicho de sete cabeças. Vivia esquecendo minha senha, até decorá-la sem atropelos. Criei um e-mail fácil de memorizar, pois era o nome do cachorro de estimação do meu filho Cezar: pingo@xxxxxxx.com.br, somente trocado quando o peludo e afável vira latas morreu de velhice. Estou convencido que dessa ferramenta não posso prescindir para o exercício profissional, partindo da premissa que todos têm que se virar para ganhar a vida – “nem que seja honestamente…”
Cada vez menos me lembro da velha Remington, que continua em completo desuso. Meu novo amor agora é o laptop da Itautec, mesmo com evidentes sinais de fadiga. A bateria pifou de vez e ele somente funciona ligado diretamente à tomada, o que prejudica sua portabilidade. Levei-o a uma loja especializada para a devida substituição, mas não houve jeito. O atendente foi direto ao ponto:
– Não se fabrica mais bateria para esse tipo de computador e se fabricasse, não ia compensar. O preço seria quase igual a um computador novo. Sugiro que o senhor aproveite nossa promoção.
– Moço, não é bem o preço, mas eu já me acostumei com este.
– Mas a diferença é pequena para um novo. Muda apenas o sistema operacional.
– Como assim?
– Agora só vendemos Linux e Windows Vista. O seu ainda é Windows 98.
– E onde está o “X” da questão?
– É a interface. Só isto!
Interface?? – Lembrei imediatamente do “museu de cera”. Ia começar tudo de novo. Agradeci, fui saindo à francesa e voltei pra casa acariciando o laptop da Itautec pousado no meu colo, enquanto dirigia o carro com apenas uma das mãos. Nenhum guarda me multou por causa disso.
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* É membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas. Escreve regularmente neste blog.
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