Lugar de mulher também é na política. Por Regiane Pimentel

As eleições estão chegando e isso sempre mexe comigo quando penso em representatividade. Eu me pergunto o por quê das mulheres terem tanta resistência em votar em outras mulheres, e falarei sobre isso hoje.

Representamos a maior parte do eleitorado brasileiro, e mesmo assim não ocupamos a maioria dos cargos políticos. As mulheres precisam se fazer essa pergunta, eu me faço todos os dias.

Regiane *

Apenas 15% das pessoas que ocupam o cargo de vereadores no Brasil são mulheres. Na Câmara dos Deputados, somos apenas 77 mulheres. No Senado, 12. Em todo o Brasil, apenas 12% das prefeituras são geridas por mulheres. Eu, sinceramente, não acredito que sou a única mulher que acha isso um absurdo.

Bom, isso tem razões históricas, econômicas e sociais, com toda a certeza. Afinal, só na década de 1930 tivemos direito ao voto. Fomos um dos países que mais demorou a reconhecer esse direito, mesmo as mulheres sendo hoje o maior eleitorado, ficamos muito de fora das decisões políticas que envolvem as nossas vidas.

Também há o machismo estrutural por trás desse tema. Por muitas décadas foi impregnado nas mentes das mulheres que política era coisa de homem, e acabamos levando isso muito a sério, infelizmente.

 

É inadmissível que mesmo com a nossa imensa participação na economia do nosso país, ainda ocupemos pouquíssimos cargos políticos. Mulheres, nós precisamos mudar essa realidade, dada a nossa importância como eleitoras e cidadãs.

Ter mulheres no Congresso vai além de uma mera representatividade, isso mexe com nossas estruturas positivamente. Isso reduz a diferença entre homens e mulheres em outras esferas também. Quanto mais postos ocuparmos no governo mais igualitário tende a ser esse país e mais preocupado ele será com as pautas femininas.

O país está atravessando um debate de pautas como aborto, assédio e maternidade. E em sua maioria são os homens que estão decidindo sobre temas tão nossos, não é possível que apenas eu ache isso um absurdo.

Muitas mulheres foram usadas como laranjas, algumas nem sabiam que estavam concorrendo a um pleito

Nós, como mulheres, estamos fora da elaboração dessas políticas públicas tão importantes para a nossa classe, ou seja, as mulheres não se encontram devidamente representadas nesse sistema vigente, nem mesmo quando as pautas nos dizem respeito.

Para melhorar a atuação e a chegada das mulheres aos cargos do governo brasileiro foram criadas as cotas eleitorais ( lei que assegura uma porcentagem mínima de 30% e máxima de 70% a participação de determinado gênero em qualquer processo eleitoral vigente).

Mas nem assim, nem mesmo com uma lei determinando nossa participação no processo eleitoral conseguimos ter voz e representatividade, muitas mulheres apenas foram utilizadas para facilitar as candidaturas de outros homens e conseguir verba para os partidos.

Muitas dessas mulheres foram usadas como laranjas, algumas nem sabiam que estavam concorrendo a um pleito. A consequência foi o subaproveitamento de mulheres que poderiam estar engajadas, mas candidataram-se apenas para cumprir a lei, por pressão dos partidos.

O Estadão fez uma reportagem sobre isso em 2018, mulheres que foram usadas para apenas completar a cota mínima, e em alguns casos, para desviar recursos públicos eleitorais.

Eu fico pensando: até quando seremos subjugadas? Durante toda a história fomos deixadas de lado, fomos impedidas de estudar, de votar, de sermos nós mesmas, o mundo tirou nossos sonhos, nos enfiou na cabeça que viemos nesse mundo para servir os homens e para procriarmos, mesmo assim, ainda hoje, parece que nada mudou.

Muitas mulheres ainda têm dificuldades de ocupar cargos de poder, serem eleitas, ou terem voz ativa nas tomadas de decisões políticas, e isso ocorre devido à exclusão histórica das mulheres na política e em todas as esferas socioeconômicas. Assim sendo, percebemos que as desigualdades de gêneros históricas e culturais transbordam para o campo político e minam para a participação política feminina.

