Jorge Mário, uma mistura de calmaria e tsunami. Por Núbia Pereira
Jorge Mário Cohen e Núbia. Foto: arquivo particular de Núbia Pereira

… Chega estampado, manchete, retrato. / Com venda nos olhos, legenda e as iniciais./ Eu não entendo essa gente, seu moço./ Fazendo alvoroço demais. / O guri no mato, acho que tá rindo/ Acho que tá lindo de papo pro ar/ Desde o começo, eu não disse, seu moço/ Ele disse que chegava lá/ Olha aí!/ Olha aí! Olha aí! (Ah, olha aí)/ Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)/ Olha aí! (Ah, meu guri)/ É o meu guri (olha aí meu guri)…

Jorjão me apresentou Chico (Buarque), Caetano (Veloso), Miúcha, Maria (Betânia), Nana (Caymmi), numa época em que eu iniciava minha carreira pra valer no mundo televisivo.

O primeiro show de MPB, aliá eu fui com ele assistir, foi na Sygnus. Tempos bons. Foi ele também que me levou para assistir ao show do Seu Jorge (na antiga sede do São Francisco).

 

Eu era uma menina desligada pra esses lances de música, não sabia cantar nenhuma música, mas o Jorge sabia todas, então tava tudo bem!! Mas Jorge não gostava só de Música Popular Brasileira, não! Ele era apaixonado por samba. E assim, passamos muitos carnavais.

Jorge sempre foi uma companhia agradabilíssima e me tirava de casa mesmo quando eu tava doente. Lembro uma vez, eu, arriada de gripe, nariz vermelhão e espirrando até dizer chega, ele chegou em casa, me tomou pelo braço e disse: tem um remédio que vai te curar rapidinho.

Saímos e, então, paramos num bar. Ele pediu um copo de caipirinha (com pouquinha cachaça e muitooo limão) e me deu. Haahahah Pasmem! Foi o suficiente pra gente seguir o baile até ao amanhecer.

Jorjão gostava de se divertir. Tinha muita energia. Sempre se divertiu do jeito dele, na maioria das vezes só ficava observando tudo… depois arriscava uma balançada tímida no esqueleto, um som com as mãos…

Cantava que dava gosto de ouvir e ver tamanha alegria de tá ali, sempre rodeado de amigos que se revezavam em cada saída, mas um, em especial, era presença constante, o irmão, Augusto.

Nunca via o Jorge, com exceção no trabalho, sem o parceiro, de todas as horas, do lado. Um era a sombra do outro. Os dois foram meus parceiros de boas diversões durante muitos anos, até o dia que tivemos que seguir novos rumos.

Fui morar fora. E a cumplicidade já não era mais intensa, mas a amizade nunca nos faltou. Sempre foi solidário, um bom ouvinte, um bom conselheiro. Me viu chorar. E gostava do jargão: te amo, porra!


“Amigo, sua missão na terra foi cumprida com sucesso e muita honra”


Era assim que ele costuma se despedir das conversas e seguir. Tem uma coisa que sempre achei diferencial no Jorge. Ele nunca elogiava à toa. Aliás, só elogiava quando ele gostava messsssmooo. Quando ele não gostava, ele ficava quieto.

Às vezes franzia a testa, entortava o canto da boca… Jorge me ensinou a ser exigente, a ser perfeccionista… Sempre procurar fazer o melhor (até hoje tento, quem sabe um dia chego lá). Jorge era uma mistura de calmaria e tsunami; de razão e emoção; de amor e, digamos, amor. Nunca o vi falando mal de ninguém. Respeitava a todos.

Não mandava recado. Chamava, falava… dizia o que achava, o que sentia. Sabia separar as coisas e, talvez, por isso, tem amigos espalhados por todo canto. Uns mais, outros menos…Uma coisa é certa: respeitou e foi respeitado, amou e, pra sempre, será amado.

A última vez que nos vimos foi num final de tarde na padaria, quando conversamos (cumprindo todas as normas de distanciamento), e nos despedimos com toques de cotovelos. Depois nos falamos pelo celular, foi quando me disse que a maldita covid-19 a tinha pegado, mas que tava tudo bem.

Eu sabia dos riscos, mas acreditei. Orei e pedi orações. Deus achou melhor e fez a vontade Dele como acredito que todos que clamaram pediram.

 

Ah, Jorge, essa despedida foi a lição mais difícil que tu passou pra mim. Tô sem chão e com o coração devastado. 😔😭 Descansa em paz, meu primo. 🙌🏻(Jorge me chamava de prima desde que me tornei esposa do primo dele, o Rui).

Amigo, sua missão na terra foi cumprida com sucesso e muita honra. Obrigada, por ter me permitido conhecer um gênio do mundo das comunicações. Meu abraço fraterno a todos (amigos, colegas, família, a Regina que sempre foi parceirona), em especial aos filhos que ficaram: Sara, Jorginho e Pedro Jorge.

Agora, ele descansa com Maria aguardando a vinda do Pai, para a vida eterna. Muito difícil escrever… Adeus, Jorge. 😭


— * Núbia Pereira é jornalista.

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3 Comentários em: Jorge Mário Cohen, uma mistura de calmaria e tsunami. Por Núbia Pereira

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  • Wilker Ferreira disse:

    Linda homenagem. Meus pêsames à família e aos amigos.

  • Esequiel Aquino disse:

    Ao amigo Jorge ” In memórian ”
    Belas palavras!
    Jorge foi tudo isso e muito mais, tive o privilégio de participar junto com ele em campanhas políticas, um excelente profissional…
    Que Deus lhe receba e conforte seus familiares e amigos.

  • Adilson Araújo disse:

    …o Jorge é assim..