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“Os novos aparelhos tecnológicos roubaram a cena”

Celular e criança: combinação explosiva para o cérebro. Por Silvan Cardoso
A exposição prematura de crianças ao celular dificulta a fala. Fotos: Reprodução

“O bebê está chorando!”, diz a mãe, que passou vários momentos do dia tentando acalmar a criança, que não parava de chorar. “Vamos experimentar mostrar esse desenho animado, pra ver se ela fica calma”, diz o pai, orgulhoso de ser genitor pela primeira vez. Mas o bebê estava inquieto, não parava de chorar.

— LEIA também de Silvan Cardoso: Derrotamos Jesus Cristo todos os dias.

Os primeiros meses foram se passando depois de seu nascimento e a única coisa que acalmava a criança era um smartphone. Bastava colocar o celular na frente dos olhos do pequeno que o choro acabava. Aquilo parecia ser a solução dos momentos em que se imaginava que nada poderia acalmar o bebê.

Celular para acalmar a criança? Aparentemente é uma coisa bastante inocente. Que mal um aparelho desses poderia causar ao bebê? Não é possível que uma invenção espetacular para comunicação e entretenimento seria uma coisa maliciosa! Ou seria? Vamos continuar a narrativa…

A criança fica com os olhos esbugalhados diante da tela em que passa um desenho animado de personagens, como animais, que conversam, cantam e dançam. Enquanto a pequena permanece hipnotizada diante do que vê, a mãe e o pai podem fazer suas atividades sem se preocuparem com o choro e agonia da filha.

Smartphones são coisas tão recentes… o que sabemos deles quando o utilizamos com muita frequência? Há alguma má consequência quando as crianças são colocadas diante do aparelho para ficarem “distraídas”? Procuramos investigar para sabermos se tem algo de positivo e negativo com essa situação?

Assim que ela se acostumar com o seu uso, a pequena não irá deixar de usar o celular ou o tablet. Crescerá utilizando de tal jeito que os pais falarão admirados: “Parece que minha filha nasceu sabendo, pois conhece o celular melhor do que a gente! Nossa, como é inteligente!!”

Esse é um dos muitos problemas que nós seres humanos temos: não admitirmos que tudo tem seus lados positivo e negativo, principalmente quando aquela coisa é algo muito prazeroso. E, sim, pra qualquer idade que for, a utilidade do smartphone tem seu lado que nos faz bem assim como tem seu lado que nos faz mal.

Tempos atrás, as crianças tinham como maior distração as brincadeiras e convivências nas ruas e também dentro de casa com parentes e amigos, atividades que ensinam na comunicação e na socialização dos pequenos. Hoje em dia, os novos aparelhos tecnológicos roubaram a cena e, aparentemente inofensivos, segundo estudiosos, dificultam as crianças e adolescentes na socialização e a resolver problemas da vida.

O Hospital para Crianças Doentes, da Universidade de Toronto, no Canadá, realizou um estudo que afirma que quanto mais tempo diante da tela do celular ou tablet, maior torna-se o risco de bebês terem o desenvolvimento da fala atrasado. Outro estudo, realizado pela Universidade Brigham Young, dos Estados Unidos, mostrou que a ação de colocar celular para controlar choro de crianças pode deixá-las tanto agressivas como terem dificuldade para aprenderem a controlar as emoções ao longo da vida.

Além disso, a Sociedade Brasileira de Pediatria, a Sociedade Brasileira de Oftalmologia, assim como a Academia Americana de Pediatria, solicitam não expor as crianças com menos de dois anos diante do celular, do tablet, do computador e do televisor. Essas instituições afirmam que essa prática impactam diretamente no desenvolvimento dessas crianças. Tais órgãos recomendam que a interação com bebês deve ser feita com pessoas e objetos reais.

Mas o bebê cresceu! Tornou-se uma adolescente que pouco “desgrudou” do celular. Em certa hora do dia, a adolescente deita no sofá da sala e fica mexendo no celular. O avô até tenta incentivar a pequena a ler “Um conto de Natal”, de Charles Dickens. Mas ela olha para o livro com repúdio. “Ler? Pra quê? Coisa mais avançada! A Internet é a diversão do momento”, imagina a adolescente.

A Academia Americana de Pediatria afirma que além afetar o sono e a capacidade de prestar atenção, expor crianças ao telefone celular contribui para o atraso da fala, dificuldade de alfabetização e problema de memória.

Há uma narrativa de 2019 do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (National Institute of Health – NIH), que fez um investimento de 300 milhões de dólares para acompanhar o cérebro de mais de 11 mil crianças, que tinham entre nove e dez anos de idade. Esse processo ocorreu ao longo de 10 anos.

Essas crianças monitoradas usavam smartphones e tablets por no mínimo 7 horas diárias. No resultado dessa pesquisa, viu-se que o córtex cerebral da maioria das crianças estavam atrofiadas, afetando todos os sentidos (visão, audição, tato, olfato e paladar).

O NIH afirma que, dependendo do conteúdo, quando uma pessoa passa boa parte do dia utilizando apenas o celular, há somente o estímulo visual. Necessita-se de atividades lúdicas, que envolvam contato com pessoas e ações presenciais, o que contribue para o desenvolvimento do córtex cerebral.

“O córtex cerebral é uma fina camada do cérebro de onde saem impulsos nervosos. É o centro do entendimento e da razão, responsável pela memória, percepção e linguagem”, afirma o Instituto Osvaldo Cruz.

Os pais sentem que sua filha está muito distante deles, embora morem na mesma casa. Não pode ficar um dia sem internet que fica chateada. Quando resolvem se reunir na sala, a pequena prefere ficar calada e acessando redes sociais ou jogando ao invés de dialogar. Os livros que ganhou de presente de parentes e amigos nunca foram tocados por ela. Qualquer atividade que exija reflexão ou que seja desafiante para a sua imaginação é ignorada, diante de tamanha dificuldade que se tem para pensar.

Para o escritor e filósofo espanhol Enric Puig Punyet, “dispositivos digitais são ofensivos e devem ser usados depois dos 18 anos”. Punyet defende que os menores de idade passem por um “isolamento social” do mundo digital.

A consultora e doutora em educação pela PUC-Rio, Andrea Ramal, afirma que é preciso refletir bastante antes de entregar um celular para crianças com menos de 12 anos. Ela complementa em dizer que para o jovem possuir aparelho próprio, é necessário ter a suficiente maturidade intelectual e emocional.

Mas o pai é confiante. Acredita que isso é só uma fase e que irá passar. Afinal de contas, que mal um celular irá causar às pessoas? A mãe já é mais cautelosa. Entende a vontade do marido de dar à filha tudo o que ele não teve quando foi criança. Além disso, pra que expor a pequena aos desafios e perigos da vida? A menor de idade até colocou senha para que ninguém – nem mesmo seus pais – soubessem com quem ela tinha contato e o que tinha arquivado no aparelho!

“Pelo menos, diante do celular e dentro de casa ela fica mais segura. Não tem como ser roubada ou ter má influência”, afirma o pai. Então, percebendo que ela não queria conversar e sum permanecer conectada, os dois a deixam sozinha na sala. A pequena não tirava os olhos do aparelho. Nem imaginam os pais que naquele exato momento, a adolescente conversava com um homem desconhecido, pedindo informações, fotos e tentando conquistá-la.

<strong>Silvan Cardoso</strong>
Silvan Cardoso

É poeta, cronista e pedagogo nascido em Alenquer, no Pará. Escreve regularmente no JC.


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