por Helvecio Santos (*)
Nem bem tiramos a fantasia do Carnaval e o comércio já se prepara para caçar “lebres”. Ao lado do Natal, Dia dos Namorados, Dia das Mães e Dia dos Pais, a Páscoa forma o quinteto festivo para o comércio e, na linguagem comercial, festa é sinônimo de faturamento.
As contas do Natal ainda não foram quitadas e as maquininhas de cartão de crédito já estão a todo vapor.
A euforia novamente está no ar!
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É um tempo de sorrisos, de apressados votos de feliz Páscoa nos sinais de trânsito, de corre corre aos shoppings em busca de presentes, de ovos de chocolate para todo lado, de música em alto volume para todos os gostos ou desgostos.
Até os motéis aproveitam! Gasto acima de um determinado valor leva brinde com focinho do dengoso coelho artisticamente decorado e aí a coisa pode dar “rolo”. Vai que o cara é casado e esquece no porta luvas do carro? Como explicar que o brinde não veio acompanhado de uma “coelha”?
Outro dia, ainda no Carnaval, uma mãe dizia na televisão que já comprara os ovos para a sorridente filha, por sinal bem gordinha, pois não queria que ela corresse o risco de ficar sem páscoa. Com ares de dever cumprido, disse que a páscoa já estava garantida. Ulalá!
Visto da forma como é festejado pelo povo e concebido comercialmente, essa páscoa seria perfeita no reinado de Baco ou no reinado de Dionísio.
Mas será que é assim que a banda toca?
Não deveria ser, mas são mudanças dos tempos, tempo de superficialidade, de relativização dos conceitos e padrões, de coelhos de chocolate e adoração a bezerros de ouro.
E a Páscoa, a Páscoa mesmo, a “passagem”, como fica?
Relembrando, a palavra vem do hebraico, “pessach” (passagem). Celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito e é narrado na Bíbia, no livro de Êxodo. Guiado por Moisés, após dez pragas sobre o povo do Egito, o faraó libertou o povo de Israel.
Na cristandade é uma festa anual que celebra a Ressurreição de Cristo após sua morte na cruz ou, pelo menos, deveria ser.
No Brasil, a maioria é cristã, embora alguns sejam cristãos de estatística ou, como digo, cristãos de supermercado. Como no supermercado, onde andamos nos corredores e colocamos no carrinho o que nos interessa, também estes cristãos, à luz da sua fé, vão pelos corredores da vida colocando no “carrinho” o que lhes convém da fé cristã.
Assim, a Páscoa passa a ter um sentido particular, customizado, à vontade do freguês.
Em vez do lava pés na quinta feira, a alma é lavada com o espírito da cerveja e o corpo nas piscinas, rios ou mares, o que é continuado na sexta, turbinado por suculentas picanhas, com o som na caixa a todo volume.
Reflexão? Passagem? Novos rumos na vida? Para que? Afinal, o Homem não morreu para salvar a todos? Então, se todos estão salvos, o negócio é aproveitar…
Perdemos para o consumismo o referencial das datas importantes.
Nossa memória está contaminada. O templo, qualquer templo e seu reverencial silêncio, propício a um encontro com o nosso interior, são trocados pelos shoppings onde as crianças são levadas para cantar (?) aleluias pela Ressurreição de Jesus ao redor de suculentas pizzas.
É o ateísmo prático dando sustentação a uma vida onde os vínculos espirituais são peças de museu ou totalmente descartáveis.
A fé é trocada pelo consumo e o mais importante não é o ser, mas sim, o ter. Nossas crianças são educadas a serem medidas por quem tem mais e quem pode mais, não importa como. Por este norte, o enriquecimento a qualquer preço é a melhor tradução para vida abençoada. Então, nada mais lógico e natural convivermos com o festival de corrupção que assola o país.
“Que país é esse”???
Assim como no Natal quando o Papai Noel é mais lembrado que Jesus, o aniversariante, também na Páscoa, os presentes, os ovos, o chocolate, o coelho dão sentido e direção à festa e têm maior visibilidade.
Ao invés da passagem espiritual, nestes novos tempos de passagem regada a quilos de chocolate, suculentas picanhas, chopps e sonzão, a única garantia que temos é a da passagem de gordos para obesos.
Que venha a Páscoa!
A escolha é sua!
P.S.: estes escritos são dedicados aos amigos cristãos, Roberto (Vinholte, Dr.) e Dona Norma, viúva do inesquecível amigo Bigode, a quem o estendo, onde quer que esteja.
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* Santareno, reside no Rio de Janeiro. Escreve regularmente neste blog.
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