
por Núbia Pereira (*)
Parece mentira, mas não é! Nem todo mundo sabe o que significa “pós-verdade”, embora conheça um “Phd” no assunto.
Tudo bem, é preciso dar um desconto, afinal a palavra só entrou no dicionário americano Oxford em 2016, sendo logo eleita destaque do ano. Pena que não teve toda essa evidência pro lado de cá, aparentemente…
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A palavra, que em inglês é escrita “post-truth”, arregala os olhos de quem mal entende a língua portuguesa. Mais assustador mesmo é quando sai do papel e é utilizada na prática, não importa o idioma.
Foco principal dos comentários políticos, a “pós-verdade” vem se espalhando como estilo contemporâneo e estampa na mídia, manchetes, textos, notas, sem nenhuma comprovação, já que na pós-verdade os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às crenças e às emoções.
Como se não bastasse, está cheia de aliadas das quais ninguém consegue tirar os olhos: as redes sociais.
É por meio de chats, blogs, sites, por exemplo, que as opiniões das pessoas, formuladas com base em crenças e “paixões” (por que não dizer “ódio”?), são espalhadas, sem dó, nem piedade, e aceitas como verdade por quem as recebe e encaminha.
Não querendo entrar no “modismo”, mas a falta de credibilidade, que vem assolando o mundo, começou no campo político. Aquele jornalismo tão respeitado em outrora, cedeu.
O mundo pós-moderno, do segundo milênio, marcado pela globalização, também contribui para o distanciamento dos seres humanos, apesar de estarem virtualmente conectados pela tecnologia da internet. É o que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman chama de “Modernidade Líquida”: o ser humano se individualizou e não consegue mais participar de um debate sobre essa sociedade, sem um pré-conceito baseado nas emoções e nas crenças pessoais, e não mais nos fatos objetivos.
Desse acirramento, surgem posturas antagônicas baseadas na falta de bom senso e no fim de um debate de alto nível.
Resumindo, é aquilo que vemos, todos os dias, onde alguém levanta uma opinião sobre qualquer tema, nas redes sociais, e passa a ser agredido de forma ofensiva por quem discorda dele, sem qualquer racionalidade no debate. Nesse momento ocorre um verdadeiro linchamento ético.
Um grande exemplo é quando alguém diz que é contra a “justiça feita com as próprias mãos”, e todo mundo começa a dizer “tá com pena do bandido, leva pra casa” ou coisas do tipo. Ninguém debate o argumento, só ataca o argumentador.
A famosa pós-verdade comprova, pública e notoriamente, que a liberdade de expressão (base da luta dos “anos de chumbo”, entre 1960 e 1970), acabou produzindo um cidadão um pouco mais consciente no final do século XX, mas a nova geração surgida desses cidadãos, se torna refém das facilidades tecnológicas e se alimenta de uma falsa verdade, que tem suas raízes na má formação cultural e no advento da programação idiotizantes dos meios de comunicação, com programas como o reality BBB, onde a futilidade se sobrepõe à cultura.
O intelectual italiano Umberto Eco chegou a afirmar, pouco antes de sua morte, que as redes sociais deram o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.
A mediocridade toma conta de tudo e ninguém mais consegue encontrar o chamado “meio termo aristotélico”, ou seja, o equilíbrio e o bom senso para debater questões sensíveis.
A bipolarização ideológica acaba cimentando essa relação, e as pessoas perdem a oportunidade de entender o que ocorre à sua volta em virtude da rotulação ideológica que suplanta a essência de ser humano.
E, enquanto, nós jornalistas, lutamos para noticiar a verdade, no jornalismo da pós-verdade a versão importa mais que o fato e, às vezes até substitui o fato. Nele, a verdade perdeu o valor. A escolha dos jornais é para a versão a ser publicada.
Ah, no mundo onde a informação chega como num passe de mágica, quem vai mesmo se importar com a fonte? Para quem passa anos numa academia, é correto compartilhar a pós-verdade e dar crédito à injustiça?
Justo mesmo seria deixarmos de lado o dicionário inglês e difundir a verdade nos quatro cantos do mundo e, finalmente, travar uma luta para reescrever o papel do jornalismo. Caso contrário, a palavra destaque de 2017 será “Aqui JazNalismo”.
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* É jornalista.
Tão transparente e lúcido que beira o imaculado seu pensamento critico, Núbia.
