Falta d'água no Aningal, à margem do rio Surubiú. Por Silvan Cardoso
Falta água no Aningal, para o sofrer de Cíntia. Foto: Reprodução

O dia amanheceu e junto veio a pressa pra ir ao trabalho. Cíntia levantou-se rapidamente de sua rede, acordou o filho, que estava deitado numa rede ao lado, e tratou de ir à cozinha preparar o café da manhã. Pegou a esculateira, que tinha dobrado sobre o jirau na noite anterior, ligando a torneira para enchê-la de água. Porém, não veio nada. Balançou a torneira, insistindo para que a água viesse, mas foram tentativas inúteis. Novamente estava sem água. Talvez mais um dia sem poder ter água encanada.

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Cíntia morava no Beco do Seringal, no bairro Aningal, em Alenquer. Naquele começo de manhã, ela estava bastante apressada. Faltavam aproximadamente 20 minutos para chegar ao seu trabalho. Olhou para o tanque e nada viu além de sujeira. Os baldes que colocava no banheiro também não tinham nada de água. Apenas uma cuia sobre a mesa da cozinha ainda armazenava pela metade o líquido precioso. Seu filho de 8 anos olhava-a com uma aparência triste, sentado sobre uma cadeira e esperando a mãe conseguir alguma solução. Estavam apenas os dois naquela casinha de madeira.

Cíntia separou-se há 5 anos de seu companheiro, que foi embora para outra cidade. Seus pais e imãos moravam em Santarém. Ela ficou em Alenquer para acompanhar o marido, mas depois da separação, continuou na sua terra natal. Desde então, teve que sobreviver junto de seu filho aos desafios que estariam por vir. Passou a trabalhar de faxineira nas residências. Em algumas semanas conseguia bastante serviço. Em outras, quase não tinha.

Entre os muitos desafios que tinha que encarar, estava a falta de água encanada. Há muitos anos que em Alenquer tinha o “dia da água”, ou como diziam os moradores, era água disponível num dia sim e num dia não. O problema na distribuição de água por toda a cidade prejudicava bastante as pessoas humildes.

Cíntia sabia que a cada dois dias tinha água. Então ela já se preparava para esses dias de “revezamento”. Contudo, inesperadamente ficou sem água durante três dias seguidos. E justamente no quarto dia, esperançosa de que a água viesse, levantou-se nessa manhã e ligou a torneira para ver se conseguiria fazer o seu café. Mas estava no seco.

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O tempo estava passando e Cíntia não poderia esperar mais. Sua sobrinha, que cuida de seu filho enquanto ela está no serviço, estava prestes a chegar. Mas seria impossível passar um dia com tranquilidade naquela casa sem qualquer recipiente com água. Não tinha outro jeito. Foi ao banheiro, pegou um balde e dirigiu-se até um vizinho, que tinha poço e que dava água aos moradores próximos sem cobrar nada.

A criança acompanhou-a na caminhada. Bateu palmas na frente da casa em pleno começo de manhã e o homem apareceu.

“Posso pegar um pouco de água, vizinho?”, perguntou ela com o filho agarrado nas suas roupas. Sem qualquer problema, ele abriu o portão e pediu que ela entrasse e que tirasse água à vontade. Ela foi até uma torneira e ligou-a com o balde embaixo. Seriam mais de 100 metros de caminhada do vizinho até a sua casa carregando o balde cheio. Queria colocar a maior quantidade possível de água em seu tanque em pouco tempo, para que pudesse chegar ao seu trabalho pontualmente. Mas olhando para o relógio, viu que faltavam 15 minutos para chegar ao trabalho.

Não deu tempo para limpar o tanque. Tratou de começar a encher o tanque com sujeira mesmo. E nos momentos em que carregava sobre a sua cabeça mais um balde cheio, perguntava-se: “Será que amanhã teremos água?”

Ela não ouvia de pessoas próximas qualquer boato do problema ou de alguma solução para aquela escassez. Nem ouvia no rádio nem via na TV os motivos daquele grave problema. O que ela só sabia era que tinha que continuar carregando e tendo o alívio de ver aos pouco o seu tanque enchendo. A pressa e o tempo curto faziam ela mergulhar num desespero que já queria tomar conta dela. Ainda não tinha escovado os dentes nem tinha tomado banho.

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Uma vizinha idosa passou a carregar junto com ela. A idosa também morava sozinha e, com seu balde pequeno, tratou de encher as bacias da sua casa. Em uma oportunidade, relatou à Cíntia histórias da sua juventude, quando morava no alto da Travessa Santo Antônio décadas atrás, no Centro, num trecho que ainda era somente um caminho e que fazia parte do morro dentro da cidade.

Como na época não tinha água encanada no morro, era necessário carregar nos baldes. Só que eles iam até o Rio Surubiú e caminhavam cinco quadras, subindo a ladeira e caminhando sobre vegetação rasa para encher o tanque de sua casa. E lamentava, usando a expressão “em pleno século XXI” para tratar do problema.

As histórias tornaram-se distração. Mas quando retornava à realidade, Cíntia percebeu que só tinha cinco minutos para chegar ao seu trabalho. Sua sobrinha já estava na sua casa e já tinha preparado o café. O filho continuava se agarrando às suas roupas, mesmo que a mãe caminhasse às pressas. Logo, mais vizinhos saíram de suas casas com seus baldes. Via-se um movimento intenso. Em outras ruas, pessoas esticavam mangueiras entre uma casa e outra. Pela cidade viam-se lutas por sobrevivência. Adquirir água com seus baldes tornou-se rotina. Uma desesperada rotina.

Cíntia era só mais uma entre milhares de pessoas que não têm condições de cavar um poço e que, por não terem tempo ou sem ter de onde adquirir água, dormem sem se banhar ou acordam sem poder escovar os dentes. As histórias que são constantemente vividas e relatadas entre convivências e conversas, repetindo-se e tornando-se pesadelos que não se consegue interromper com o despertar do sono ou com o piscar de olhos.

<strong>Silvan Cardoso</strong>
Silvan Cardoso

É poeta, cronista e pedagogo nascido em Alenquer, no Pará. Escreve regularmente no BJ.

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