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“Uma certeza eu tive: os atores eram outros, mas o filme era o mesmo”

A culpa é toda sua, Babá. Por Jorge Ary Ferreira
Sebastião Tapajós, o Babá, que faleceu neste ano – início de outubro. Foto: Reprodução


O ano era 1979, já com uns 4 a 5 anos de Belém, com pouca experiência na vida, é verdade, desbravando ainda a capital, encontrei meu querido amigo Kokó Rodrigues, recém-chegado de Óbidos, que havia conseguido três ingressos de um show no Teatro da Paz. Salvo engano, o Haroldo Tavares, seu cunhado, deputado à época, certamente sabendo de seu gosto pela musica, lhe presenteou esses ingressos.

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E eu fui chamado pelo Kokó, que ainda estava se desvencilhando da velha matutice pauxinara, e ainda bem cauteloso com os riscos da cidade grande, não sabia como entrar no Teatro da Paz, e eu logicamente, idem, porém, já habituado a encarar as dificuldades e na companhia da cara de pau que me é peculiar, só fiz dizer:

– Deixa comigo!

Ficamos do Bar do Parque estudando o ambiente. Gente grã-fina e cheirosa chegando, logo alertei:

– Vamos que esses chique não podem sentar na nossa frente.

Saí perguntando, logo conseguimos chegar no foyer, nos altos do Teatro do Teatro da Paz. Abusados, sentamos na primeira fila, eu, Koko e o saudoso Carlos do Castanha, outro ainda cru na “capita”, quando, enfim, entrou aquele baixinho, meio calvo, com um violão na mão, e simplesmente, nos habitou por uma hora e meia com a beleza de seus acordes, período em que não trocamos uma palavra sequer.

Parecia que estávamos hipnotizados por aquela melodia, que jamais imaginei que pudesse extrair daquele instrumento para nós tão familiar, porém ainda muito inexplorado, um momento decisivo para lapidar o meu gosto musical.

Quando acabou o show, fomos ao apartamento em que o Kokó. Morava com suas irmãs, ao lado do Cinema 1. Sentamos na escada do prédio, onde costumávamos ensaiar o repertório do nosso regional. Simplesmente o cara pegou o violão e solou uma música francesa chamada C’est la vie, praticamente de forma Idêntica à execução daquele gênio chamado Sebastião Tapajós, provando, com isso, a necessidade da convivência entre o talento que brota e o talento maduro.

Já naquela época Kokó demonstrava o grande músico que viria a ser. Na verdade, os filhos do Duquinha Pinheiro herdaram o DNA musical do pai. E se nunca agradeci ao Kokó, deixo aqui esse registro, muito obrigado meu amigo por ter me proporcionado aquele momento maravilhoso!

Foi então que 18 anos se passaram, já era 1997, estava eu, secretário de Cultura no governo do prefeito José Mário de Souza, e respondendo pela pasta de Cultura do município, era nosso dever contribuir com o Festival do Jaraqui, que sempre ocorre nos primeiros dias de junho, no período da piracema.

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Acordei tudo entre a Secretaria e a Associação Cultural Obidense-ACOB. Enquanto trabalhava o planejamento do referido festival, soube que Sebastião Tapajós estaria em Oriximiná na mesma semana, fazendo um show em uma casa noturna do grande amigo Lúcio Garcia. Entrei imediatamente em contato com o mesmo, que me colocou com Nilson Chaves, que me passou o valor do cachê, bem acima da nossa realidade financeira.

Com muito esforço e também muita compreensão por parte do Sebastião, a quem me dirigi no momento do fechamento e que compreendeu nossa limitação financeira. Aceitou fazer o show por um valor abaixo do cobrado habitualmente, que logicamente era merecido, mas nós não tínhamos. Ele foi bem flexível e fez questão de tocar em nosso festival.

Juntamente com Nilson Chaves, fizeram o show chamado Amazônia, acompanhados de 2 percussionistas de primeira linha, Mapil e Marcos Ama. Tempos depois, o encontrei em Santarém, e o fiz lembrar desse dia em uma conversa amena. Ele me confessou que nunca esqueceu o palco, em uma balsa na garganta do Rio Amazonas.

Alguns anos se passaram, voltei a encontrar Sebastião Tapajós, já com a idade bem avançada porém com o talento em dia, no festejo de 60 anos meu grande amigo Dr. Edson Silva, em uma casa linda no Carapanari, em Santarém, um dia muito descontraído e também inesquecível.

Por último, tive o grande prazer em recebê-lo, há 3 anos, com ajuda de alguns amigos, dentre eles Dr. Edson Silva, grande apreciador de uma boa música, e Antônio Dezincourt, o Rolinha, mocorongo da melhor qualidade e parceiros de velhos tempos, a quem aqui agradeço, uma vez que, somente com o apoio dos amigos, conseguimos trazer Sebastião Tapajós para uma apresentação na Cantina São Jorge, naquela oportunidade um empreendimento no ramo de gastronomia, sempre regado com uma cervejinha gelada e boa música.

Agradeço muito por aquela noite especial ao lado do Gonzaga Blantes, que, inclusive, lançaram uma música dedicada a Óbidos, muito bonita por sinal.

Nessa sua última estada em Óbidos, fizemos um encontro na manhã seguinte, também na Cantina São Jorge, com os alunos da escola de música Manoel Rodrigues, onde aquele senhor, gênio da música mundial, mostrou toda sua humildade e abriu seu coração em uma palestra àqueles jovens, vários deles músicos promissores.

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Para esse encontro, tivemos o apoio da Prefeitura de Óbidos, a quem agradeço na pessoa do prefeito à época Chico Alfaia. Para completar, abro o Facebook e deparo com um daqueles alunos da escola de música, Lucas Mousinho, interpretando uma valsa de autoria de Sebastião Tapajós. Confesso que fiquei em dúvidas se estava bisbilhotando o Facebook ou se estava na escada do edifício Saci admirado com os acordes do Kokó.

Uma certeza eu tive: os atores eram outros, mas o filme era o mesmo. E mais uma vez eu tive certeza: ao talento que brota, o talento maduro.

Então, gente, com esse breve relato, venho a público pedir desculpa ao sertanejo universitário, ao calypso e outros do gênero, mas a culpa é do BABÁ. Ele chegou primeiro e me fez assim, sem querer me colocou esse gosto musical exigente, portanto, fica difícil gastar meu perfume em um show de vocês, me desculpem!

<strong>Jorge Ary Ferreira</strong>
Jorge Ary Ferreira

Natural de Óbidos, foi tabelião por 20 anos do Cartório de Óbidos. Empresário, cronista, agitador cultural. Também é conhecido como “Jorjão”.


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