por Samuel Lima (*)
Uma série de reportagens com o sugestivo selo de “Cartolas jogo sujo” (Rede Record) resgata a melhor tradição do jornalismo investigativo, na televisão brasileira. Pilotada pelos jornalistas Luiz Carlos Azenha, Rodrigo Vianna, Emerson Ramos e Carlos Moreira, a série mostra que há mais coisas no mundo da bola do que sonha nossa vã filosofia: mansões, indícios de propinas na casa de U$ 9,5 milhões, obras faraônicas e empresas fantasmas que lavam dinheiro na Europa. São quase 35 minutos de reportagem, quase um “século” em TV.
As reportagens repercutem, a rigor, matéria veiculada na rede inglesa BBC, cujo foco é a corrupção na poderosa Fédération Internationale de Football Association (FIFA), entidade que comemorou 107 anos de existência, em maio de 2011, e articula o futebol mundial.
Na era da economia global, o esporte bretão se transformou em mais uma “commodity”, um negócio de bilhões de dólares. Uma Copa do Mundo, como a do Brasil, em 2014, envolverá um orçamento global de R$ 142,3 bilhões, dos quais R$ 22,4 bilhões serão investimentos em infraestrutura. Alguns players globais são parceiros da Fifa nesse mercado: Adidas, Coca-Cola, Hyundai e Kia Motors, Emirates, Sony e Visa.
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Os repórteres da Record jogam luz sobre os negócios de Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), há 22 anos, resgatando contratos e empresas que alimentaram a fortuna amealhada pelo dirigente. É o caso da Sanud Etablissement, com sede no Principado de Liechtenstein, um conhecido “paraíso fiscal”, localizado no centro da Europa, encravado nos Alpes, entre o leste da Áustria e oeste da Suíça.
A empresa, fechada no começo de 1999, foi a ponta de lança no esquema de lavagem de dinheiro que abasteceu as contas de Teixeira e João Havelange (ex-presidente da FIFA). Datas e valores pagos, supostamente a título de propina, foram apurados em investigação realizada na Suíça, num processo no qual os homens do futebol são réus confessos.
“Desconheço que haja utilização do futebol para lavagem de dinheiro”, assegurou Teixeira no plenário da CPI da Nike, no Congresso Nacional, em 2000. No entanto, o ex-jogador Romário (PSB/RJ), deputado federal, ouvido pela reportagem é contundente: “Fora de campo existe hoje, na minha concepção, eu não vou chamar de máfia, mas de quadrilha, de algumas pessoas que mandam no futebol, e as coisas que acontecem no futebol não são claras”.
Enquanto isso, na Confederação Helvética, pátria-mãe da banca mundial, a Justiça decide nos próximos meses se divulga ou não os detalhes do acordo pelo qual a Fifa devolveu o dinheiro da propina, pago aos seus dirigentes, entre os quais Havelange e Teixeira.
A aposta da TV Globo, concorrente da Record, foi noutra direção. Uma reportagem assinada por Renato Ribeiro (Bom Dia Brasil, ed. 10/06/11) capta uma crítica de um executivo do grupo que administra hoje o Soccer City, o maior estádio da Copa de 2010, disputada na África do Sul, mas não investiga o modelo.
“Acho que sem uma Copa muitos desses estádios não poderão se sustentar. O da Cidade do Cabo jamais deveria ter sido construído. Nunca”, observa o empresário. O Green Point, na Cidade do Cabo, custou R$ 1 bilhão. Ribeiro relata: “Depois da Copa, foi usado só 12 vezes. A empresa que iria administrá-lo desistiu e ele caiu no colo da Prefeitura. Chegou-se a pensar em derrubá-lo, mas mudaram de ideia. Um elefante branco clássico. Um lindo monumento ao desperdício de dinheiro público”.
O mega-orçamento é um duto pelo qual podem transitar os subprodutos da criminalidade organizada, como aqueles captados na investigação suíça sobre dirigentes e ex-dirigentes da Fifa.
O “modelo” se repete no Brasil, como farsa e tragédia. O protagonista agora é Andrés Sanchez, presidente do Corinthians, um cartola que se gaba de suas amizades: “Sou amigo do Ricardo Teixeira mesmo, sou amigo da TV Globo mesmo, apesar de ser gangsteres, sou amigo não sei de quem, eu não tenho problema não. Agora, eu vejo meu clube”.
