Argentina: viciado no fracasso, em crise e próximo do abismo. Por Gustavo Freitas

Quem já foi à Buenos Aires se vislumbrou com aquela capital que mais parece ser um pedaço da Europa na América Latina. A cidade bem arborizada, cercada de parques e casarões bonitos é o retrato do país que já foi um dos mais desenvolvidos do mundo no século passado.

Mas não precisa de muito tempo para notar que Buenos Aires também serve como uma maquiagem para esconder a nova realidade do povo argentino, um país fracassado, cada vez mais pobre, com uma classe política corrupta e acostumada a repetir as mesmas fórmulas ultrapassadas para solucionar problemas históricos.

 

Gustavo Freitas *

Por cima de tudo isso, uma pandemia veio para assolar de vez as esperanças de dias melhores, com um agravante: os indicadores mostram que vai piorar.

Para entender a Argentina é preciso falar de Juan Domingos Perón, um coronel da década de 40 que era secretário do Trabalho na ditadura e responsável pela criação de leis e estatutos trabalhistas, além de uma infinidade de direitos ao trabalhador que o tornaram extremamente popular. A idolatria a Perón fez o povo ir às ruas para levá-lo à presidência da República por três vezes.

Sua mulher, Eva Perón, também era altamente popular entre os mais pobres, se tornou símbolo de justiça social após seu falecimento no auge da fama, e tem até hoje seu rosto estampado em toda Argentina. Para se ter uma noção da popularidade de Juan Perón, a sua terceira esposa, Isabelita Perón, foi eleita sua vice-presidente no terceiro mandato, assumindo o poder com a morte do marido e se tornando a primeira mulher presidente do ocidente.

A ideologia peronista está presente na Argentina desde então. O peronismo defende, dentre tantas coisas, um estado forte, altos subsídios sociais, controle das exportações e a integração sul-americana. Impossível defini-lo como de esquerda ou de direita porque o peronismo engloba todos os lados. Aliás, o próprio Perón definiu muito bem o peronismo em entrevista à uma TV espanhola: “Olhe, a Argentina tem 30% de radicais (social-democratas), 30% de conservadores e um outro tanto de socialistas”, disse. “Mas onde estão os peronistas?”, perguntou o jornalista. “Todos somos peronistas”, respondeu Perón.

— LEIA também de Gustavo Freitas: O conflito entre Israel e Hamas é também guerra de narrativas.

Esse modelo de estado se tornou altamente insustentável, o ambiente inóspito de negócios em solo argentino causou a fuga de capitais, o congelamento de preços causou escassez de produtos, o estado forte veio acompanhado de um enorme índice de corrupção, fazendo com que os recursos já escassos não cheguem naqueles que mais precisam. O resultado da má política sempre vem, no caso da Argentina ele veio com juros e correção monetária: inflação, hiperinflação, dívidas, calotes e muita pobreza.

O problema é que na Argentina, quando a beira do abismo parece ser inevitável, o país experimenta tempos bons onde tudo parece ter se consertado. Esses breves períodos se tornam a receita perfeita para que as velhas fórmulas políticas e econômicas ultrapassadas voltem a ser destaque, é como se fosse um sujeito viciado em apostas que sempre se dá mal, e quando tá perto de desistir da vida de apostas, acerta um pequeno bilhete premiado, suficiente para lhe fazer acreditar que vai ganhar de novo se continuar apostando. Assim funciona a Argentina.

Para piorar, veio a pandemia e o presidente argentino Alberto Fernández, um peronista declarado, decidiu tentar as mesmas práticas do passado. Congelou os preços dos alimentos, telefonia e TV para tentar conter a inflação, o resultado não poderia ser diferente, os mercados passaram a ser obrigados a vender o produto por um valor menor do que o da produção, então decidiram parar de vender esses produtos.

Prateleiras vazias, escassez de alimentos e o povo sem ter o que fazer. Além disso, Fernández criou um imposto sobre grandes fortunas para que o estado arrecadasse mais recursos, mas os primeiros resultados já mostram que a arrecadação é 74% menor que o esperado porque apenas 2% dos que deveriam pagar, aceitaram o aumento. Esse é mais um episódio das velhas práticas intervencionistas que são carregadas de boas intenções, mas na prática não funcionam.

E como fica o povo com tudo isso? Além de irritado, está mais pobre. Em 2019, a pobreza na Argentina já era alarmante, cerca de 35%. Em 2021 esse número chegou a 42%, somando-se à uma classe média altamente endividada.

Como disse o jornalista Federico Rivas: “A Argentina é sempre a Argentina aos olhos dos demais. Moderna, sedutora e avançada nos tempos de bonança. Mentirosa, obscura, contraditória e um mau exemplo para o mundo quando mergulha no descrédito de uma recessão econômica”.

— * Gustavo Freitas, 21 anos, é estudante de Relações Internacionais e escreve sobre política internacional.

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5 Comentários em: Argentina: país viciado no fracasso, em crise e próximo do abismo. Por Gustavo Freitas

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  • paulo disse:

    Peron,
    esquerdista que acabou com o país mais desenvolvido da América Latina. FATO.

  • J. Pau nos políticos canalhas disse:

    Uma coisa é certa e comprovada em muitos países e no mundo: o capitalismo liberal nunca deu certo e não dará. Precisamos de um novo modelo de desenvolvimento social e econômico.

  • Maldonado Mapuche disse:

    Mas que texto mais Ernesto Araújo, sem pé nem cabeça. Ninguém tem vocação para o fracasso. A Argentina tem uma tradição social democrata, populista, sim, mas tem indicadores de educação e saúde muito superiores ao Brasil. Acho que um motorista de táxi lá, precarizado por esse liberalismo tacanho, escreveria um texto mais inteligente do que esse. O sujeito vai uma vez à Argentina e acha que entendeu tudo… Lamentável. Vai estudar o Governo Alfonsín e, principalmente tire esse óculos de Paulo Guedes da cara, essa visão dos anos 70 a partir de Chigago. Até o liberalismo tem leituras melhores do que esse texto.

    Colonizado tosco!

  • Antônio Ribeiro disse:

    VOCÊS COMUNISTAS NÃO ACEITAM QUE ESSE SISTEMA NÃO DEU CERTO EM LUGAR NENHUM. COMUNISMO É BOM, ÓTIMO! PARA QUEM FICA NO PODER OS DEMAIS TEM QUE TRABALHAR PARA SUSTENTAR VAGABUNDO.

  • Raimunda disse:

    Interessante a análise. Apenas senri falta de menção a como a Argentina e o povo mais pobre esteve durante os governos liberais. Especialmente, como Alberto Fernandez recebeu a Argentina de Macri. Aliás, porque Macri perdeu a eleição.