Ao caso concreto, entendo a presença do inevitável em tempos de “jornalistas de redes sociais”, que somos todos os não formais. É o novo que se comunica sem a ética do jornalismo sério praticado por veículos sérios.
Mas ainda entendo ser melhor assim; o direito de não ler e/ou excluir do meu perfil estes “escritores” das “pós verdades”; nada que o “del” não resolva em um único click.
Melhor assim; melhor que o silêncio pela mordaça da censura que nos deixaria reféns das “não verdades”.
A manipulação da verdade sempre existiu e antes não havia as redes sociais para culpar.
Antes, éramos manipulados porque não havia acesso a informação.
Agora, somos porque há acesso a informação.
Mas as informações vem, sobretudo, dos jornalistas.
Procurar eximir a responsabilidade dos jornalistas é soberba.
No ano anterior a palavra foi imogi, ou emotion , do idioma das carinhas . Sabe a linguagem das carinhas amarelas ora sorrindo , ora chorando, dormindo , pensando . Até muito criativa , adequada para redes sociais e juventude . Mas quê também resume e muitas x quer dizer mais de um significado ou quase nada ou nada. E q vai ficando como comunicação, pela metade ou com duplo ou nenhum sentido . Tem tradução , no Facebook, o idioma dos emos . Palavra eleita um ano antes, no rastro da pos verdade .
Bom texto!!! Apenas uma ressalva o Dicionario Oxford eh Britanico e nao Americano…
“”…..A bipolarização ideológica acaba cimentando essa relação, e as pessoas perdem a oportunidade de entender o que ocorre à sua volta em virtude da rotulação ideológica que suplanta a essência de ser humano.”””…. Verdade pura Núbia… parabéns pelo excelente texto
uma coisa é ter consciência do momento histórico, com faz a articulista ,e outra é seguir a mamada de imbecis e ter ter sua pele preservada.
Novamente, a inteligência pontificando e encontrando espaço no blog. Parabéns Núbia, pela clarividência da abordagem e a exatidão do texto, que tem despertado debates interessantes nas academias. Sua colega jornalista Simone Gehrke já afirmara com propriedade que “a pós-verdade, tão significativa em 2016, mantém-se em 2017 como tendência no Brasil e de forma preventiva, na Alemanha” (ver Simone Gehrke em “A época da pós-verdade”).
Segundo ela, todos os anos, um dos mais prestigiados dicionários do mundo, o Oxford, elege a palavra do ano, pela relevância de sua expressividade no período, sendo que no final de 2016, o vocábulo escolhido foi “pós-verdade”. De acordo com os estudiosos do Oxford, o termo (que aumentou 2.000% sua utilização no ano que passou) reflete situações coletivas em que os fatos objetivos são menos influentes em moldar a opinião pública do que os apelos emocionais e as crenças pessoais. Ou seja, a verdade (vítima fatal), fica sempre em segundo plano. O resultado disso, segundo a festejada escritora, é “informação demais, relevância e apuração de menos”. O debate é instigante e louvo a sua iniciativa e coragem em publicamente suscitá-lo.
“E , enquanto, nós jornalistas, lutamos para noticiar a verdade”. Presunção.
Excelente texto. A mais pura análise do que vivenciamos hoje em dia, onde é crime discordar da maioria. Parabéns pelo texto e que venham mais!!
Texto maravilhoso da minha amiga Núbia Pereira.
É uma Lente interessante, mas que só enxerga apenas uma parte do problema. O debate que vem ocorrendo nas Redes, principalmente na esfera politica onde (graça a imensa popularização e liberdade de acesso) se destaca mais como um grande FLA-FLU entre opiniões e crenças ao invés de priorizar conteudos e racionalidade.
Melhor seria discutir o papel da Midiã Tradicional,, totalmente monopolizada por um restrito numero de famílias lideradas pela Rede Globo, na qual o “jornalismo” que prevalece é o do “Pensamento Único” dos interesses escuso da apodrecida Elite Brasileira, o ódio ideológico contra todos e tudo o que não bate com o liberalismo fascista que abraçam e a “formação” de um verdadeiro exercito de “Midiotas”
Parabéns pelo texto, oportuno em tempos sombrios.
Concordo, Lila. Oportuno e muito bem tecido. Parabéns, Núbia.