Eu não vou muito longe. Aqui em minha cidade, mesmo as mulheres sendo a maioria do eleitorado só temos uma, apenas uma mulher na Câmara de Santarém. Dizer que isso é um absurdo, ainda é pouco, eu realmente nem consigo conceituar, isso me deixa perplexa do quanto uma mulher não confia em outra mulher para lhe representar.

A falta de mulheres na política institucional reflete fatores culturais retrógrados, que minam o papel da mulher enquanto agente modificador na sociedade. Isso mostra que ainda vivemos em um país patriarcal onde a mulher tem uma posição de inferioridade em relação ao homem em todos os níveis sociais.

Segundo o Inter-Parliamentary Union, o Brasil é um dos piores países em termos de representatividade política feminina, ocupando o terceiro na América Latina em menor representação parlamentar de mulheres. Hoje, temos apenas uma Governadora em nosso pais, no Estado de Roraima. Brasília é a unidade da Federação que tem a maior participação feminina no país.

Mesmo depois de 20 anos da instituição da primeira política afirmativa em prol das mulheres na política, as estatísticas continuam a indicar um quadro de desigualdade entre os sexos.

Segundo o ranking atual, os dez primeiros países com presença política de lideranças femininas são: Nova Zelândia, Chile, Reino Unido, Suíça, Ilhas Marshall, Myanmar, Islândia, Noruega, Peru e Alemanha.

Quanto tempo ainda vamos ter que esperar para vivenciar de fato a igualdade entre homens e mulheres?

Nem mesmo as políticas de cotas que tem como fundamento a reserva de vagas para as mulheres por lei, não está sendo a forma mais justa de garantir a elevação da representação política das mulheres.

Os fatores que fazem com que as mulheres não votem em outras mulheres são muitos, é um processo histórico que vem ocorrendo pelas mãos dos próprios homens, é claro. Assim eles se perpetuam na política, fazem o mundo parecer com eles enquanto nós somos subjugadas e deixadas á margem. Quer um exemplo? Até para cumprirem um direito nosso previsto em lei temos que fazer uma gritaria e tratar isso como um favor.

Essa cultura colocada em nossas cabeças de que mulher não tem técnica e nem o conhecimento necessário para a política é outra falácia que, infelizmente, perpetua até hoje.

Mulheres livrem-se dessas amarras, não acreditem nessa falácia, isso é um meio de controle e opressão para que não estejamos tomando decisões nos espaços de poder. Mulher tem competência sim para realizar qualquer serviço que o homem exerce.

 

Não permita que um homem lhe convença de que ele vai lhe representar, isso é a maior mentira. Os homens só representam seus próprios interesses, tem sido assim há séculos durante toda a história e eles nos usam como escada para manter essa pirâmide funcionando, sendo que eles estão no topo e nós lá embaixo.

Quando um homem diz que defende as mulheres contratando-as em seus gabinetes, em suas casas, escritórios ou seja lá onde for, ele só está deixando claro que usa de seus privilégios para manter mulheres sempre como subalternas e jamais em cargos de chefias, acordem.

Eu lhes digo, pesquisem sobre as mulheres maravilhosas que temos em nossa política, estudem sobre nosso lugar como agentes modificadores, não caiam nesse papo machista de homens que estão tirando o nosso lugar de fala e nossa representatividade, votem em mulheres, libertem-se dessas correntes, jamais um homem vai nos representar, jamais, precisamos desconstruir essas falácias, a mudança tem que vir de nós, não vamos aceitar sermos o maior eleitorado e mesmo assim não nos sentirmos acolhidas e representadas nesse meio.

A democracia, só existirá de fato se as mulheres estiverem mais representadas em nosso cenário político tornando nossa sociedade mais igualitária, justa e inclusiva. Só assim haverá, de fato, representação feminina equivalente ao papel que a mulher ocupa na sociedade.


— * Regiane Pimentel é bacharel em direito, feminista e ativista social. Reside em Santarém (PA). Escreve no blog sobre feminismo.

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