A grande lição do novo coronavírus. Por Helvecio Santos

Há tempos escrevi neste blog, “Tão longe de mim distante”, onde aponto o distanciamento que as pessoas se impõem, mesmo às vezes estando tão perto, fruto do servilismo a um “ente” que atende pelo nome de celular.

Para ilustrar esse distanciamento, descrevi um suposto caso de dois amigos que marcaram um almoço para colocarem o papo em dia e isso é o que menos ou nada fizeram.

Helvécio *

Os dois se encontraram falando ao celular, se cumprimentaram com um aceno de cabeça, entraram no restaurante, sentaram e apontaram no cardápio o pedido, pois continuaram falando ao celular. Entre uma ligação e outra, engoliram a comida.

Pagaram a conta, saíram caminhando lado a lado e se despediram com um aceno de cabeça, pois estavam falando ao celular. Chegando ao escritório, o telefone tocou. Era um lamentando ao outro que nem tiveram tempo de conversar e se prometeram um próximo almoço.

Coisas que antes eram normais como colocar o assunto em dia, o papo olho no olho do casal ou com os filhos, não existem mais.

Agora o isolamento físico e afetivo é a tônica e o importante é a convivência “silícica” que conecta com o mundo e faz o usuário se sentir poderoso.

Em casa não é diferente!

Celular à mão, cada um isolado no seu quarto, curtem as redes sociais ou os noticiários e assim ficam sabendo tudo do mundo, tipo, “a ponte que caiu naquele longínquo rincão do longínquo país asiático”, coisas que normalmente nada constroem em termos pessoais e familiares e, sem perceber, cada dia ficam mais longe de casa, dos familiares, dos amigos, mesmo estando tão perto.

 

Aí chega a pandemia e o “fique em casa” faz a convivência familiar ser obrigatória e descobrimos que saber sobre a ponte que caiu na distante Ásia, antes tão importante para o cidadão mostrar-se antenado e a par de tudo no mundo, deixou de ser importante.

E foram mais de cem dias e essa outrora tão indispensável paixão “silícica” ficou cada dia mais chata e maçante, às vezes insuportável mesmo, quase só servindo para o delivery.

Aos poucos fomos percebendo que celular não dá beijo, não abraça, não aperta a mão, não consola nem incentiva e lentamente fomos caindo na real e percebendo o quanto isso é importante e o quanto precisamos desses gestos e afetos.     

Os papos em família, antes tão escassos, passaram a acontecer. O futebol passou a se fazer presente na sala de estar, descobrimos que continuamos gostando de colo, de vinho, de uma boa música e que refeição em família é tudo de bom.

O tempo que antes não existia passou a existir e um “mal” veio para relembrar que gente abraça, dá beijo, dá colo, incentiva, consola, motiva e até sorri.   

Redescobrimos que calor humano faz falta e que essa falta tem nome. Seu nome é saudade, e haja saudade!

Saudade do futebol dos fins de semana com os amigos, da cervejinha gelada depois, mesmo que seja só para rir das jogadas não tão brilhantes pela carga dos cabelos brancos, e o meu amigo Botica que o diga o quanto o antes e o hoje estão distantes para nós.

Mas, se não há mais jogadas brilhantes, podemos dizer que escrevemos uma jornada maravilhosa, mesmo que hoje a torcida seja quase toda composta pelas árvores que rodeiam o campo do Arraial Clube, na estrada que vai para Alter do Chão, logo depois do Cucurunã.   

Saudade de cumprimentar o gari que um dia, durante uma dessas rodadas de cerveja, deu uma das grandes lições da minha vida. Estávamos no bar de costume, aqui no Rio – pelada sempre tem bar de costume – e o gari de sempre passava ali, fazendo seu trabalho, cantando, feliz da vida.

Para fazer graça, um “jogador” gritou: ei, gari! Por que estás tão feliz varrendo a rua? E o gari, sem perder a pose, respondeu: estou varrendo o reino de DEUS! O dito cujo pagou a rodada, zuniu e nunca mais apareceu nas peladas.

Saudade de abraçar o Jayme, gerente do supermercado que regularmente frequento, o Paulinho, banguense, que para tornar mais agradável o sol e a brisa do mar, serve a mim e à minha esposa os cocos mais gelados da sua barraca.

Saudade de abraçar o Felipe, endócrino que cuida da nossa saúde, de abraçar o Cláudio, o Rodrigo e o resto da turma da academia.

Saudade de vibrar com o Maracanã transbordando na “alegria de ser rubro negro”, na atenta observação do balé mágico sob a regência de Jesus e a execução sob o comando do Éverton Ribeiro, nosso canhotinha de ouro.       

Enfim, saudade de abraçar, dos dois beijinhos no rosto, de cumprimentar com um longo aperto de mão, de gargalhar muito, de falar ao pé do ouvido.

 

Como sou um otimista profissional, desses que ri de topada e acha que calo no pé é sempre sinal de sapato novo, penso que mesmo nas coisas ruins sempre tem um pedaço, mesmo que seja um pedacinho só, de coisas boas e, neste caso, penso que na verdade é um pedação de coisas boas e quero destacar a principal.

Percebemos que não nos completamos sozinhos e que precisamos uns dos outros. De repente uma grande corrente de solidariedade se formou para cuidar dos idosos, das pessoas carentes, dos necessitados. A pandemia nos ensinou que precisamos viver em comunidade, que solidariedade sempre cai bem e que gente é o mais importante.

Para mim esta é a grande lição que nos marcará para sempre.


— * Helvecio Santos é advogado e economista. É santareno e mora no Rio de Janeiro, de onde escreve regularmente para este blog.   

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Ainda sobre minhas lembranças em Santarém.

Nos tempos do estádio Elinaldo Barbosa.

Obrigado, Dona Nair! A consertadeira do meu joelho.

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2 Comentários em: A grande lição do novo coronavírus. Por Helvecio Santos

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  • Laertes Brito de Andrade disse:

    Grande poeta Helvecio… acho que é meu primo de segundo grau.

    1. HELVECIO SANTOS disse:

      Seu nome “Andrade” me remete aos tios Roberto, Patrício, entre outros. Nasci na Costa Fronteira de Óbidos e de lá sai quando tinha 6/7 anos. Sou santareno por amor. No meu proseio, “Nasci de Palmira, por mira de Cassiano/ No mês da castanha podre, da enchente grande o ano/[…]”. Quem são seus pais? Quem sabe somos parentes mesmo. Grande abraço e obrigado pela leitura do meu texto.