Ainda sobre minhas lembranças em Santarém. Por Helvecio Santos
Praia em frente à igreja de N.S. da Conceição, em Santarém. Década de 1940-50. Foto: Ignácio Ubirajara Bentes de Sousa Filho/Você se lembra?

Buscando estudo para os filhos e agregados, no ano de 1956 mamãe e papai colocaram todos a bordo do nosso barco Miragem movido a um possante Archimedes-10×12 e soltaram amarras do beiradão do Amazonas rumo a Santarém.

Desde então a Rua 24 de Outubro passou a ser meu “chão”.

Inicialmente moramos perto do cruzamento com a Travessa 2 de Junho e depois no quarteirão entre as travessas Augusto Montenegro e Padre João.

Helvecio Santos *

Nesta época nosso parque de diversões ia da Praça do São Raimundo até a Praça Rodrigues dos Santos e nesse pequeno mundo nossa turma sempre arranjava diversão e algumas “pilantragens”. Umas, não muito ortodoxas mas na nossa inocente adolescência, eram meros pecados veniais.

Nesse caminho de areia ladeado pela calçada das casas, normalmente feitas a uma altura de meio metro do nível da rua, meu querido mano Eriberto, Miltinho, Gaguinho, Zé Fraqueza e outros mais, se não estivéssemos estudando ou ajudando nossos pais, sempre estávamos em “atividade”.

Se tivéssemos bola, nos finais de tarde rolava uma pelada e se não, só restava mendigar uma vaga nos rachas de vôlei nos fundos do quintal da Dona Nazaré.

No estaleiro do “Seu” Cajuhy encenávamos vibrantes “bang bang” e à noite na praia montávamos tendas indígenas com sobras das palhas do “Seu” Totó. No nosso entendimento, as tendas e o areião compunham cópias perfeitas das pradarias do Velho Oeste vistas nos vesperais de domingo no Olímpia.

 

Assaltávamos os curumizeiros do extenso quintal da casa do “Seu” João- hoje uma casa de “bons costumes” quase na esquina da Padre João -, e o mesmo fazíamos com as goiabeiras, araçazeiros e ateiras do quintal da Casa Velha, uma construção abandonada, onde na calçada nos reuníamos à noite para traçar “planos”, trocar gibis ou simplesmente jogar conversa fora.

Mas se no quintal da Casa Velha bastava ter cuidado com os cacos de vidro que infestavam o chão, no quintal do “Seu”João” a coisa não era tão fácil!

O “infeliz” que fosse apanhado no flagra pelo “Seu” João isto é, no galho da frutífera, era cutucado com uma extensa vara e o “tarzan” tinha que ser rápido, pois além de desviar-se dos “cutucos” tinha que descer do curumizeiro, pular a cerca e sumir no extenso areião da praia branquíssima que ornava a frente da cidade.

No cruzamento com a Padre João, seguidamente fazíamos valetas no caminho dos carros e cobríamos com gravetos, folhas de árvore e areia para “atolar” as “baratinhas” dos então taxistas, que voltavam para o almoço e a sesta.  

A fome, o causticante sol e a angústia do piloto agastado por não ter visto o buraco, eram aliviados pela chegada do socorro. Logo aparecíamos com pedaços de tábuas, pedras, nossos braços e negociávamos uma “ajuda”.

Dinheiro na mão, rapidamente o veículo era posto “a salvo”.

O trocado servia para comprarmos a bola de sernambi para as peladas na praia à tarde ou, na rua, aos domingos, até que alguém nos botasse para correr por incomodarmos a sagrada sesta dominical.

Naquela época de poucos carros motorizados, o transporte de carga e até mudanças eram feitos quase que exclusivamente por carros de boi, e tínhamos o nosso preferido.

Para nós o animal mais bonito e a carroça mais bem pintada era a do “Seu” Mingote. Ele morava na Silvério, depois da Praça do São Raimundo e ao meio dia e ao cair da tarde, lá vinha aquele animal de pelo sedoso e andar elegante, ruminando com vagar, aparentemente pouco se importando com a triste sina que o homem lhe dera.

Voltava do “ponto”ali perto da Usina de Luz, hoje Mercado Modelo, para o merecido descanso.  

Naquele dolente caminhar vez por outra ele enchia a rua de “material fedorentíssimo” e  o que para os outros era uma porcaria, para nós era o complemento necessário numa das pecaminosas venialidades.   

Na Santarém dos meus sonhos sonhados, das serenatas ao luar, de trocas de juras de amor ao pé do ouvido comportadamente sentados em cadeiras na frente das casas, à vista dos pais, os namoros aconteciam das 19:00 às 21:00h e ai de quem chegasse atrasado!

Era briga na certa e se o romance não estivesse firme, era fim de linha, com certeza!

A pouca luz na rua que ajudava a esconder as mãos que nervosamente se entrelaçavam, também era nossa aliada.

Quando o boi do “Seu” Mingote ajudava e um novato mancebo namorador, cheiroso que nem filho de barbeiro pintava lá no início da rua, aí os ingredientes se completavam.

Quando a “vítima” se aproximava, a molecada fingia que uma briga estava prestes a acontecer. Brotava o lado curioso do ser humano e o pobre coitado se juntava ao grupo para ver a briga.

Os “brigões” se miravam, um armado com um pedaço de pau, tipo cabo de vassoura. Olho no olho iam rodando e fingindo se estudar.  Quando o armado estava bem em frente do namorador, era provocado pelo outro: só não te bato porque tu estás com esse pau na mão! Que de pronto, respondia: ah! É? E olhando para a “vítima”, dizia: segura aqui!

A pouca luz ajudava e o curioso não percebia que o pau estava “batizado”. Pego de surpresa, o cara esticava a mão e tão logo pegava o pau, o mesmo era puxado e parte do esterco deixado no chão pelo boi do “Seu”Mingote ficava na mão do ex cheiroso.  

Aí era “perna pra que te quero” e moleque correndo pra todo lado.

A “vítima”, estático, sem reação, não sabia o que fazer. O fedor não saia e só restava voltar para casa.

A noite estava acabada!

Naquela época telefone era luxo e sinal de “status”. Onde havia era acomodado pomposamente numa mesinha alta e coberto com um luxuoso pano bordado, tratado como divindade.

 

Assim, impossível ligar. A preocupação a partir de então era arranjar uma desculpa para o involuntário “chá de cadeira” na amada.

Falar que foi olhar a briga e botou a mão na m(*)? Jamais! Era muito humilhante!  

No dia seguinte lá vinha o cara. Da molecada? Nem sinal! E esse sumiço ia demorar um tempo.

Na verdade estávamos em postos estratégicos, observando. Se cabisbaixo, em pouco tempo o namorador estivesse voltando, ia precisar de muito papo para reconquistar a amada.

Que maldade! Mas quem na adolescência nunca fez coisas assim? 


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Um comentário em: Ainda sobre minhas lembranças em Santarém. Por Helvecio Santos

  • Parabéns pelo texto. Gostei da forma como vc conta sua percepção de Santarém.. Meu pai veio aqui nas décadas de 50/60. Falava do bar Mascote, meio como um trapiche e da proximidade do rio Tapajós. .Não havia Orla, não havia av. Tapajós. Queria ter conhecido Santarém nesta época. Obrigada

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