Queda de Kabul: o mundo falhou com o Afeganistão. Por Gustavo Freitas
Homem armado passa diante de imagem vandalizada em Kabul pós-retirada dos EUA. Foto: Reprodução

Nas últimas semanas, a atenção mundial esteve voltada para o Afeganistão por conta dos desdobramentos da retirada de tropas americanas do país. Sem a presença dos Estados Unidos, o governo afegão não tinha condições de sustentar por si só uma batalha contra o Talibã.

Assim, 20 anos depois da queda deste mesmo grupo, eles voltaram ao poder. As imagens desesperadoras de um povo tentando fugir às pressas por medo do futuro retratam mais um triste capítulo da história deste país e atestam a incompetência da maior potência do mundo em lidar com problemas que eles mesmo criaram.

Aqui, um contexto histórico necessário:

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Quando a Guerra Fria estava no seu auge, os Estados Unidos buscavam meios de reduzir a influência da União Soviética pelo mundo. Desde o final da década de 70, o Afeganistão estava sob domínio soviético, que passou a controlar o país através de um golpe de Estado.

Na época, os soviéticos implantaram diversas reformas estruturais e culturais que agradavam uns e irritavam os mais religiosos, gerando confrontos diretos entre governo e população. Entre estes, um grupo de guerrilheiros chamados de Mujahideen chamou a atenção dos Estados Unidos, que passaram a financiá-los com armas e treinamento com o único intuito de fazê-los causar tumulto no país então dominado pelos soviéticos.

Dez anos após a invasão soviética ao Afeganistão, entre reformas e muitos conflitos, a decadente União Soviética sucumbiu. Os Mujahideen tomaram o poder, mas não conseguiram agradar a todos, abrindo espaço para o surgimento de um grupo de dissidentes que formou o Talibã.

Em 1996, eles já tomavam conta de todo o país, implantando uma rígida interpretação da Sharia, lei que rege a conduta de vida dos muçulmanos. Esse mesmo Talibã passou a permitir que grupos terroristas adentrassem no país para treinar e se esconder, como foi o caso da Al Qaeda, de Osama Bin Laden. Vejam só: na ira de enfraquecer a União Soviética, os americanos foram responsáveis pelo surgimento do que viria a ser o Talibã e que ajudou Bin Laden a cometer todos os atentados do 11 de setembro.

Em 2001, após os ataques em solo americano, o presidente George Bush anunciou a invasão ao Afeganistão para caçar Bin Laden e derrubar o Talibã do poder. O segundo objetivo foi concretizado facilmente, fazendo o povo afegão ser liberto das visões extremas que iam desde a proibição do corte de barbas pelos homens até a objetificação da mulher. A elas lhes foi negado o direito de ir à escola, a sua saída de casa era permitida apenas com a autorização de um homem e o uso da burca passou a ser obrigatório.

Uma das cenas emblemáticas após a tomada do poder pelos americanos, era ver os homens indo às barbearias para tirar a barba, como gesto de liberdade.

Queda da pior forma possível

Foram vinte anos dos Estados Unidos no Afeganistão e, assim como a União Soviética no passado, também tentaram implementar reformas a partir de uma visão que eles tinham do mundo, o que naturalmente não foi aceito como esperavam. Instauraram uma democracia, mas os governos eleitos eram extremamente corruptos e incapazes de atender as demandas do seu povo. Financiaram as forças afegãs para que fossem bem equipadas e treinadas, mas descobriram que mesmo assim seria insuficiente para combater o Talibã por conta própria. Além disso, os americanos jamais conseguiram eliminar o Talibã, apenas os tiraram do poder.

Naturalmente, ao longo desses vinte anos a guerra foi se tornando cada vez mais custosa e impopular nos Estados Unidos. Uma pesquisa da Forbes mostra que o governo americano gastou, em média, 300 milhões de dólares por dia desde 2001 para manter suas tropas no Afeganistão.

Além do alto custo, muitas famílias americanas passaram a ver que seus parentes estavam servindo o país em uma missão longa e desnecessária. Faltava um presidente americano pôr um fim nessa história, Obama não conseguiu, Trump prometeu e Biden concretizou. E fez da pior forma possível.

A saída foi irresponsável e caótica porque pareceu ter sido feita sem planejamento algum, deixando para trás muitas famílias que colaboraram com o governo durante as últimas duas décadas, resultando nas trágicas imagens de afegãos invadindo o aeroporto de Kabul para tentar fugir de qualquer forma, até mesmo pendurados na roda de um avião. Os Estados Unidos falharam na missão, fugiram do país como verdadeiros covardes, abandonaram aliados e deixaram para o mundo a impressão de que nem sempre são confiáveis, até mesmo com seus parceiros.

Afegãos fazem fila para deixar Kabul após retirada dos EUA do Afeganistão. Imagem: Reprodução

Não satisfeitos com essa bagunça, essa semana, a inteligência americana foi informada que um atentado terrorista poderia ocorrer no aeroporto de Kabul, já que ali estava concentrado um grande número de pessoas. Dito e feito. Um homem-bomba matou 170 pessoas, incluindo 13 soldados americanos. Um verdadeiro desastre que ocorreu porque o governo americano mostrou para o mundo que comete erros graves, possibilitando grupos terroristas agirem sem medo.

Entre disputas de grupos terroristas e potências, há uma população no meio que não tem a menor possibilidade de lutar por si só. O medo do Talibã é nítido. Em poucos dias eles já iniciaram uma verdadeira caça aos cidadãos que ajudaram os americanos, pediram para mulheres não saírem de casa e até mesmo proibiram que a população escute música em público.

O mundo falhou com o Afeganistão, a dura realidade é que em alguns dias viraremos as costas para o seu tenebroso futuro sob o Talibã. Mais uma vez, eles foram iludidos com o sonho de construírem a sua própria liberdade e acabaram submissos à vontade alheia.

 No final, é o povo afegão que ficará para resistir. A história está aí para mostrar que não é fácil colonizá-los, foi assim com britânicos, soviéticos e agora os americanos.

Fica a torcida para que um dia eles sejam verdadeiramente livres.

<strong>Gustavo Freitas</strong>
Gustavo Freitas

É estudante de Relações Internacionais e escreve regularmente no BJ sobre política internacional.

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