O orçamento da Arena do Timão, que será o estádio paulista no Mundial de futebol, é o mesmo do Green Point, na Cidade do Cabo: R$ 1 bilhão de reais, dos quais apenas R$ 180 milhões sairão de cofres privados; os outros R$ 820 milhões virão de recursos públicos (isenção fiscal da prefeitura de S. Paulo e empréstimo federal, via BNDES).
A oposição, no Congresso Nacional, concentra sua ação no debate da Medida Provisória 527/2011, que tornaria sigiloso o orçamento das obras para a Copa, em sua fase de concorrência – instituindo o chamado Regime Diferenciado de Concorrência (RDC). A grande mídia comprou a história e reverberou o assunto, a partir do Jornal Nacional.
Enquanto a bola não rola nos gramados brasileiros, nalgum cantão suíço, os magistrados decidem a sorte dos “homens de ouro” do futebol global. Ricardo Teixeira é o presidente do Comitê Organizador da Copa de 2014, com amplos poderes para tomar decisões e pactuar contratos sobre um orçamento de R$ 142,3 bilhões ou 2,17% do PIB brasileiro, em 2010.
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* Santareno, é professor-adjunto da Fac. Comunicação da UnB. Pesquisador do objETHOS e professor-visitante do curso de Jornalismo da UFSC. Escreve regularmente neste blog.
Links das reportagens:
1) CBF e Ricardo Teixeira: por Luiz Carlos Azenha.
https://www.youtube.com/watch?v=fyWUeaTvOs0&feature=player_embedded
2) FIFA e João Havelange: por Carlos Moreira.
https://noticias.r7.com/jornal-da-record-news/videos/?idmedia=4df804c4b51a686a13b9a33d
3) Andrés Sanchez apóia Teixeira e ganha um estádio de futebol…: por Rodrigo Viana e Emerson Ramos.
https://noticias.r7.com/jornal-da-record/noticia/andres-sanchez-do-corinthians-ganha-estadio-por-apoiar-ricardo-teixeira/
Caro Jeso –
Professor Lima expos de maneira clara o conteúdo da reportagem investigativa da Record. Foi muito bem feita e com dados alarmantes. O leitor Daniel Silva nãodeixa de ter razão quando ele expõe que se trata de uma retaliação da Record contra a Globo, porém, não desqualifica o nível de jornalismo exposto na reportagem.
Porém, o que chama atenção é que nenhum dos acusados sofre qualquer tipo de sanção. Pelo contrário, continuam a ditar normas e regras.
Uma das mais gritantes é a empresa do sr Ricardo Teixeira ser a proprietária dos direitos da Copa do Mundo. Sendo que a filha é diretora da empresa, o advogado da CBF é o diretor jurídico e o assessor de imprensa da CBF é o mesmo dessa empresa. Se isso não é uma camuflagem da picaretagem não sei que nome se pode dar. E tudo com aval.
E não vai dar em nada.
Algum tempo atrás a ESPN/Brasil trouxe um programa inteiro sobre os gastos com o Pan/2006. Uma verdadeira aberração onde os responsáveis deveriam estar na cadeia. Nada aconteceu e os mesmos responsáveis estãoà frente da organização dos Jogos Olímpicos. Uma piada.
Fazer o que meu caro Jeso, só chorando na cama que é lugar quente
Um abraço ao Professor Samuel Lima
Antenor Pereira Giovannini
MEU TIO É D++++++++++++++
Jeso , quero aproveitar esse espaço para dnunciar que fui ASSALTADO em alter do chão hj a tarde . E não foi com arma ou coisa assim , foi com uma caneta e um bloquinho de papel . Estou com minha familia ,sou paulista mas moro em Manaus , e vim conhecer alter do chão pois já conhecia Santarém . Pedi almoço em uma barraca na ilha, não sei o nome , e deliciamos uma banda de tambaqui,um tucunaré médio e um pequeno , alguns refrigerantes e 8 cervejas , e para meu espanto na hora de pagar a conta……..300,00 ( TREZENTOS REAIS ) , e achei que estava errada quando fui conferir . Uma banda de tambaqui 70,00 ( SETENTA REAIS ) , o Tucunaré médio 60,00 ( SESSENTA REAIS ). A comida estavamuito boa ,mas sinceramente , nem o serviço, tampouco a estrutura justificam tamanho absurdo . Só para comparar , a melhor churrascaria de São Paulo , servindo carnes maravilhosas e um buffet que vai de saladas a salmão sai por 120 , 00 ( CENTO E VINTE ) per capta , e além da ótima comida , ofereçe ambiente climatizado, manobrista,cadeiras confortáveis , pessoal super qualificado ,enfim . E mais , sabe quanto custou cada passagem no trecho Manaus-STM-Manaus ( 278,00 ) ,menos do que a nossa conta .
