
por Wildson Queiroz (*)
O romance Verde Vagomundo, de Benedicto Monteiro, publicado em 1972, teve grande repercussão nos meios literários e consagrou o autor como um dos grandes romancistas da Amazônia.
A trama se desenrola numa pequena cidade do interior da Amazônia, só depois identificada pelo nome Alenquer, terra natal do autor.
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Foi em Alenquer que Benedicto Monteiro nasceu e passou boa parte de sua juventude, local das brincadeiras de criança, da primeira escola, da primeira professora e da primeira namorada. Saiu para estudar e voltou formado em Direito, foi doutor em sua terra, advogado, vereador, político e deputado.
Foi na acanhada tribuna da Câmara de Vereadores de Alenquer que Benedicto Monteiro fez sua estreia na política. Era dotado de magnífica oratória, sendo capaz de prender a atenção de grande público em seus discursos e explanações.
Foi em Alenquer que Benedicto Monteiro buscou refúgio quando os militares lhe cassaram os direitos políticos e lhe caçaram pelas Verdes matas do infinito Vagomundo.
Passou de herói a bandido, preso e algemado, exposto como troféu diante de sua própria gente, foi arrancado de sua terra e obrigado a exilar-se do convívio com sua família, a afastar-se dos amigos, parentes e afilhados.
Alenquer de tantas lembranças, a pequena cidadezinha escondida e espremida entre os rios da Amazônia está presente no âmago das obras de Benedicto Monteiro.
Em Verde Vagomundo, encontramos dois personagens com voz ativa. São eles, o Major Antônio, que veio a cidade com o objetivo de vender as terras que seu pai lhe deixou de herança, e o caboclo Miguel, também conhecido por Cabra-da-Peste e Afilhado do Diabo.
Ao tecer um comentário sobre a origem da cidade, o Major nos apresenta o seguinte relato:
Naturalmente, em torno da antiga capela, armaram choças, e em redor da atual igreja, construíram casas e barracas. E agora, casas, choças e barracas, formam esta pequena cidade perdida na beira deste igarapé infindável e sinuoso. Vê-se que a cidade permanece parada por muitos anos entre o rio e a mata; como se quisesse apenas cercar e guardar esta imponente igreja! Além desta igreja que chamam de matriz, avulta também esta velha e comprida ponte. Mas a ponte sofre com o povo e com o rio: na enchente ela aparece como modesto trapiche; mas na vazante ela assume a condição de antigo monumento ou marco perdido de uma civilização quase extinta.
Refletindo mais um pouco sobre a condição da cidade, sua localização no meio da mata e a dificuldade de transporte e comunicação com outras regiões, acrescenta ainda:
Bem pensado, só mesmo a matriz com as suas duas torres fincadas no céu infinito, e a comprida ponte projetando-se sobre o paraná manhoso, tem alguma relação com o pretencioso nome da cidade. Quanto ao resto – o nome Alenquer – soa como verdadeiro anacronismo. Lagos e lagos, rios e rios, paranás e igarapés serpenteando em matas alagadas, sugerem qualquer nome da mitologia grega que tenha relação com labirinto.
De tão isolada, a cidade parece não ter conexão com o resto do país, com o que acontece no mundo, talvez por isso, surgiu recentemente entre os jovens da nova geração o apelido bairrista, exagerado e carinhoso de Capital do Mundo, quem reside em Alenquer vive em seu próprio mundo, ou melhor, na sua própria capital. Para o Major Antônio, um dos protagonistas do romance, duas características marcam e identificam a cidade:
A água e o Santo, sim marcam e demarcam a fisionomia da cidade: influem na sua vida e decidem a sorte do povo encurralado. Assim todos vivem: ou do movimento arbitrário das águas ou da proteção infalível do Santo.
O próprio calendário, calendário dessa gente, divide-se também de acordo com o movimento das águas. Não existem semanas nem meses. Existem safras, que são marcadas pelo cair das frutas nativas e dependem da precipitação das chuvas e do nível das enchentes. E, a única festa que é ao mesmo tempo feriado e dia-santo-de-guarda, é o dia da festa de Santo Antônio. Santo Antônio Padroeiro de Alenquer: protetor do povo e da cidade.
Todos os grandes eventos do mundo, todas as grandes datas nacionais, pouco ou nada representam. Até mesmo os grandes acontecimentos da Pátria chegam aqui já completamente desfigurados: são meras notícias reduzidas a comentários de rádio e jornais. Aqui, o sol e a chuva marcam a divisão do tempo.
Essa visão de isolamento é também uma visão fatalista, como se não existisse vida fora da cidade, como se cada morador estivesse preso a um destino previamente traçado pela natureza e pelo destino, preso à terra, preso à rotina e a vida pacata e tranquila, para muitos, o solo desta terra é dotado de tantos encantos que ninguém pensa em abandoná-la, ou será que a nova Capital do Mundo é de fato isolada do resto do planeta.
A história todinha da cidade é contada através das enchentes: enchentes pequenas, enchentes médias e enchentes grandes. Já as safras se encarregam da divisão do trabalho: safra de juta. Mas, tanto a semente que cai, como a água que vaza ou enche, como o peixe que esconde ou morre, como a caça que emigra, como o fruto que apodrece, como o capim que grela ou seca; tudo tudo depende da proteção do Santo. Por isso a festa de Santo Antônio marca o destino do povo e da cidade.
Em Alenquer é assim mesmo, na Capital do Mundo o tempo passa devagar, lentamente, no ritmo de uma carroça de boi ou de uma leve canoa deslizando pelas águas do rio, as vezes parece que está se arrastando e não há como negar que o ano e a medida do tempo se dividem em apenas dois, em antes e depois da festa de Santo Antônio.
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É pedagogo e historiador. Membro fundador do IGHTap, Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós. Escreve regularmente neste blog.
e abaixo a Várzea City !!!!
Parabéns pela excelente resenha do Verde Vagomundo da recondita Alenquer.
O maior escritor amazônico !!!!! e apaixonado por Belém !!! todas s bibliotecas públicas e privadas deveriam ter as obras desse escritor fenomenal !!!!! SE queres ser universal canta a tua aldeia frase atribuida ao genial Leon Tolstói !!!! Viva Alenquer !!!!
Lindo texto !