É um desabafo ,mas também uma crítica construtiva , pra que não tenhamos essa imagem da bela Alter do Chão , o Turismo deve ser explrado, não o Turista . Perguntei por lá e me disseram que a COMUNIDADE é assim mesmo . Correm o risco de sair em um jornal de grande circulação com o título … A mais Bela e Mais Cara praia do Brasil , fica aqui meu registro e minha contribuição .
Como vc é um grande formador de opnião espero que divulgue esse registro , para que autoridades e a ” COMUNIDADE” não deixem isso se repetir .
Grande Abraço
O futebol a cada dia oferece mais conteúdo para tal tipo de reportagem.Então porque não vir aqui investigar o malaca do Rozinaldo e sua turma de Ali Babas?
No meu ver não existe resgata algum do jornalismo investigativo brasileiro, pois os mesmos estão ai sendo feitos a todo instante pela globo, sbt, rede tv band e pela própria record e etc. O que se trata na realidade é de retaliação por parte da tv record por ter perdido a compra dos direitos do campeonato brasileiro dos próximos 3 anos pra globo. Tivesse eles o apoio da cbf de Teixeira e levassem o brasileirão a record nunca teria feito essa reportagem, adivinha quem teria feito? Isso mesmo a globo, ou já se esqueceram o que deu origem a cpi da nike?
Caro Daniel,
Trabaho com monitoramento de mídia, pra fins de pesquisa, e confesso que não vi nenhuma reportagem nas outras emissoras citadas com a mesma profundidade. Só o jornalista Juca Kfouri, que já acumula contra si mais de 100 processos movidos pelo “capo” da CBF, o fez em profundidade. O trabalho de investigação jornalística da Record, à frente os profissionais do peso de Azenha e Vianna, correm noutra raia, a meu ver.
Quanto à CPI da Nike, nada tem a ver com a Globo: sua origem é uma conversa do ex-jogador Edmundo, num estúdio de uma produtora de vídeo paulista. Essa gravação foi repassada ao repórter investigativo Cláudio Tognolli e, via jornais impressos, ganhou dimensão pública e política, resultando na CPI da Nike. A TV Globo tem em seus quadros excelentes profissionais que atuam no front da investigação jornalística, como o genial Caco Barcellos.
A rigor, no âmbito internacional, o mérito desse trabalho é do jornalista Andrew Jennings, repórter da BBC, que no começo dos anos 2000 publicou o livro “Foul!” (aqui traduzido como “Jogo Sujo: o mundo secreto da Fifa – compra de votos e escândalo de ingressos”), investigando o esquema comandado por Havelange/Blatter. A “concorrência” para transmissão dos jogos do brasileirão é algo de arrepiar os empresários honestos que acreditam, verdadeiramente, na livre concorrência, mano velho. Confira o processo no CADE – órgão do ministério da Justiça.
Saludos democráticos,
Samuca
Sei que isso é uma mensgem antiga, mas mesmo assim eu li, e concordo com o Daniel, muitos estão se deixando se iludir pelas atitudes da Record. Logo essa emissora que se beira tantas duvidas de como a emissora foi comprada e de onde veio o dinheiro.
Eu pergunto a todos, se você sabe que alguem é bandido e o que ele faz é ilegal você faria negócios com ele?
Aposto que as pessoas com ética diriam que não.
Então por que a Record antes de fazer todas essas denuncias tentou comprar o campeonato brasileiro e negociar com a CBF, jornalismo de denuncia e investigativo tem que vir pelo fato de se querer fazer o cerrto fazer justiça pela moral a ética e a legalidade.
Não considero o que a Record esta fazendo de jornalismo investigativo, pois ela tentava negociava com estes mesmo até perder a chance de comprar o campeonato.
Não existe santo só aquele que ficou de fora da bolada e por indignação começa uma retaliação.